Uma velha balada lituana formula a questão de quem cortou a cabeça à Lua, respondendo com PERKUN, Perkuns, Perkunas, a potência do Raio e do Orage na Lituânia.
O mito explicativo se esclarece: se a Cabeça-Lua está sem corpo, é porque um grande golpe de sabre a decapitou, e esse sabre reluzente é o relâmpago.
A ideia pode remontar antes da invenção do metal e das espadas, pois o silex que faz a faca cortante e permanece o instrumento do sacrifício é a pedra de Foudre.
O mito de Sémélé se ilumina por esse conjunto — e Cícero tinha razão em ver em seu nome Séléné a Lua Cheia —, pois é pelo encontro do Relâmpago e do Raio que ela perdeu seu corpo, e a Noite, o Relâmpago e o Orage presidiram com a potência Lua, Cabeça sem corpo, ao nascimento de Dioniso.
O mesmo círculo estreito de vocábulos persiste: PER-Kun equivale a PERSE-Phon, e Persé-Phon é também a mãe de Dioniso na segunda grande versão de seu nascimento.
PERSEUS, Persée, é o mais famoso decapitador da Cabeça-Górgona-Medusa, a tal ponto que essa imagem, ponto central de seu mito, ficou permanentemente ligada ao seu nome.
Persée é também a criança nascida de sua mãe morta em um cofre lançado ao mar e milagrosamente salvo das águas na margem de Argos.
As imagens sagradas propagadas sob nomes que parecem diferentes remontam a um pequeno grupo de raízes e percorrem um trajeto que vai de Ousir/Osiris a Peredur/Perceval, passando por Moisés, Persée, Perkuns e Dioniso.
Essas imagens foram repertoriadas e explicadas em outro estudo mais detalhado, Les Nuits de l'An de la préhistoire, a ser publicado pelas Editions de Poliphile.
Testemunham uma cultura religiosa pré-histórica difundida por vastas regiões e bem anterior aos Egípcios.
Para fechar perfeitamente o círculo dos Mestres do Relâmpago decapitadores da Cabeça-Lua, faltaria uma attestação clara de um vínculo mitológico entre Persée e Dioniso, e essa attestação existe: em Delfos, centro de religiosidade primordial, em Lerné, em Argos, é Dioniso quem foi MORTO POR PERSÉE.
A indicação é fundamental e perfeitamente clara: Dioniso e a Górgona representam a mesma entidade.
Dioniso é antes de tudo UM MASQUE, potência lunar que dirige a atmosfera, o Orage, os Líquidos vitais e mais tarde o Vinho — bebida de exaltação desde sua invenção —, sendo a CABEÇA QUE SE METAMORFOSEIA nos traços e na forma de seu rosto tanto quanto em seu conteúdo mental, podendo essa cabeça mutante abandonar os limites do bom senso, passar de um impulso para o alhures e entrar em comunicação com a vibração secreta das coisas.
O masque gorgoniano ligado continuamente às outras representações de Dioniso nas taças e vasos, como testemunham as cerâmicas de Vulci.
Cabeças de Dioniso suspensas no ar como expressão desse mesmo conjunto simbólico.
Muito tempo depois, entre os Celtas, uma cabeça ritualmente cortada terá potência de adivinhação, em espelho desta Lua-Cabeça sem corpo, soberana das viagens da alma do outro lado do real aparente.
O masque gorgoniano dionisíaco é o que pode — com ou sem o auxílio da Hera, a planta psicotrópica — desencadear o delírio, o fluxo de imagens e o jato de energia inabituais classificados no capítulo da loucura.
Nota de rodapé: MEN, MON, MOON, MIN equivalem a Lua Mania, a exaltação lunar, a loucura, o coup de lune; maníaco equivale a lunático; Mainad é a lunar possuída de Dioniso, a sacerdotisa em delírio; MENT é o mês, o cálculo, o mental; mental case equivale a louco; e Man é uma Cabeça pensante, um homem.
Todo o mito de Dioniso está impregnado dessa potência formidável, que não é senão sound and fury, e a questão permanece aberta de se há, nas fontes do teatro, tema mais dramático.