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MARKALE, Jean. Le Cycle du Graal. Tome 6: Perceval le Gallois. Paris: Pygmalion, 1995.

Perceval

Com o risco de se perder

1. No universo arturiano posto em movimento por Merlin, cada um ocupa seu lugar em torno da Távola Redonda, símbolo da igualdade individual numa empresa coletiva dirigida teoricamente pelo rei e iluminada pela soberania solar da rainha, estando Artur no centro do universo e do reino, cuja potência depende de sua saúde em virtude do casamento ritual, sagrado e místico do soberano com a terra que a divindade lhe confiou, mas, segundo a tradição celta, o rei nada é sem os guerreiros de que é emanação e eleito, primus inter pares com todas as fraquezas, restrições e obrigações dessa função, e Merlin, como druida primitivo, demiurgo, organizador do mundo e profeta missionário, teceu as relações entre o uno e o múltiplo, embora nenhum profeta o seja em sua terra, já que os homens são livres de aceitar ou recusar o plano divino, assim como Iahweh-Elohim, após criar o mundo e o homem à sua imagem e dotá-lo de liberdade, descansou no sétimo dia, tornando-se deus ocioso e confiando ao homem a continuação da criação, responsabilidade primordial que o ser humano parece ter esquecido.

2. A mesma questão se coloca para os companheiros da Távola Redonda, pois, em aparência, tudo vai bem no reino de Artur, com os inimigos externos vencidos, as revoltas internas raras e os cavaleiros combatendo toda injustiça, mas as forças da sombra permanecem nas florestas, prontas a surgir na ausência dos heróis de luz, e, se o equilíbrio precário prova certo êxito do projeto social e político de Merlin, resta saber o que ocorre no plano da psicologia individual.

3. Nesse plano a situação se degrada, pois, em teoria, a ação individual dos cavaleiros repercute sobre a coletividade, sendo toda ofensa a um deles injúria ao rei, à rainha e aos companheiros e todo triunfo de um deles vitória da Távola Redonda, mas poucos estão dispostos a fundir sua glória pessoal na glória coletiva, como mostram os modelos celtas antigos, cheios de querelas de precedência e combates pela porção do herói, a parte de caça reservada ao guerreiro mais bravo, a atitude de Gauvain, que antepõe sua glória pessoal, embora cumpra sempre suas missões pelo bem de todos, e sobretudo a de Lancelote, consciente de ser o melhor cavaleiro do mundo e indispensável à sobrevivência do mundo arturiano, elevado pelo amor da rainha ao nível do rei, de orgulho ilimitado e que privilegia sempre o serviço de amor à sua única divindade, Guenièvre, egoísmo monstruoso que causará o enfraquecimento e a ruína do reino, contradições internas que se encontram em cada cavaleiro.

4. Todo grupo social só é viável em função de uma meta definida por uma ideologia, e a Távola Redonda foi constituída por Merlin para assegurar a permanência de um reino terreno na perspectiva de descobrir os segredos do santo Graal, descoberta prometida para o reinado de Artur, mas cada vez mais adiada, apesar de sinais como a alucinante entrada da Donzela Calva num carro puxado por cervos e das visões imperfeitas do Graal por alguns companheiros, já que Boorz e Gauvain fracassaram na prova e Lancelote prolongou a espera ao gerar, inconscientemente e sob encantamento, seu duplo depurado capaz de levar as provas a termo, enquanto o Rei Pescador continuava enfermo, o reino do Graal declinava, o Assento Perigoso permanecia vazio, fulminando os audaciosos, o escudo pendurado no pilar central do castelo de Artur não caíra nas mãos do Eleito e o cãozinho trazido pela Donzela Calva ainda não festejara o Bom Cavaleiro, levando a perguntar se tudo não seria uma mistificação de Merlin para manter os companheiros em suspense.

5. Samuel Beckett em Esperando Godot e Julien Gracq em O Litoral das Sirtes descreveram magistralmente essa intolerável situação de espera, em que algo deve acontecer sob pena de pôr em questão a própria existência, embora forçar o destino possa desencadear desventuras, e as promessas dos cavaleiros da Távola Redonda podem ser tentativas desesperadas de sair de um marasmo mais aterrador que a expectativa, numa tensão extrema semelhante ao início das tragédias racinianas, em que o mecanismo armado deve inevitavelmente disparar, salvo se surgir um elemento estranho capaz de desarmar a crise.

