2.1 Peredur

Jean Markale. Le Graal. Paris: Retz, 1982

1. O relato galês de Peredur conserva-se em dois manuscritos medievais, o Livro Vermelho de Hergest, do século XIV, e o Livro Branco de Rhydderch, cuja parte relativa a Peredur é do início do século XIII, mas, como a idade dos manuscritos nada prova, os detalhes e uma inegável influência normanda permitem situar sua composição no fim do século XII, sem que se trate de adaptação ou tradução do Perceval, pois, como já concluía Joseph Loth em 1913, ambos os autores utilizaram uma fonte escrita francesa que traduzia ou adaptava um original galês ou bretão armoricano, Chrétien tornando cortês a narrativa, polindo as asperezas e conferindo verossimilhança às aventuras, enquanto o autor galês preservou uma rudeza, uma sucessão de eventos aparentemente incoerentes, uma mentalidade celta e arcaísmos que revelam um esquema muito antigo.

2. A tentação de ver no nome Peredur o galês peir, caldeirão, alusão ao caldeirão celta de abundância e ressurreição, protótipo do Graal, é pouco plausível, pois Peredur era nome masculino comum no País de Gales medieval, ignorando-se se figurava no arquétipo, embora exista um parentesco ao menos na primeira sílaba com Perceval, que o anônimo autor do Perlesvaus interpreta como Perd les Vaux, perde os vales, fazendo de Perceval uma forma picarda Perd ce Val, enquanto Parzival ou Parsifal é apenas a transcrição alemã do nome.

3. Chrétien chama seu herói Perceval o Galês, talvez por saber que o arquétipo era galês, mas no relato galês Peredur é filho de Efrawg, nome galês de York, o que faria dele filho do conde de York e, portanto, não galês, salvo se o esquema primitivo remontar à época anterior à ocupação saxã, quando York e as regiões do futuro País de Gales pertenciam à mesma Bretanha insular, permanecendo indubitável, em todo caso, a origem britônica da demanda de Peredur-Perceval.

4. O conde Efrawg, tão apaixonado por torneios que neles morreu com seis de seus sete filhos, deixou o sétimo, Peredur, nomeado desde o início, criado pela mãe num lugar afastado do mundo, da agitação e de tudo o que lembrasse guerra e cavalaria, indo o menino de catorze anos todos os dias à floresta caçar, sobretudo para brincar e atirar varas e bastões.

5. Peredur é ainda mais criança selvagem e mais rude que o herói de Chrétien, embora não se diga, como em Tyolet, que conhece a linguagem dos animais, aparecendo apenas como ingênuo que, numa curiosa passagem, junta cabras e cabritos julgando que estes eram cabras que haviam perdido os chifres, enquanto a menção a torneios, totalmente estranhos aos costumes galeses, revela uma concessão à moda normanda.

6. Como em Chrétien, Peredur encontra três cavaleiros, Gwalchmai, Gweir e Owein, em perseguição a um inimigo, toma-os por anjos, conforme lhe dissera a mãe que se recusava a pronunciar a palavra cavaleiros, faz-se explicar o que são em vez de responder às perguntas e decide ir à corte de Artur, recebendo da mãe aflita conselhos singulares: rezar o pai-nosso diante de qualquer igreja, tomar por si mesmo comida e bebida quando não lhe forem oferecidas, acudir aos gritos, sobretudo de mulher, tomar belas joias para dá-las a outros e assim ganhar fama, e cortejar toda bela mulher, que mesmo recusando o estimará mais.

7. Esses conselhos, bem diferentes dos dados à mãe de Perceval, são curiosamente seguidos à risca pelo Perceval de Chrétien, prova da fonte comum mal compreendida por ele nesse ponto, enquanto o texto de Wolfram acrescenta outro conselho ausente de ambos, o de vingar-se do orgulhoso Le Hellin, que se apoderou dos domínios do pai de Parzival e matou seus principais vassalos, enunciando o tema da vingança pelo sangue subjacente em Chrétien no episódio da espada e explicitado no fim de Peredur, sendo que o nome Le Hellin parece derivar do germânico hell, os infernos ou sua deusa, o que remete às feiticeiras contra as quais Peredur deverá cumprir sua vingança.

