Os nomes Arlequino, Allequino, Harlequino, Herlquin, Hallequin, Hellequin remetem a uma potência da noite, caçador de almas que percorre a floresta escoltado por uma matilha uivante, e cuja aproximação anuncia a morte.
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Um clérigo do século XIII, ao atravessar uma floresta cercado por esses gritos, soube que o bispo que ia visitar estava morrendo.
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Essa matilha infernal é denominada la Maisnie Hellequin.
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Hell e Holl são vocábulos germânicos do Além, morada benéfica ou maléfica das almas dos mortos, e o Além possui ao mesmo tempo natureza subterrânea e celeste.
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Holy significa sagrado; Hell significa inferno; Holle designa a potência feminina da Morte.
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“Madame Holle” faz cair neve sobre a terra ao sacudir o edredom de sua cama.
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O Infernum é a região de baixo; os astros mergulham sob a terra e ressurgem no espaço celeste.
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O caráter simultaneamente subterrâneo e sideral do Além, que muitos arqueólogos e historiadores da arte negligenciaram ao classificar divindades em ctônicas e uranianas, aparece de forma concreta nas sepulturas egípcias, onde os mortos seguem as barcas dos astros em seu percurso sob a terra e seu retorno ao céu.
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Todos os astros — sol, lua, planetas, constelações zodiacais — mergulham sob a terra à direita do observador voltado para o Sul e ressurgem à esquerda no dia seguinte.
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A orientação sagrada universal é a curva da eclíptica.
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Essa visão do cosmos é dado fundamental do pensamento antigo, que registra com acuidade o que observa.
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O Hino Órfico à Noite, entre os gregos, expressa claramente esse Além ao mesmo tempo terrestre e uraniano, na tradução de Leconte de Lisle.
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A Noite é invocada como deusa que brilha na obscuridade, que circula pelo espaço, que caça a luz em direção a Aides, o Além dos mortos, ou retorna a ele, sob o peso da Necessidade que domina tudo.
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A miniatura das Horas de Etienne Chevalier, pintada por Jean Fouquet, mostra a representação ao ar livre do Martírio de Santa Apolônia, onde um diretor-chefe de coros comanda músicos, atores e figurantes como numa produção de grande espetáculo; o lugar cênico do Inferno e da Morte é figurado à direita da imagem, isto é, a Ocidente para quem acompanha a ação como acompanharia o curso dos astros.
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A entrada do Reino dos Condenados, nessa miniatura, é uma enorme Cabeça de Cão Negro de boca escancarada — o Grande Cão da Noite —, identificado como fonte do Teatro.
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O ator que emerge dessa boca, guardião e atormentador das almas pecadoras, carregando um Bastão nodoso, evoca um animal peludo, pardo, de cabeça redonda, focinho e lábios de fera.
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Sob a máscara e as “diableries” de Arlequim se descobre não apenas o Fauve, mas, mais além, a Noite, a Morte e as trevas cósmicas.
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Em arqueologia teatral, basta raspar a superfície para que o Sagrado apareça como intuição da unidade do universo para além das noções aparentemente contraditórias de Vida e Morte, e Artaud dedicou sua vida a proclamá-lo.