6. A sociedade arturiana, bem estabelecida, de funcionamento racional e códigos específicos, é uma rede magnífica de potencialidades inexploradas, uma máquina que gira em falso, em que cada participante, tendendo a agir por si, ameaça a unidade do grupo e se expõe às armadilhas das forças da sombra, entre as quais Morgana, de papel ambíguo por ser provocadora e portanto necessária à ação, e sobretudo os magos que, aproveitando a ausência de Merlin, lançam sortilégios sobre o reino e desejam o advento de Mordred, filho incestuoso de Artur que cresce quase anônimo e será o coveiro da obra de Merlin, pecado inconsciente, venial mas metafísico, que será lavado em sangue, enquanto a indiferença geral, sobretudo de Artur, permite ao filho indigno corroer por dentro um sistema reconhecido pelo Deus cristão e pelas divindades do panteão celta.

7. Enquanto Artur reúne corte em Caerllion, Carduel ou Camelot, centros simbólicos de seu reino mítico, seus companheiros espalham-se pelo mundo acumulando aventuras vãs que lhe relatam fielmente, Gauvain crendo restabelecer a ordem, Girflet, filho de Dôn, Yvain, filho de Urien, Yder, filho de Nudd, e outros perseguindo quimeras à maneira de Dom Quixote, Lancelote convencido de que seu Graal é Guenièvre, de quem tira força e coragem, Boorz obcecado pela nostalgia das ocasiões perdidas e Kai, irmão de leite de Artur, semeando a cizânia com palavras feridoras, faltando apenas Merlin, cuja sombra pesa sobre a Távola Redonda, enquanto Viviane, senhora dos destinos, espreita o momento de recuperar a espada de soberania para subtraí-la ao diabo, o que torna inútil errar em busca de um Graal inacessível.

8. Surge então Perceval, o Galês.

9. Perceval não é o esperado, pois, em vez de um guerreiro temível e nimbado de sol, os companheiros de Artur veem aparecer um adolescente quase imberbe e rústico que entra a cavalo na sala do rei e se comporta tão estupidamente que todos riem, sobretudo Kai, com desprezo e crueldade, um pequeno camponês teimoso que ignora os usos cavaleirescos, embora maneje o dardo de modo temível, entrando na ação anonimamente com todo o fervor da tolice, que o termo medieval nice, usado por todos os autores, exprime perfeitamente.

10. Perceval é ridículo desde sua aparição, como Merlin quando surgia como louco ou rústico, e o riso que o acolhe remete de modo estranho e contraditório ao riso com que Merlin saudava os que o interrogavam, provocador por saberem estes a resposta sem poder ou querer formulá-la, assim como o riso dos que zombam do ingênuo é provocador, pois Perceval é depositário do segredo do Graal, mas não pode revelá-lo enquanto não tiver consciência de sua missão.

11. Perceval perturba a ordem estabelecida e a boa consciência dos companheiros, pois sua ingenuidade fere ainda mais quando se percebe nele uma vontade feroz e indomável capaz, como Davi diante de Golias, de eliminar com um dardo, arma dos rústicos, um temível guerreiro armado decidido a ultrajar a função real, coragem que pode ser inconsciência do perigo, bravata ou aposta absurda comparável à roleta-russa, mas que faz dele um desmancha-prazeres no círculo restrito e elitista da Távola Redonda, afirmando involuntariamente uma filiação simbólica com Merlin, que, perturbando a sociedade, a obrigava a interrogar-se sobre seus fins e métodos, assim como Perceval, intrometendo-se no que não lhe diz respeito, destrói uma aparente harmonia e suscita outro modo de apreender o real, a autêntica Demanda do Graal.

12. Resta saber quem é essa personagem estranha e fora das normas que Chrétien de Troyes chama Perceval, Wolfram von Eschenbach Parzival, o Parsifal de Wagner, um autor galês anônimo Peredur e que se tornará Perlesvaus e até Perceforest na decadência dos romances de cavalaria.