8. Armado de alguns dardos de madeira, Peredur parte sem olhar para trás, sem ponte nem morte da mãe, erra pelos bosques, toma uma tenda por igreja e reza o pai-nosso, entra e encontra uma jovem que o acolhe amavelmente, come e bebe avidamente o que ali está e pede o anel que ela traz no dedo, que lhe é dado de bom grado, partindo em seguida enquanto o amigo da jovem, ofendido, jura vingança.

9. O relato, muito próximo do Perceval nas grandes linhas, difere em nuances, mostrando um herói menos doentiamente ingênuo e mais obstinado, que zomba da realidade para ir até o fim de sua ideia, e uma jovem da tenda que bem pode ser uma das numerosas aparições femininas e feéricas de sua demanda, cujo dom do anel prefigura episódio posterior e esclarece o de Chrétien, onde Perceval perde simbolicamente a virgindade arrancando à força o anel da jovem, imagem eloquente, já que o anel nupcial anuncia a consumação do casamento pela penetração, de modo que, se Perceval comete uma violação, Peredur encontra uma verdadeira iniciadora que lhe faz dom de seu sexo.

10. Sem demora, como todo animal triste post coitum, Peredur parte e chega à corte de Artur, onde pouco antes um cavaleiro tomara a taça servida a Gwenhwyfar, lançara o conteúdo no rosto da rainha e se retirara levando a taça e desafiando os presentes a combate singular no prado diante do castelo.

11. As diferenças de detalhe em relação a Chrétien são importantes, pois neste o intruso rouba a taça do rei derramando o conteúdo sobre a rainha, enquanto no relato galês a taça é da rainha e a ofensa se dirige inteiramente a Gwenhwyfar, e um detalhe de Wolfram esclarece a cena, ao fazer do intruso o Cavaleiro Vermelho, primo de Artur, que vem reclamar sua herança.

12. A cena ganha pleno sentido no relato galês, pois a taça prefigura o Graal e o gesto provocador lança realmente Peredur na demanda, cujo primeiro ato será recuperá-la, e o Graal, simples prato no texto galês, é objeto bissexual, já que o recipiente, carregado por uma jovem e designado pelo feminino occitano grazala, é símbolo feminino, enquanto o conteúdo, vinho nesta cena ou sangue na maioria das versões, identificados entre si pela transubstanciação da Ceia, é masculino e substitui simbolicamente o esperma contido na vagina após o coito, interpretação reforçada pelo gesto de derramar a taça sobre a rainha, que equivale a violá-la.

13. Essa violação é complexa, pois, como encarnação da Soberania, Gwenhwyfar é atingida em sua essência, configurando um crime político contra a autoridade legítima, já que o cavaleiro, segundo Wolfram, contestava o poder exercido por Artur em nome de Guenièvre, uma transgressão social do interdito fundamental do incesto que concerne a toda a comunidade da qual a rainha é mãe, irmã, esposa e amante, e um sacrilégio espiritual dado o caráter sagrado da rainha, o que se confirma na Elucidação, que atribui o desaparecimento do Graal à violação de uma das fadas guardiãs do vaso por um rei, e na demanda cisterciense, em que Lancelote gera Galaad com a filha do Rei Pescador, portadora do Graal, magicamente revestida da aparência de Guenièvre, de modo que portadora do Graal e rainha são, mitologicamente, uma só e mesma personagem.

