O “Papai Noel”, tornado tão tristemente publicitário, pode ajudar a compreender como uma circunstância de festa sazonal se traduz em imagem por uma personagem mítica; Hera-Kles, o Gigante celeste K.LLws, foi em tempos distantes um Pai Ano Novo desencadeador de festividades inesquecíveis, semelhantes às suntuosas W.P. (Opa, Oupa, o mesmo vocábulo que em Kerk-Ops), as Luas de Abertura do Ano dos Egípcios.
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Nota de rodapé: Met-Ope: MT.WP., desta vez mais uma vez e não por acaso: MT, potência Lua e WP, Opa, Lua de abertura do Ano.
O Gigante com a Maça-marco marca o momento privilegiado, fora do tempo, a Noite de Passagem e de Renascimento.
Essa noite de passagem e de renascimento, mostrada pela metopa do degolamento da Gorgone em Selinonte – metopa vizinha à de Herakles equilibrando os Kerkopes – é também a dos sacrifícios rituais, em espelho da decapitação da Cabeça-Lua ao deixar o marco Sirius-Orion-Touro.
O assassinato ritual está indissoluvelmente ligado à noção de renascimento pela Festa do Ano; a festa da Vida é também a da Morte; a festa da Fecundidade, que passa pela sexualidade, é também a do Ato sacrificial, que passa pelo assassinato.
No riso de Herakles diante dos Kerkopes reencontra-se a mesma aliança – para nós contra a natureza – do assassinato, da sexualidade e do riso coletivo.
Há, portanto, na gênese do Riso humano, uma zona turva e perigosa, uma passagem pelos ritos coletivos sacrificiais, que explica o caráter de crueldade mortal que ele pode às vezes revestir; explosão de uma energia vital, emergência súbita do prazer de existir apesar das tensões do mental, o Riso exalta e, dirigido contra uma “vítima”, visa a seu aniquilamento.
O Riso e o ato teatral são indissoluvelmente ligados, nascidos das mesmas sobretensões e passados pelo mesmo banho de sadomasoquismo do qual a humanidade ainda não se recuperou, inerente ao conceito do assassinato sacrificial, que durou tanto tempo e continua emitindo arquétipos poderosos, geradores de comportamento individuais e sobretudo coletivos.
Essa coloração sadomasoquista foi denunciada por Santo Agostinho com violência, em palavras muito modernas: os espectadores vão ao teatro para ver sofrer e para sofrer, não para agir, e essa sofrimento é seu prazer, uma miserável doença mental; ele não buscava as causas profundas que se prendem às formas antigas da religiosidade, das quais as artes e o Teatro em particular saíram.
A mentalidade animista, que é ainda a da criança de nossos dias, é de duplo fio cortante.
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Intuição profunda da unidade do fluxo vital através da multidão das formas, ela é o próprio “conhecimento”, a única segurança à qual se pode prender o minúsculo grão de energia que nos constitui no meio do caos do universo; ela é o único catalisador da atividade criadora, é a Poesia, e também o elo entre os seres que faz com que reconheçamos parentescos profundos e não naufraguemos no deserto mortal do autismo; desse aspecto emana o Dionísio ativo, o distribuidor de Hera, a planta sempre verde de propriedades tônicas para o mental em pequenas doses, coroa dos poetas.
Confusão da Vida e da Morte, da Dor e do Prazer, por afogamento na confusão das formas, esgotamento do desejo de viver por impossibilidade de assumir uma dessas formas, eis também um aspecto possível do mesmo animismo, o Baco caótico que transparece em vários episódios de sua lenda.
Aí como em tudo se exerce o Tao dos elãs, das sinfonias e das dissonâncias da energia, e se delineia uma liberdade de integrar-se momentaneamente a tal ou tal corrente portadora de vida e de florescimento para abandoná-la quando ela se resolve em alienação e destruição.