13. O nome Perceval é incontestavelmente francês, e as formas alemã Parzival e inglesa Percival ou Percivelle são transcrições, mas seu sentido exato é incerto, podendo ser Perce-Val, alusão à demanda iniciática para perfurar os segredos dos vales que conduzem ao castelo do Graal, Par-ce-Val, sugestão da errância pelo vale do Graal, ou Perd-ce-Val, lembrança da perda dos domínios familiares atestada por Wolfram e por continuadores de Chrétien, justificando a forma Perlesvaus, enquanto a primeira seria corroborada por Perceforest, sem que nenhuma interpretação seja satisfatória.

14. Peredur, nome tipicamente galês, decompõe-se em pêr dur, doce aço, ou peiry dur, instrumento de aço, hipótese preferível por ser o herói chamado em certos textos mitológicos galeses Paladyr, dardo longo, arma predileta do jovem antes de tornar-se verdadeiro cavaleiro.

15. A partir de Chrétien de Troyes, o primeiro a nomeá-lo, Perceval é considerado o herói do Graal, o esperado para curar o Rei Pescador e devolver vida ao reino, o Bom Cavaleiro diante do qual se dissipam os sortilégios, mas a personagem assume colorações diferentes segundo as versões, correspondentes a motivações distantes do mito primitivo, destacando-se três opções fundamentais, a de Chrétien e seus continuadores franceses e anglo-normandos, a de Wolfram von Eschenbach e a do autor galês anônimo do Peredur.

16. A primeira opção, a mais rica em textos e em prolongamentos devidos a recuperações ideológicas, apresenta Perceval como adolescente ingênuo, teimoso e corajoso confrontado a um mundo que nem imaginava, que, apesar de suas inépcias e cegueira, transpõe todas as etapas da iniciação e, ao compreender que pertence à linhagem real, sangreal entendido como sang réal, sangue real, torna-se o novo Rei do Graal a que estava destinado sem saber, mas, sendo produto da mitologia celta pagã, incomoda autores zelosos da ortodoxia, de modo que no Perlesvaus anglo-normando, inspirado pelos monges cluniacenses de Glastonbury, o herói é desdobrado em Perceval e Perlesvaus, propagador zeloso da fé e de costumes irrepreensíveis, e na versão cisterciense da Demanda, atribuída a Gautier Map, Perceval é relegado ao segundo lugar em favor de Galaad, o Puro, outro Lancelote sem escórias, marcas das preocupações teológicas do século XIII, que fizeram do Graal símbolo da Eucaristia, com uma propaganda indisfarçada do culto do Precioso Sangue em Bruges, Fécamp, Barcelona e Glastonbury, com a mediatização do Chalice Well, cuja água avermelhada, ferruginosa, deveria sua cor ao Graal escondido nos lençóis freáticos.

17. A segunda opção, própria do bávaro Wolfram von Eschenbach, adapta e por vezes traduz o Conto do Graal de Chrétien, mas o ultrapassa com aportes heteróclitos de conotações orientalistas, esotéricas e ocultistas, versão a mais perturbadora, enigmática e ambígua, propícia às interpretações mais suspeitas, mas também obra literária excepcional, talvez o mais belo texto medieval sobre o Graal, em que o herói, já não apenas o nice de Chrétien, é depositário de uma tradição sagrada e mantenedor, sem saber, de um sangue real e de uma linhagem sagrada vinda da noite dos tempos e destinada a prolongar-se, pai de Lohengrin, o Cavaleiro do Cisne, ancestral mítico de Godofredo de Bulhão e da casa de Lorena, de que os Guise se lembrariam no século XVI para reivindicar o trono da França contra os Valois degenerados, e em que se afirma claramente o conceito de raça pura, pois os guardiães do Graal, chamados Templários por simples atualização, pertencem a uma linhagem que não tolera mésalliance, e Anfortas, o Rei Pescador, sofre de uma ferida incurável por ter infringido esse interdito, numa corte de Munsalvaesche onde uma elite escolhida sobrenaturalmente deve afastar e mesmo eliminar os intrusos, sem admitir sub-homens, concepção elitista e racista de um segredo reservado a privilegiados que se opõe à noção de amor universal da versão clássica da Demanda.

