Lecouteux

Claude Lecouteux

Régis Boyer, “Prefácio” a Les Nains et les Elfes au Moyen Âge

O que torna interessantes os livros de Claude Lecouteux — como Fantômes et Revenants au Moyen Âge — não é apenas sua vasta erudição, seu método crítico e o escrupuloso respeito que ele concede aos próprios textos antes de qualquer interpretação, mas seu dom para comparar culturas, realizando saltos inesperados mas perfeitamente pertinentes da cultura germânica continental para as culturas céltica, latina medieval ou escandinava antiga.

O mérito maior de Claude Lecouteux é demonstrar de modo inigualável que nossas ideias a respeito do que se chama “mitologia inferior” são muito diferentes do que pessoas superficiais poderiam imaginar — e que não conhecemos os anões e elfos bem o suficiente, nem eles correspondem remotamente à ideia que construímos deles.

Nem todos os anões são pequenos ou bons, ao menos originalmente — isto é, antes do lento trabalho de desvalorização e degradação que a Igreja e seus clérigos empreenderam pacientemente ao longo dos séculos.

Dois princípios de partida merecem atenção: é preciso, primeiro, distinguir claramente literatura e crenças — sendo que as crenças são frequentemente apenas as fezes do mito — e, segundo, reconhecer que essas crenças sempre evoluíram e continuam a evoluir em um mundo duplo cujos dois planos não são estranhos um ao outro.

A figura de Alberîch, Alfrekr, Aubéron, Oberon emerge em escala maior após a leitura — personagem sobre quem se tem o hábito de emitir afirmações categóricas, mas cujos traços o fazem um “anão” enquanto seu nome implica que é provavelmente um elfo.

Loki, o deus do “mal” — ou seja, da desordem — é a criatura mais exasperante para o pesquisador contemporâneo da mitologia escandinava, suscitando questões sobre sua pertença aos Æsir ou aos Vanir.

Um ponto que emerge claramente do estudo é que não se deve fazer uma distinção rígida entre gigantes e anões — pois o primeiro estágio da mentalidade religiosa dos antigos germânicos baseava-se num culto dos mortos, dos ancestrais e, em particular, dos grandes ancestrais fundadores de linhagens e clãs.

Em outras palavras: os anões são os mortos — daí terem o mesmo tamanho que nós, como claramente preservado pelos trolls noruegueses, e serem “retorcidos” em todos os sentidos da palavra, incluindo o uso popular, assim como os cadáveres na sepultura.

Quanto aos elfos, caberia perguntar se Lecouteux não poderia ter enfatizado mais a questão — pois há duas faces no fenômeno da morte: um aspecto físico e um aspecto mental, tradução da dicotomia mente-matéria que obcecou o mundo ocidental por milênios.