14. Esquema análogo aparece no início do Erec de Chrétien, quando, durante a Caça ao Cervo Branco, lembrança de um antigo ritual pré-histórico de culto ao cervídeo, Guenièvre e Erec, afastados do grupo, encontram um cavaleiro acompanhado de um anão que ultrajam a dama de companhia da rainha, ofensa que Erec vinga após aventuras em que descobre a bela Enide, vencendo o provocador, que se revela ser Yder, filho de Nut, chamado no relato galês correspondente, Gereint e Enid, Edern, filho de Nudd, em plena mitologia celta.

15. Yder, sob seu antigo nome Edern, do latim Aeternus, o que dura muito, tornou-se na Bretanha armoricana santo Edern, sempre representado com seu cervo e portador de vestígios do culto ao cervídeo, enquanto seu irmão Gwynn, o Branco, foi transformado pelos cristãos galeses em porteiro do Inferno e servo de Satã, e o pai, Nudd ou Nut, é o deus Nodens das inscrições galo-romanas da Grã-Bretanha, o Nuada da Mão de Prata irlandês, figura frequente no ciclo arturiano como um dos mais antigos companheiros de Artur e mantendo nos textos franceses arcaizantes relações ambíguas com a rainha Guenièvre.

16. No Romance de Yder, do século XIV, Guenièvre, interrogada por Artur sobre qual companheiro escolheria como defensor se ele desaparecesse, nomeia Yder, despertando o ciúme do rei, e o mesmo romance mostra Yder matando com as mãos nuas um urso que entrara no quarto da rainha, episódio inquietante quando se sabe que o nome de Artur contém o nome do urso, Arto.

17. Essas considerações evidenciam o papel preponderante de Guenièvre na demanda do Graal, cujo ponto de partida ela constitui por representar a Soberania, alterada pelo gesto do provocador, de modo que nada mais pode ser como antes, daí a imagem do Rei Pescador ferido nas pernas e incapaz de governar, exigindo que alguém vingue a afronta no sangue do ofensor e recupere a taça, episódio aparentemente menor que é na verdade um momento forte que desencadeia o processo da demanda, como compreendeu o cineasta John Boorman em Excalibur, de 1981, ao abandonar todo misticismo e fazer da demanda uma reconquista da soberania, em que Artur, ferido física e moralmente, só recupera a força quando Perceval lhe traz o segredo do Graal, a Terra é o Rei, princípio eminentemente celta.

18. Testemunha inconsciente da tragédia que abala o universo arturiano, Peredur cobiça apenas as armas do perturbador, entra a cavalo no salão e pede para ser armado cavaleiro, quando uma anã e um anão mudos havia um ano começam a falar, saudando-o pelo nome como flor dos guerreiros e luz dos cavaleiros, o que irrita Kaï, que esbofeteia o anão, chuta a anã e, para livrar-se do recém-chegado, o envia atrás do ladrão da taça para exigir-lhe as armas, episódio semelhante ao de Chrétien, que substitui os anões por uma donzela que não ria havia sete anos, e em que Kaï, irmão de leite de Artur, desempenha seu papel habitual de semeador de discórdias, equivalente ao irlandês Bricriu da língua envenenada, má consciência da coletividade, antes de degradar-se nos textos posteriores de guerreiro temível dotado de poderes mágicos a fanfarrão sempre vencido.

19. Peredur persegue e mata o ladrão da taça, toma suas armas, entrega a taça a Owein para que a devolva a Gwenhwyfar e desafie Kaï em seu nome, parte e vence dezessete cavaleiros enviados sucessivamente como prisioneiros à corte com ameaças a Kaï, até chegar a um bosque grande e deserto, à beira de um lago, diante de um belo castelo, onde vê um homem de cabelos brancos sentado sobre uma almofada de seda, enquanto criados pescam, e que, ao vê-lo, se levanta para voltar ao castelo, revelando-se coxo.

