Druidas e xamãs

Jean Markale. Druides et chamanes. Éditions Pygmalion, 2005

Introdução

Desembaraçar o novelo

1. O chamado milenarismo é, se não um lugar-comum, o funcionamento absurdo de uma tradição transmitida de geração em geração que quer a todo custo fixar datas precisas para os momentos mais importantes da evolução da humanidade, como o ano Mil, que suscitou temores e fantasmas revelados afinal como aberrações do espírito, e o ano 2000, entrada no terceiro milênio segundo uma cronologia perfeitamente arbitrária, marcada pela generalização da revolução eletrônica que põe o mundo inteiro ao alcance de qualquer indivíduo por uma técnica cada vez mais sofisticada, sem que a inteligência humana tenha atingido um estágio superior, pois o homem do século XXI não é mais inteligente que o do Paleolítico superior, por volta de 40.000 anos antes da nossa era, dispondo apenas de muito mais informações e podendo calcular em segundos o que seu ancestral pré-histórico levava anos e séculos para concretizar ou racionalizar, daí um sentimento de superioridade que falseia todo juízo de valor e, pela mistura de informações diversas que recebe, um confusionismo quase total, em que o cérebro humano, transbordado, já não consegue selecionar o que recebe, e a tendência atual, reforçada pelo sucesso de uma tecnologia única, unificadora e portanto redutora, a privilegiar a crença cega num adágio vagamente panteísta segundo o qual tudo está em tudo.

2. Essa bela certeza é apenas um engodo, pois tudo não está em tudo, e o todo, humano ou divino, só pode ser a conjunção, e não a adição, de uma infinidade de informações parcelares, geralmente independentes umas das outras e portanto únicas, que dão origem a um conjunto, coerente ou não, considerado definitivo ou provisório segundo os casos e as circunstâncias, surgindo então o perigo do sincretismo, que se poderia chamar por zombaria de sincretinismo, inimigo mortal da síntese, resultado de uma lenta assimilação, ou digestão, de elementos heteróclitos e heterogêneos que constituem um alimento bruto necessário à evolução, senão à sobrevivência, do espírito humano, com inevitáveis resíduos não assimiláveis, como ocorre no domínio da espiritualidade, ou ao menos da metafísica e da religião, entendida como conjunto sociocultural organizado e regido por normas definidas de antemão, reconhecidas e aceitas por uma coletividade, de modo que, no caldeirão da mistura permanente de ideias, crenças e convicções, impõem-se escolhas, pois não convém ingerir cogumelos reconhecidamente mortais nem aceitar qualquer noção vinda não se sabe de onde a pretexto de ser nova e prometer revelações inéditas, já que o espírito humano se move por paisagens nem sempre favoráveis a seu desabrochar.

3. O confusionismo atual parece não conhecer limites, pois, a pretexto de ecumenismo, tenta-se fundir o catolicismo romano, o protestantismo calvinista, a ortodoxia bizantina e o anglicanismo, que é de fato um catolicismo reformado, sem perceber as divergências fundamentais entre essas confissões quanto à interpretação de textos aparentemente fundamentais, e, a pretexto de voltar às origens, busca-se conciliar as três religiões ditas monoteístas, judaísmo, cristianismo e islã, quando nenhuma delas tem a mesma abordagem do divino, e o chamado politeísmo talvez não seja crença em vários deuses, mas a lenta degenerescência de um monoteísmo primitivo que acabou por tomar as representações concretas da divindade única por entidades isoladas e autônomas, quando se trata apenas da materialização de um conceito espiritual intransmissível senão por imagens concretas.

4. A moda atual de um ocidental de origem cristã, crente, agnóstico ou ateu, fazer-se budista ou hinduísta sem refletir sobre o fosso que separa a mentalidade oriental da ocidental ignora que hinduísmo e budismo se referem a uma alma coletiva que se fundirá no nirvana, não paraíso à maneira cristã, mas unidade reencontrada dos seres e das coisas, enquanto cristianismo, judaísmo e islã creem numa alma individual responsável por seus atos e destinada a juntar-se ao que se chamou nono coro dos anjos, dados profundamente antinômicos e inconciliáveis para todo observador imparcial, e não se acabaria de denunciar essa mania contemporânea de misturar fontes heterogêneas, dependentes das condições de vida num clima e numa época determinados e das restrições sociológicas correspondentes, na esperança um tanto demente de reencontrar a água viva que está na origem do mundo e dos seres que o povoam.

