A tempestade reúne em sua crise espetacular uma síntese condensada dos aspectos contraditórios da vida, sendo o fenômeno mais próximo do segredo da Vida pelo movimento dos elétrons.
Contradições reunidas: silêncio e barulho, trevas e claridade ofuscante.
Aliança paradoxal do Fogo e da Água como elemento central do fenômeno.
O Fogo representa a dissolução imediata da matéria absorvida pelo espaço que se ilumina, a Morte intensa e a metamorfose súbita em elemento mais sutil.
Espetáculo que fascina o homem.
A Água compõe a maior parte dos seres vivos, sendo o influxo nutridor, a fecundidade, a condição de eclosão dos germes e a memória da Vida em sua persistência.
A tempestade contém o ponto evocado por André Breton onde os contrários cessam de ser sentidos como contrários, superando as contradições impostas pela estreiteza das estruturas mentais.
O raio que consome e mata e a chuva violenta que inunda e fecunda como expressões opostas reunidas nesse ponto.
O espetáculo da tempestade impulsionou a atividade mental humana para o conhecimento intuitivo do Universo, sendo o deus-criador identificado com a voz do Trovão nos textos sagrados.
A tempestade como mensagem a ser decifrada, sujeito de meditação primordial.
Representações de deuses armados de signos de Raio como testemunho dessa mediação.
Nomes divinos como transposição da voz humana do chiado do relâmpago ou do estrondo de trovão — nota de rodapé: Tiews, Thues, Zeus, Dios; Tan, Don, Dan, Donnar, KwoN, Phon, Pan, Prom, Bram, Brom, etc.
Uma longa período pode ser conjeturado em que a cogitação dos pensadores nutria uma sabedoria da Foudre, da qual os colégios de sacerdotes etruscos especializados na adivinhação pelo estudo dos relâmpagos são um dos últimos reflexos, formalista e ultrapassado.
O silex contém também a aliança paradoxal da matéria inerte e da faísca jorrante, sendo atração vital e criador de estrelas, mas também capaz de ser a morte quando talhado em ponta de flecha como o raio.
O silex torna-se atributo de W.R., a grande força de atração-repulsão que maneja o universo, antes de se tornar flecha no arco elegante de Eros.
Representações de pontas de flechas em pinturas ou entalhes magdalenianos habitualmente interpretadas como magia de caça ou charme de amor encontram aqui outra explicação.
Nota de rodapé: o silex é ainda chamado de Pierre de foudre em numerosos países, cercado de superstições relacionadas à tempestade e ao fogo, como a proteção dos estábulos.
Imagem descrita na legenda: personagens humanos ou feras — objeto magdaleniano médio, por volta de 12000 antes de nossa era — evocam a Coxa de Júpiter que deu à luz Dioniso; no verso, bisões portando signos farpados.
A profunda intuição da natureza elétrica da vida como vibração contínua de um antagonismo positivo-negativo desenvolveu-se e intelectualizou-se de forma brilhante no pensamento taoísta na China, fazendo agora carreira nos meios científicos mais avançados.
Tudo é sempre mais antigo do que se pensa, chegando por uma transmissão contínua.