O corte que Homero opera entre seu mundo e o da Mulher Primordial — por meio das palavras dos anciãos — tem consequências decisivas, pois demonstra que o mito de Nêmesis como mãe de Helena era pré-homérico: o poeta dos Kypria não poderia ter transformado Leda em Nêmesis se não houvesse já antes de Homero a concepção da mãe de Helena como grande deusa de uma idade e de um mundo mais antigos.
A situação característica dos Kypria só podia verificar-se se já antes de Homero a mãe de Helena era concebida como Nêmesis
A figura primordial não havia ainda desaparecido, e o poeta dos Kypria não pôde subtrair-se ao seu fascínio, mas tentou transfigurá-la segundo o espírito homérico
Antes de Homero essa figura não era apenas uma grande deusa, mas também um símbolo — uma eloquente imagem da feminilidade cósmica que paria sua filha e seu alter ego: o belo mal para os homens
Por obra de Homero, esse símbolo — que como experiência primária da humanidade portava em si ainda as antinomias de um mundo primordial e ligado à natureza — perdeu sua consistência
Em seu lugar permanecia a potência invencível da última ordem, como possibilidade atemporal e assexual do cosmos, em virtude da qual as normas cósmicas transgredidas se vingavam
O poeta dos Kypria queria exprimir ambas as coisas — a ideia da compensação cósmica e a deusa primordial — em uma única figura; e é isso também o que o culto fez
Até o fim da Antiguidade persistia a ideia de uma vingança que com potentes batidas de asas se aproximava das margens do cosmos ordenado, emergindo de inesgotáveis abismos de profundidade