18. A opção de Chrétien privilegiava um herói ignorante mergulhado contra a vontade em pântanos e capaz de sair deles rumo à luz, mas, como Chrétien não concluiu a obra, foram seus continuadores que fizeram do Perceval primitivo um herói cristão, o que ele não era de início, enquanto a opção de Wolfram conserva o cristianismo do herói, mas o altera com noções alquímicas e esotéricas, reminiscências iranianas e até budistas e uma formulação sincrética que inclui a mística muçulmana via Espanha, versão intelectual, ao passo que a terceira opção reconduz ao coração do mito primitivo.

19. A opção galesa do Peredur é incontestavelmente de essência popular, pois, qualquer que seja sua data de composição, num manuscrito do século XIII cheio de arcaísmos, e quaisquer que sejam as influências de Chrétien e da civilização anglo-normanda, conserva um esquema tipicamente celta, com um herói profundamente pagão, apesar de referências ao Deus cristão, em que o Graal não é uma taça de esmeralda com o sangue de Cristo, mas um prato com uma cabeça humana cortada banhada em sangue, e em que Peredur não se torna Rei do Graal, mas cumpre, numa demanda complexa e paralela à de Gauvain, uma vingança ritual pelo sangue, imagem talvez do Graal primitivo anterior às especulações gnósticas e à recuperação cristã, com o mérito de remeter a uma tradição ancorada no inconsciente coletivo dos povos celtas insulares, em seu quadro original, antes de sua diluição no contexto cultural continental.

20. A versão galesa, eliminando as cargas pretensamente esotéricas acumuladas sobre o esquema original, permite compreender Perceval como herói de conto popular tradicional presente em toda a memória oral da Europa, segundo o esquema do jovem pobre, geralmente feio e pouco esperto, que deixa a família para ganhar a vida no vasto mundo, enfrenta as piores dificuldades e, graças ao bom coração ou a um objeto mágico dado por uma boa fada, supera as provas e desposa a filha do rei, sendo frequentemente o terceiro filho, cujos dois irmãos mais velhos fracassaram, e adquirindo nas aventuras grande inteligência e notável beleza física.

21. Todo conto popular exprime uma mentalidade rural, a do camponês preso à terra que vive miseravelmente e sonha partir em busca de uma boa situação, de preferência na cidade, e Perceval-Peredur, embora de origem nobre e linhagem sagrada que ignora, comporta-se como um pequeno rústico que, ao ouvir falar do mundo exterior, não resiste ao apelo da aventura, figura encontrada integralmente no lai bretão de Tyolet, breve relato em versos franceses do início do século XIII que transpõe contos orais armoricanos, em que o herói, filho de uma nobre dama que vive numa floresta isolada de onde nunca saiu, atrai e captura todos os animais com um assobio dado por uma fada, reunindo todos os ingredientes do conto popular e simbolizando um herói ainda não nascido para o mundo exterior, encerrado num universo uterino aconchegante, tranquilo e tranquilizador.

22. A catástrofe do nascimento, segundo a expressão psicanalítica, será penosa para o jovem projetado bruscamente no mundo adulto, embora ele não duvide de nada nem tema o ridículo por ignorar os usos do mundo, como mostra Tyolet, que entra a cavalo na sala real e se apresenta a Artur como cavaleiro-besta, filho da viúva da floresta, hábil em apanhar caça, mas, sendo o conto breve, suas aventuras se limitam a uma caça algo feérica e ao contratempo de um rival que tenta usurpar seu triunfo, terminando com o casamento com uma bela jovem, provavelmente fada, esquema de base que, integrado ao ciclo arturiano, se complica na história de Perceval-Peredur com elementos cada vez mais intelectuais e ressonâncias inesperadas acrescentados pelos diversos autores.

23. Tyolet confessa francamente ser um cavaleiro-besta, reconhecendo, como Peredur e, em menor medida, Perceval-Parzival, um estado primitivo quase hominídeo, em que só funciona o cérebro reptiliano, o que, no plano mitológico e metafísico, resume a situação do Adão primordial, que só adquire verdadeira humanidade ao provar o fruto da Árvore do Conhecimento, transgredindo um interdito, como o herói do Graal, confinado na floresta materna, transgride alegremente, não sem temor, ao aprender dos cavaleiros os rudimentos da vida social, de modo que sua vontade de partir é na verdade a impossibilidade de permanecer no estado primitivo, equivalente da maldição que expulsou Adão e Eva do Éden.