5. O único ponto de referência é o mito da Torre de Babel, que a opinião corrente, divulgada pela História sagrada, vê como justo castigo do orgulho humano diante da onipotência divina e como origem da diferenciação das línguas e da dispersão dos povos, tomando liberdades com o texto do Gênesis, quando se trata de algo mais trágico, a dispersão da Revelação primitiva numa multidão de interpretações quase sempre contraditórias e até antagônicas, pois, quando os homens começam a construir a cidade e a torre, Iahweh-Adonai desce a contemplar o espetáculo e decide confundir sua linguagem para que nada os impeça mais de realizar o que premeditam e para que um não entenda mais o outro, texto claro e por isso aterrador, que supõe uma feroz desconfiança divina em relação ao gênero humano e pode justificar as inúmeras revoltas constatadas ao longo da História contra um Criador injusto e cioso de suas prerrogativas.

6. A linguagem não é apenas questão de vocabulário, mas instrumento de uma compreensão partilhada por uma coletividade, outrora aparentemente universal, de uma realidade essencial transmitida e veiculada por palavras, e a partir do momento crucial simbolizado por Babel a humanidade já não tem acesso à totalidade da mensagem primitiva, mas apenas a fragmentos estilhaçados, cada participante pretendendo deter sua totalidade, o que explica as discussões e as guerras ideológicas ou sangrentas que não cessaram de devastar o planeta há séculos e se perpetuam dia após dia.

7. A perda da Revelação primitiva, qualquer que seja sua causa, divina ou humana, é catastrófica, fez a infelicidade da humanidade, dispersou a mensagem original e caricaturou a demanda do absoluto, como mostram os relatos do Ciclo do Graal, em que os cavaleiros lançados em busca da Verdade una e indivisível se massacram entre si por não se reconhecerem e sobretudo por já não saberem o que buscam, em total confusão, obra talvez do Diabo, aquele que etimologicamente se atravessa no caminho, sem resposta, mas com a constatação de que cada um julga deter essa Verdade e está pronto a eliminar quem não adere à sua visão, quando a Verdade é um juízo do espírito, um raciocínio, sem nada em comum com a Realidade, que sempre nos escapa, como mostrou Platão na alegoria da Caverna, pois só vemos o reflexo das realidades superiores, os fenômenos, consequências sensíveis do que Kant chamava númenos, Realidade inefável e finalmente incompreensível, devendo-se lembrar a constatação amarga de Sartre de que somos pacotes de existentes lançados na terra sem saber como nem por quê, posição agnóstica à qual ele opunha a solução de que a existência precede a essência, isto é, de que o ser humano define pela ação sua essência num perpétuo devir.

8. Sartre esqueceu que Deus, nome cômodo tornado comum para designar a Causa primordial, não existe no sentido etimológico do termo, mas é, enquanto nós existimos, isto é, etimologicamente, saímos de algo que não sabemos o que é, e tentamos saber, origem de todos os sistemas de pensamento metafísico, de todas as religiões, de todas as guerras de religião, intolerâncias, abusos de poder e especulações sobre o lugar e o destino do Homem num universo desconhecido e, se não ilimitado, provavelmente infinito, no sentido etimológico de não acabado, não chegado à perfeição, tendo o pré-socrático Heráclito, genial promotor, senão inventor, da Dialética de três termos, tese, antítese e síntese, revivificada por Hegel e invertida pelo materialismo histórico ateu de Feuerbach e Marx, compreendido que, se tudo está em tudo, nada está identicamente em tudo, enquanto Aristóteles, epígono aberrante de Platão, mestre do pensamento medieval transmitido por Tomás de Aquino, teólogo oficial do cristianismo romano, tudo falseou ao introduzir no pensamento ocidental a noção perniciosa de que o falso não é verdadeiro e vice-versa.

