A correspondência estrita entre mito e existência — o caráter arquetipal e o significado existencial da mitologia — não foi deduzida pelos etnólogos da realidade grega tal como chegou pela tradição, embora seja altamente provável e quase evidente que essa relação deva ter sido a mesma entre os gregos como entre os povos em que foi possível observar a mitologia em estado vivo.
K. T. Preuss, em suas pesquisas entre os índios Cora, falou das “condições presentes e fenômenos constantemente recorrentes” que eram certificados “por um evento único na era primordial” — e Bronislaw Malinowski, em seu livro Mito na Psicologia Primitiva, baseado em observações nas Ilhas Trobriand ao norte da Nova Guiné, formulou com mais precisão: “O mito tal como existe em uma comunidade primitiva, isto é, em sua forma primitiva viva, não é meramente uma história contada, mas uma realidade vivida.”
Malinowski prossegue: “Sustento que existe uma classe especial de histórias, consideradas sagradas, incorporadas em ritual, moral e organização social, e que formam uma parte integrante e ativa da cultura primitiva. Essas histórias vivem não por interesse ocioso, não como narrativas fictícias ou mesmo verdadeiras; mas são para os nativos uma declaração de uma realidade primeva, maior e mais relevante, pela qual a vida presente, os destinos e as atividades da humanidade são determinados.”
Para uma correspondência como essa entre “uma realidade primeva, maior e mais relevante” e “a vida presente, os destinos e as atividades da humanidade” — entre “mito” e “existência” —, a linguagem dos platônicos ingleses possuía uma terminologia que também foi adotada em parte por uma tendência da psicologia moderna: arquetipal para o original e intemporal, ectipal para o que lhe corresponde em nosso mundo temporal.
A escolha de C. G. Jung pela palavra “Arquétipo” em sua teoria psicológica tinha seu fundo em nossa cultura ocidental e em sua tradição humanística — mas o termo “arquetipal” já havia sido usado nas línguas das nações ocidentais para designar um fenômeno com que qualquer investigação empírica da mitologia tem de lidar; um fundamento histórico para o paralelismo observado pelos etnólogos entre o mundo dos deuses e o “mundo ectipal” é fornecido pela tradição grega.