KERENYI

Károly Kerényi (1897-1973)

Kerényi frequentou na juventude numerosos especialistas ilustres das ciências da Antiguidade, mas nunca considerou nenhum deles seu “mestre”, apenas professor ou interlocutor privilegiado.

O que distinguia Thomas Mann dos demais “grandes incentivadores” era sua qualidade de poeta enquanto “vidente” — capacidade de ver e, paradoxalmente, criar ao mesmo tempo as “figuras” (Gestalten) disponíveis ao homem como modalidades de consciência de seu “ser fundido” (Verwobenheit) com o mundo.

Os demais Dichter — “grandes incentivadores” apenas — eram incapazes de acessar criando a visibilidade das figuras, e só tinham direito ao título de poetas por compartilharem o sentido e o gosto da responsabilidade individual do compor.

O “grande mestre hermético” Thomas Mann podia inclusive afirmar coisas refutáveis sem deixar de ser mestre, pois o que o definia era o modo de afirmar compondo — seu modo de se colocar diante de si mesmo e do mundo como vidente, “grande entelequia com inclinação mitológica, com índole mitológica, que é lícito considerar como forma fundamental, com os traços maliciosos de um ser hermético.”

A composição da obra de Kerényi por agrupamento de ensaios autônomos, frequentemente já publicados, e a instabilidade das coleções de edição em edição não derivavam apenas de exigências editoriais, mas constituíam método de trabalho e gosto.

O ensaio autobiográfico de Kerényi abre com a citação “Homem, nunca diga 'eu'!”, pois um autorretrato que consista em dizer “eu” não pode possuir — para quem não é vidente — a plasticidade de um autorretrato fluido como a figura de um mitologema.

A ciência da mitologia é ciência do “homem secreto”, e Kerényi a ela se dedicou de modo maneirista, dentro de espaços compositivos de livros que sempre apenas aludiam ao livro.

O traço que distingue Kerényi do “pagão” Walter F. Otto é o sentido da distância dos antigos e da identificação impossível — sentido em que consiste, paradoxalmente, a única via de percepção profunda do que temos em comum com eles: a via da ciência enquanto reflexão sobre a ciência.

Só os “meditativos peregrinos” — como apareciam nos tons desbotados dos passeios antiquários os estudiosos do século XIX mais atentos às imagens dos antigos — podiam percorrer zonas de natureza e de monumentos que tendiam a constituir o território do sonho, onde o eu mesmo parece mais distante e fluido.

A imediatidade do encontro com as imagens da mitologia antiga é para Kerényi interditada ao cultivador da ciência da mitologia — e aqui reside provavelmente o motivo principal de sua discórdia com Jung, discórdia concors que deu lugar à publicação dos Prolegômenos ao estudo científico da mitologia.

O arquétipo de Jung nunca é visível em si mesmo, mas apenas suscetível de hipostatização como resultado de sua função formativa; o “arquétipo” de Kerényi pode em si e por si ser visível a qualquer homem e é seu segredo.

A distância entre “arquétipo” (Jung) e “protótipo” (Kerényi) é a que existe entre duas diferentes avaliações do que os “meditativos peregrinos” teriam podido encontrar se tivessem avançado pelo agro: imagens, para Jung; máscaras, para Kerényi.