9. A reação contra essa doutrina arbitrária e restritiva não tardou, como mostram os supostos hereges que se sucederam ao longo dos séculos até hoje, mas agora essa reação se opera em todos os sentidos e na maior confusão, pois, se é preciso reencontrar a mensagem original e reconstituir a tradição primitiva, a questão é como fazê-lo, e, quando Shakespeare faz Hamlet dizer to be or not to be, sabia perfeitamente o que isso significava, ao passo que a tradução francesa ser ou não ser é um contrassenso, já que o verbo inglês to be, aparentado ao galês bydd e ao bretão bed, que designam o mundo organizado, visível e relativo, equivale a existir e nunca teve o sentido de ser, aludindo Hamlet apenas à presença humana no mundo das relatividades, enquanto o Ser é outra coisa, e os existentes de todas as confissões, por mais que pretendam deter a Verdade, não passam de Loucos de Deus prontos a cometer qualquer crime em nome desse Deus, chamado Alá, Iahweh ou Pai Eterno, sem saber nem tentar saber o que é essa denominação arbitrária herdada do grego, como bem mostrou Georges Dumézil, imagem concreta de uma entidade divina perfeitamente abstrata, mas personalizada e apresentada sob aspectos antropomórficos, que em nosso pobre vocabulário designa apenas um Ser Primordial inominável e incognoscível.

10. Esse deus só se manifestou pela voz dos existentes, pois o Iahweh hebraico só é conhecido por intermédio de Moisés e dos que escreveram o Gênesis e o Êxodo em seu nome, o Deus dos muçulmanos só por seu profeta Maomé, ou antes pelos que pretendem ter recolhido e transmitido as palavras do Mestre, o que está longe de ser evidente, já que, desaparecido o profeta, seus descendentes se mataram entre si para conservar a liderança da nova religião, e o mesmo vale para os Rig-Veda e outros escritos hinduístas e para o príncipe indiano Gautama, iniciador do movimento budista, que não é religião, mas sistema filosófico adaptado às populações do Extremo Oriente, sendo apenas a religião cristã a pretender que o Deus incomensurável se manifestou na pessoa de Jesus Cristo, embora tudo o que se sabe do Messias venha de testemunhas mais ou menos confiáveis que puseram por escrito, cinquenta ou cem anos depois, as palavras que ele teria pronunciado, em pleno vago artístico em que se agitam personagens mais preocupadas com seu bem-estar material imediato que com o devir espiritual daqueles a quem pretendem entregar passaportes para o Paraíso.

11. A quase totalidade dos mitos e lendas teogônicas insiste, porém, em que outrora, naquele tempo das origens, o deus ou os deuses se dirigiam diretamente aos humanos e lhes transmitiam uma mensagem clara e compreendida, como o Gênesis e muitas outras tradições que mencionam um estado primordial em que o Criador ou o Demiurgo estava em contato permanente com suas criaturas, bem antes do acontecimento misterioso simbolizado pela Torre de Babel, o que leva a supor a existência de uma Revelação primordial, infelizmente perdida.

12. Por isso desenvolveu-se há séculos, à margem dos dogmas das religiões institucionais, uma busca um tanto desesperada dessa tradição primitiva considerada real, embora desde o édito do imperador Teodósio, em 382, que fez do cristianismo a religião oficial e única do Império Romano, a única verdade fosse a da Igreja, mesmo com opções dogmáticas ainda mal definidas, aplicando-se integralmente a fórmula fora da Igreja não há salvação, que eliminava de saída todas as tentativas de interpretação classificadas como heresias, e a mensagem evangélica, revista e corrigida no molde do pensamento greco-romano, adquirira valor universal indiscutível, até que a Reforma e sobretudo as reticências agnósticas do século das Luzes abalaram, pela pesquisa metafísica, o óbvio imposto pela Igreja, exigindo explorar domínios até então proibidos, e a época romântica deu o sinal de uma busca estendida a todos os componentes de uma unidade confusamente sentida como alterada e deformada pelo dogmatismo cristão.

