A cabeça de pássaro de bico curvo parece ter sido a imagem mais difundida desde a pré-história, encontrada no Magdaleniano na gruta de Lascaux, inspirando a silhueta do personagem lunar tipo dos mitos egípcios: o deus Thot, de cabeça de íbis.
O personagem “lua nova” de cabeça em crescente carrega as características lunares, sendo a mais importante o domínio dos líquidos vitais: a água, a lava, a seiva e o sangue, o que implica o domínio do ciclo feminino (28/29 dias) e da fecundação.
Quando as intuições, finas e diversificadas, dos tempos do caçador/coletor e do xamanismo sobre o funcionamento das forças de vida forem esquecidas, o personagem lunar permanecerá marcado por uma dominante de sexualidade que poderá parecer animal e “vulgar”.
O vestuário bipartido de Pulcinella recorda a redução da imagem lunar ao momento do primeiro quarto; o amarelo traduz o brilho (ouro), o vermelho, o fogo celeste da Tempestade cuja potência lunar é também soberana, como mostra a silhueta contrafeita do ferreiro do relâmpago celeste, Hefaistos.
O nome de Maccus, tema M.KH, parece ligado à noção de sexualidade feminina com ideia de derrisão; Maccho (grego), mulher estúpida de quem se zomba: “fazer a makko” = ficar boquiaberto como um imbecil; Macchus, latim, devasso e adúltero (aplicado a Júlio César cujas aventuras frequentemente homossexuais alimentavam a crônica: “moechus calvus”, o devasso calvo, gritavam seus soldados).
O nome de Pulcinella, diminutivo do tema P.LL.Kh, é muito mais significativo e pode ser considerado o vocábulo mais antigo, portador de imagens míticas, e é por essa razão que atravessou o tempo.
O nome Pulcinella conduz em duas direções: a primeira evoca a energia vital toda nova, pois P.LL designa em bom número de palavras o “pequeno”, filhote bem vivo de um animal, que em latim será Pullus.
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Conservam-se atualmente: Poule, poulet, poussin, também poulain, pouliche, palavras que permanecem carregadas de afetividade (termos de ternura) ligada à noção de “criança”.
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A tradução de Pulcinella por “o pintinho” que certos dicionários dão concorda com essa interpretação, correspondendo à “natividade” da lua em crescente e à aparência de “pintinho” pipilante que caracteriza a mais antiga silhueta do personagem.
A segunda direção é nitidamente sideral: P.LL e P.LL.K evocam a claridade, a luminosidade branca de um astro.
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Pallas Atena, a mestra dos cálculos lunares que resplandece na noite; resta a palavra “pale” (palidus).
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Pollux, estrela dos Gêmeos, companheiro de Kh-Astor, Castor, guardião da Via Láctea, setor celeste privilegiado da Passagem do Ano e da passagem das almas pela reencarnação.
Está-se portanto diante de um conjunto muito coerente que faz de Pulcinella o herdeiro de uma imagem teatral da lua nova em crescente à sua chegada no setor do céu noturno que dá o sinal da Renascença pelo sacrifício e pela fecundação.
Esse setor começa em P.LL, Pleias, Pleiad, o grupo cerrado da constelação das Plêiades, onde se vê a unidade de todos esses termos: P.LL é também o signo da “Chuva” fecundante, mas também “o pássaro”, a “pomba”, e é também Pulliceni: “os pintinhos”, pois todo o Medievo explica a constelação das Plêiades por um grupo de pintinhos (“a galinheira”).
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Pulliceni: Polecenella fecha o círculo em torno do “Pintinho”, o “Polegar” o menor mas o mais vigoroso, rodeado de seus sete irmãos (leitura das Plêiades atestada na América do Sul).
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Polecenella é o aparecimento do crescente anunciado pelas Plêiades.
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Nota de rodapé: Ver Cl. Levy Strauss op. cit.: “o cru e o cozido” e R.A. Lombard: “as noites do ano da pré-história” (edição de Poliphile).
Pulcinella, a meia-lua das festividades xamânicas primordiais, aparece como a terceira figura indispensável entre a lua negra – o felino de máscara obscura, detentor da energia da Tempestade, Arlequim – e a Lua Cheia branca e redonda, ambígua, sacrificial e carregada de almas em trânsito: Pierrot; em suma, “Pintinho”, vigoroso, obsceno e sarcástico, meio-homem, meio-pássaro, pipilando com sua voz alta e voando, crescente quanto ao nariz adunco, crescente quanto à forma da cabeça, crescente quanto à espinha corcunda.
Mensageiras do subconsciente coletivo, essas três figuras, alternadamente “cômicas” e “trágicas”, persistiram até nós sem cessar de estar ligadas à nossa emotividade profunda.
À medida que o grupo humano tomava sua dimensão aparente de senhor do mundo terrestre, essas figuras sofriam uma miniaturização contínua em todos os planos.
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De figuras cósmicas tornavam-se personagens humanas.
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De silhuetas gigantes tornavam-se “marionetes”.
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De P.LL, o brilho sideral e o pássaro Plêiade, fazia-se Pulccinella, o “pequeno” P.LL.
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De SWR/SWLL, o além da Via Láctea, fazia-se Hellquin, Arlequim, o “pequeno” H.LL.
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De P.T.R, o lunar criador e fecundante (Phtah no Egito), fazia-se Pedrolino/Petrouchka/Pierrot, o “pequeno” Pierre.
Assim vão as grandes ondas às quais obedecem os arquétipos sagrados, expansão e contração, “tudo funciona por oscilação compensada”, dizia Hermes Trismegisto.