24. Trata-se de um nascimento, mas o herói não cortou inteiramente o cordão umbilical e participa ainda do mundo animal, sendo Tyolet, Peredur ou Perceval senhor dos animais selvagens, que atrai com o assobio ou a habilidade, prerrogativa tradicional de Merlin, que, como Homem Selvagem, Homem dos Bosques ou rústico das epopeias irlandesas, encarna o druida-xamã original que celebra estranhos rituais no nemeton, clareira em cujo centro se ergue simbolicamente o Axis Mundi, árvore cósmica em cujos ramos Merlin, filho do diabo, profetizava, e Tyolet, transcrição francesa do médio bretão diaoulet, significa literalmente endiabrado, curiosa coincidência, se é que o é.

25. Perceval pode ser filho, isto é, imagem do Encantador desaparecido depois de predizer o surgimento de um Bom Cavaleiro que poria fim às aventuras do Graal, pois em suas errâncias encontrará rústicos misteriosos e estranhas crianças sábias semelhantes a Merlin, havendo continuidade entre o Encantador e o Descobridor Perceval-Peredur.

26. Esse nascimento concerne ao novo ser, já que Perceval possui existência material, e é ao atravessar uma ponte, imagem eminentemente simbólica, que corta definitivamente o cordão umbilical, e a mãe, mal olhada pela última vez, morre bruscamente, de dor segundo o texto, mas na verdade por inutilidade, tendo cumprido seu destino de pôr no mundo o Filho, a quem cabe tentar a demanda com o risco de perder-se nos caminhos tumultuosos do mundo dos homens.

27. Rompida a imagem da Mãe, surge a da Amante-Senhora, encarregada de tornar adulto o adolescente, numa iniciação sob uma tenda que o herói toma por igreja, lugar sagrado de rituais que não compreende, onde rouba de uma jovem um beijo, um pastel e um anel, chegando ao estado viril e podendo lançar-se nas aventuras, pois em toda epopeia sexualidade e valor guerreiro são inseparáveis.

28. Perceval, cujo nome se ignora até a primeira passagem pela corte de Artur, é chamado sobretudo em Chrétien o Filho da Dama Viúva, o que evoca a expressão Filho da Viúva que designa os maçons, embora seja ridículo fazer do Conto do Graal, de cerca de 1200, quando a maçonaria não existia em sua forma atual, uma obra maçônica como A Flauta Mágica, mas os comentadores maçons nele encontraram matéria simbólica, já que Perceval cumpre um longo périplo iniciático e só é admitido diante do Graal após muitas provas, sendo no início um aprendiz sem direito a intervir nem perguntar, o que justifica seu mutismo diante do Cortejo do Graal, ideia corroborada por um detalhe de Wolfram, para quem Parzival é filho de Gahmuret, príncipe de Anjou, não por proteção dos Plantagenetas, mas por trocadilho, pois anschouwe, traduzido por Anjou, deriva de anschauen, fitar com o olhar, de modo que Parzival, também de Anjou, só tem o direito de olhar, regardante em estado de aprendiz, o que esclarece o aspecto iniciático do relato.

29. O relato das errâncias e aventuras de Perceval é rico de episódios simbólicos interpretáveis nos planos mais diversos e constitui, quaisquer que sejam as versões, uma das mais belas obras literárias da humanidade, cujo misterioso Cortejo do Graal continua a ressoar nas memórias, assim como a imagem poética tipicamente celta com que Perceval evoca a amada, cabelos negros como o corvo, rosto branco como a neve e faces vermelhas como o sangue, enquanto o castelo do Graal encerra muitas sombras e poucos poderão entrever nas trevas a luz fulgurante que faz explodir o imaginário em chuvas de estrelas.

30. Resta saber se Perceval será o Bom Cavaleiro.

31. Falta-lhe ainda um longo caminho, tão longo e penoso quanto o de Lancelote e de Gauvain e ainda mais longo por não saber o que busca.

32. Talvez esteja aí o nó da demanda, pois quem busca não encontra, mas quem não busca pode encontrar o inesperado, o sutil e o inefável, com o risco de se perder.