13. Essa busca, por falta de informações precisas, fez-se na maior confusão, chegando por volta do ano 2000 a uma mistura espantosa de dados heteróclitos não verificados, nem por métodos científicos nem por critérios solidamente estabelecidos e conhecimento aprofundado dos textos mais antigos, e, quando os textos supostos se perderam ou nunca existiram, a referência a uma Tradição esbarra na pergunta sobre qual delas, florescendo atualmente inúmeras sociedades de pensamento, senão religiões, cujos fundamentos repousam apenas na imaginação de quem pretende deter seus arcanos mais confidenciais, como o druidismo, religião dos antigos celtas, gauleses ou outros, desaparecida desde os séculos IV ou V de nossa era e reconstituída arbitrária e conjeturalmente a partir do século XVIII, na Grã-Bretanha, por intelectuais iluminados, neodruidismo sem nada em comum com a religião vivida na época da independência celta, já que esta proibia o uso da escrita e não se possui nenhum documento autóctone autêntico para defini-la em suas estruturas e doutrinas, de modo que, qualquer que seja a boa-fé e o valor das pesquisas dos neodruidas contemporâneos, o druidismo vivido durante séculos por grande parte da população europeia está perdido para sempre e toda tentativa de fazê-lo renascer é apenas um jogo do espírito.

14. Essa incerteza sobre os antigos druidas deve-se à evidente falta de informações históricas sobre os rituais dessas épocas remotas, mas, segundo os testemunhos da Antiguidade grega e latina, os druidas, que ensinavam a imortalidade da alma e o renascimento em outra vida, eram considerados filósofos, peritos nas ciências do universo, e magos, adivinhos e operadores de práticas mágicas, sendo forte a tentação de preencher as lacunas recorrendo à feitiçaria, sempre mais ou menos viva nas tradições populares, prolongamento um tanto degenerado da magia primitiva vivida naquele tempo distante das origens em que o existente humano sabia ainda reger os mecanismos mais misteriosos de um mundo em perpétua evolução, feitiçaria cuja natureza ninguém conhece exatamente, salvo os que pretendem deter seus segredos, e cujos praticantes de aldeia passam, na Europa ocidental, por herdeiros dos druidas celtas e dos homens-medicina, os xamãs, ainda ativos no início do século XXI no norte e no centro da Ásia, apesar da sovietização e das influências cristãs ou muçulmanas, no norte da Europa entre os lapões e no Novo Mundo entre os esquimós e os últimos peles-vermelhas sobreviventes do genocídio desencadeado por bons cristãos europeus contra ameríndios que só pediam para continuar a viver segundo suas tradições nos vastos espaços de seus ancestrais.

15. Apesar das aparentes rupturas e revoluções ideológicas sucessivas, as antigas crenças e seus cultos têm vida longa, pois boa parte do próprio cristianismo se esclarece pelo estudo dos cultos que o precederam, sendo toda religião atual o último resultado de uma longa série de crenças e ritos transmitidos de geração em geração desde a pré-história, transformados, alterados e adaptados, mas sobreviventes às mais violentas revoluções religiosas, a ponto de o camponês do século XVIII, senão do XX, e o caçador da idade da pedra terem mais ideias em comum do que se pensa, já que a Igreja, ao conquistar do século II ao X os pagãos da Gália, galo-romanos ou bárbaros, evitou chocar de frente suas crenças antes de se tornar onipotente e quase sempre as assimilou bem ou mal à sua doutrina, tingindo-se de paganismo e tornando-se de certo modo pagã, o que não surpreende, sendo a Igreja primitiva composta de pagãos convertidos que não se despojaram de um dia para outro de sua hereditariedade nem de sua cultura intelectual e moral e trouxeram ao cristianismo, consciente ou inconscientemente, seus modos de pensar, parte de seus preconceitos, antigas crenças e ritos tradicionais.

16. É nessa direção que é preciso avançar ousadamente, explorando as tradições ocidentais, populares e orais ou literárias, na medida em que estas sejam confiáveis, sem negligenciar nenhum elemento de informação, exercício perigoso, já que pode desembocar num confusionismo em que seria impossível traçar as grandes linhas de uma tradição autêntica, exigindo triar e analisar as informações vindas de toda parte para delas tirar o máximo proveito, tarefa difícil, pois, se o cristianismo, de origem semítica mas difundido pela filosofia grega, de fato helenística, e pelo racionalismo romano, recuperou elementos anteriores, o mesmo deve ter ocorrido com o druidismo, termo científico bastante recente que designa uma religião institucional de estrutura incontestavelmente indo-europeia, historicamente comprovada no Ocidente a partir de cerca de 500 antes da nossa era, que deve ter absorvido e integrado elementos de crenças e rituais pré-históricos, sobretudo da época megalítica, da Idade do Bronze e dos períodos ditos protocéltas, sem outra precisão senão a presença dos famosos campos de urnas, quase o único testemunho em que se pode apoiar sem delírio.

