Uma passagem de Diodoro de Sicília ecoa uma tradição particularmente explícita de que foi no momento em que Perseu cortou a cabeça da Górgona que Atena inventou as flautas de lâmina de bronze usadas ainda nos sacrifícios.
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A memória coletiva reteve que o Ato que deveria tornar-se artístico havia sido antes sacrificial.
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Esse ato sacrificial estava ligado à celebração da Cabeça gorgoniana, do Raio e do Orage.
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Tais parecem ter sido as formas primeiras do que, milênios depois, deveria tornar-se a amável serenata à Lua.
O vocábulo P.T.R ou P.R.T revela toda a sua importância como o vocábulo mesmo da PASSAGEM e da AMBIGUIDADE.
Aquele que deveria tornar-se o melancólico doador de serenata, marcado por uma lágrima na face, é Petr, Piotr, Peter, Petrus, Pietro, Pedro, Pedrolino, Petrouchka, PIERROT.
Pierrot não é senão uma Cabeça: redonda, branca, posta sobre a auréola da colarina, coroada pelo barrete negro da invisibilidade anunciador da lua minguante, cabeça puxada para o alto por uma aspiração para algo além da terra, deixando o corpo e os braços balançantes, marionete por essência, a meio caminho do Além.
A ambiguidade de Cabeça masculina ou feminina é a ambiguidade lunar e a ambiguidade de Pierrot, mas também a ambiguidade de Dioniso, que é ao mesmo tempo Priapo — sexo masculino agente, que se diz seu filho — e um corpo feminino, Dioniso que se enfeita e veste como uma moça e só encarna toda a sua potência na forma da Mênade, feminilidade dançante e sem entrave.
A figura primordial do sacrifício ritual de dominante lunar que deveria tornar-se teatro é andrógina, e os conservadores de museus hesitam entre Masque de Dioniso e Górgona barbuda.
O conceito da unidade da força vital além da diferenciação sexual parece tão profundamente ligado às origens da representação teatral que continuou, quase sem interrupção, a nutrir a imagem dramática até hoje, com o teatro sagrado sendo jogado por homens que se fazem mulheres para representar as entidades femininas, ao ponto de tornarem-se mulheres — tradição grega que encontra a tradição japonesa tanto quanto o teatro elisabetano.
O jogo teatral pode ser o lugar onde se abole a etiquetagem sexual imposta pelo jogo social, onde o animus e a anima, o yang e o yin, a masculinidade e a feminilidade podem manifestar-se em sua verdade, sendo o ato teatral, por sua própria origem, trans-sexual.
PETR ou PERT/PORT, o do Passage, é rico em múltiplas gamas de ambiguidades significantes.
PETR carrega ainda em seu nome PARDO, esse leopardo familiar, pantera ou lince malhado de Dioniso que subentende o personagem de Arlequim e que contém, ele próprio, a ambiguidade do Raio, energia de Vida e de Morte.
A unidade profunda, sob a gemeidade e o antagonismo aparente, do Pierrot e do Arlequim se revela na passagem do masque branco de dominante lua ao masque negro de dominante raio, sendo PETR, o PITRE, de duplo rosto.
A Cabeça Lua-Cheia gorgoniana é a senhora incontestada dos líquidos vitais — água, sangue, seiva e também a lava incandescente dos vulcões —, e a sabedoria da Foudre encontra a sabedoria do Silex que encontra a sabedoria dos Vulcões, ensinando que os líquidos podem ser fogo e que o fogo pode transformar-se em pedra, sendo o vulcão a pedra intermediária hesitando ainda entre o fogo, o líquido e o sólido.
Gorgo-Medousa, a Górgona, detém em seu olhar de Lua cheia o poder de fazer tomar à aparência móvel a aparência imóvel: a Cabeça redonda cortada PETRIFICA.
É PERT, Persée-Perkuns, o Cortador de Cabeça-Lua, que, com a cabeça de Medusa no punho, transforma em PEDRAS todos os que se opõem a ele.
O jogo de palavras sobre Petra e Petros que o Evangelho empresta ao Cristo — Tu és Pedro e sobre esta pedra… — não é fortuito, existindo também em Hebraico sobre um vocábulo lunar diferente, K.PH, pré-indo-europeu, tema da Cabeça: Kephas, nome do apóstolo e nome da pedra, e nesses velhos termos Keph- ou Petr- vibrava ainda a lembrança da Potência que faz passar as almas e transforma as coisas.
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Nota de rodapé: compare-se Céfée, en-céphale, latim K.P. ou C.P.T.: caput, a cabeça, o chefe.
A estátua do Comendador é, ela também, um arquétipo teatral apto a atravessar o tempo.
A ambiguidade do Ato sacrificial se revela nas taças dionisíacas: a Mênade desmembrando o Leopardo é ela mesma o Leopardo; desmembrando o filhote de cervo, ela é o filhote de cervo, assim como PERT-PTR Cortador de Cabeça-Lua é também a Cabeça-Lua petrificante, e na magia do Ato o sacrificador e o sacrificado se identificam.
O Ato ideal é o reencontro com a unidade da vida por uma passagem voluntária através da agonia e da morte, e tantos ritos, entre os Indígenas em particular, o demonstram: a negação do sofrimento só pode se fazer por uma passagem voluntária através do sofrimento, a negação da morte só pode se fazer por uma passagem voluntária através da morte.
O Ato teatral em sua essência é auto-sacrificial, nascido de um Ato ritual no qual a vítima consentente deve, para a sobrevivência do grupo, lançar-se no Além das aparências através de uma despersonalização violenta favorecida por um transporte sonoro e gestual.
Esse rito sacrificial original não terminou de emitir sua vibração de pânico no coração do espetáculo, e se poderia demonstrar que a tragédia antiga e a maioria dos filmes obedecem à estrutura de um ritual de morte — ritual tornado aberrante com o desaparecimento do conceito mental que era sua razão de ser: a ideia de que a morte e o sofrimento são apenas passagens para outro estado de existência, tornando-se um ritual de morte plana onde a observação curiosa do sofrimento físico e da agonia é a única motivação do espetáculo.
O arquétipo auto-sacrificial vela também no fundo da sensibilidade do ator: apesar dos milênios que fizeram perder em aparência ao Ato teatral toda a sua significação, o verdadeiro ator, aquele que se sente transmissor de energia secreta, é tomado de uma angústia sem medida comum com a emoção da rencontre crítica com o público, sendo velhos routiers do teatro, habituados a todos os truques do espetáculo, vistos tornarem-se seres trêmulos que é preciso empurrar ao palco — mas desde os primeiros gestos e palavras, PeRT, PeRS, o PERSONA, o masque de Teatro, toma o comando e conduz o ator, todo sentimento do tempo esquecido, até o desfecho.
O Teatro em Atenas em seus inícios ter comportado apenas um único ator não surpreende diante de tudo isso.
Na origem, crise de possessão por uma força dionisíaca que está além das diferenciações entre masculino e feminino, luz e trevas, fogo e água, vida e morte, o Teatro é um intenso jogo de masques.
O jogo é, finalmente, solitário.
Todo comediante sabe disso, mesmo que não descortine claramente as causas ancestrais.
Ser comediante é sempre desejar encarnar, sozinho, sob as luzes, por uma despesa de energia sem medida, um universo inteiro.
É SE COLOCAR SOZINHO, PELA MANIPULAÇÃO DAS DIFERENÇAS, ALÉM DAS DIFERENÇAS.