17. Intervém então fatalmente o papel real ou imaginário do estranho fenômeno classificado, sem dúvida arbitrariamente, como xamanismo, conjunto de práticas rituais, mágicas e psíquicas que parece ter dominado não só a Europa do Norte, mas a grande planície norte-asiática e, por extensão, a área dos ameríndios, asiáticos que atravessaram o estreito de Bering quando a banquisa unia os dois continentes, fenômeno muito antigo e difundido, mas que consiste num conjunto de crenças, rituais e técnicas de magia ou mesmo de medicina e nunca foi uma religião em sentido estrito, com tradição ancestral oral ou escrita, dogmas, hierarquia e instituições estabelecidas, ao passo que o druidismo foi incontestavelmente, embora as informações sejam fragmentárias, uma religião institucional de tipo indo-europeu, com pontos comuns com o bramanismo e a religião primitiva dos romanos.

18. É impossível separar o druidismo, ou o que dele se conhece, do contexto indo-europeu, religião trazida em ondas sucessivas por imigrantes vindos das planícies da Ásia central e sobretudo das margens do Mar Negro, região onde os gregos situavam o país dos misteriosos cimérios, considerados seres fabulosos de domínios subterrâneos, onde, segundo a Odisseia, se encontrava uma das entradas do Outro Mundo, mas nada impede admitir que essa religião indo-europeia primitiva, ao migrar para o oeste, se tenha carregado de elementos estrangeiros tomados às populações aborígenes.

19. Alguns foram muito longe na recusa de toda influência alógena, fechando os olhos às realidades do terreno e rejeitando em bloco toda hipótese sobre a origem pré-celta ou não celta dos druidas e sobre seu parentesco com os xamãs da Lapônia e da Sibéria como nada intelectual e pura ininteligência, reação explicável pelas aberrantes fantasias de Fabre d'Olivet, retomadas no início do século XX pelo pretenso ocultista Édouard Schuré, segundo as quais druidas partidos do Ocidente teriam fundado a religião bramânica da planície do Ganges, e pelos esforços do celtista Julius Pokorny, que consagrou sua vida universitária a tentar provar a origem camítica, isto é, berbere, das línguas celtas, sendo preciso voltar ao ponto de partida, uma religião indo-europeia tingida de elementos diversos tomados aos povos conquistados pacificamente ou pelas armas num Ocidente já rico em tradições milenares.

20. Nesse domínio reina a maior confusão, com desprezo das mais elementares precauções do método comparativo, mas há uma constatação histórica inegável, a de que o druidismo desapareceu há quase vinte séculos, enquanto o xamanismo, quaisquer que sejam suas formas e prováveis degenerescências, é ainda uma realidade vivida no início do terceiro milênio, não se tratando de identificar esses dois sistemas de pensamento, mas apenas de examinar suas semelhanças e diferenças.

21. As interferências entre as práticas do xamanismo e as do druidismo parecem evidentes à primeira vista, já que os xamãs precederam os druidas e ainda existem, mas os Druidas não são Xamãs nem os Xamãs Druidas, pois aqueles são sacerdotes pertencentes a uma classe sacerdotal organizada e hierarquizada, enquanto estes são operadores isolados no seio de uma sociedade, embora depositários de uma tradição transmitida há séculos de boca em boca, e, apesar dessa diferença fundamental, druidas e xamãs funcionam nos mesmos domínios e navegam nas mesmas águas, razão pela qual, em total desacordo com certos celtistas que se pretendem por conta própria os únicos autorizados a falar da religião druídica considerada sob a única herança indo-europeia, importa explorar o vasto e nebuloso domínio em que se encontraram, e muitas vezes se confrontaram, os antigos Druidas e os estranhos homens-medicina que ainda são os Xamãs.