20. Peredur ainda não encontra a mulher chamada Blanchefleur por Chrétien e Condwiramurs por Wolfram, e o pescador não é o Rei Pescador de Chrétien, mas o eremita Gornemant de Goort, apenas coxo e não paralisado, defeito físico que o assimila ao deus coxo indo-europeu do Outro Mundo, de que Hefesto-Vulcano é um aspecto, sendo esse pescador, tio de Peredur, uma espécie de ferreiro divino dispensador de espadas.

21. O pescador, depois de perguntar a Peredur se sabe manejar a espada e ouvir que saberia se lhe ensinassem, submete-o a uma prova fazendo seus dois filhos, um louro e outro moreno, jogar o bastão, e, quando Peredur afirma que o louro poderia tirar sangue do outro, convida-o a tirar sangue do louro, o que ele faz, sendo então prometido o ensino da espada e a imediata investidura, com a recomendação de não indagar sobre nada extraordinário até ser instruído, episódio de marca galesa pelo jogo do bastão de duas pontas, um dos vinte e quatro exercícios nacionais, ausente de Chrétien, em que Gornemant apenas arma Perceval e aconselha discrição, e enriquecido em Wolfram pela filha de Gurnemanz, Liaze, que o pai gostaria de casar com Parzival, sendo os dois filhos de cores opostas uma marca de ambiguidade que se esclarecerá quando a portadora do Graal se revelar um jovem primo do herói, numa cena profundamente iniciática e sangrenta em que o pescador autoriza a demanda, mas desencaminha o herói ao proibir perguntas, como se quisesse fazer fracassar sua visita ao castelo do Graal, assumindo para si a culpa como mestre.

22. Como na iniciação xamânica, o herói não é inteiramente livre, sendo acompanhado de perto ou de longe pelo mestre xamã, que pode mentir, como fará o eremita Trevrizent com Parzival a respeito do Graal, enviar o neófito por pistas falsas, provocar fracassos e recuos, mas intervém em caso de perigo absoluto para evitar-lhe um destino irremediável, esquema frequente nos contos populares, como na Saga de Yann bretã, em que o jovem cumpre proezas iniciáticas sob a guia de um cavalo falante que é na verdade um feiticeiro, pai do rapaz.

23. O pescador coxo é também uma espécie de ferreiro, caráter provavelmente mais acentuado no arquétipo e do qual restam traços em todas as versões, ensinando o uso da espada e armando o herói, coxo e pai de dois filhos misteriosos no texto galês, pai de uma filha destinada ao herói em Wolfram, episódio oriundo de um esquema celta presente quase integralmente nas Infâncias de Finn irlandesas, em que Demne, o Gamo, apelidado Finn, o Belo ou Louro, perseguido pelos assassinos de seu pai Cumal, o deus Camulos, e criado por mulheres guerreiras, estabelece-se junto ao ferreiro Lochan, desposa em casamento anual sua bela filha Cruithne, recebe dele duas lanças, desobedece ao conselho de evitar o caminho da porca monstruosa Beo, mata-a e traz sua cabeça como dote nupcial, e depois, a pedido de uma velha que chora o filho morto, mata o grande guerreiro responsável, que era também um dos assassinos de seu pai, cumprindo dupla vingança e recuperando o tesouro paterno.

24. As analogias entre as demandas de Peredur e de Finn são evidentes, com o tema nítido da vingança pelo sangue, que exige uma arma dada ou forjada numa etapa importante da iniciação, sendo a entrega das lanças por Lochan equivalente à investidura cavaleiresca desconhecida do relato irlandês, muito mais arcaico, que torna o herói apto a cumprir a ação misteriosa a que está predestinado, e, se o ferreiro-pescador, como mestre sábio, tenta desencaminhá-lo por conselhos, Finn os desobedece como certamente previra Lochan, enquanto Peredur, ainda incapaz de independência e de dizer não, os segue à risca, daí o semifracasso que se segue.

25. Na manhã seguinte, após breve iniciação, Peredur despede-se do tio e chega a outro castelo de porta aberta, onde um velho sentado em almofadas, após a refeição, lhe pergunta se sabe manejar a espada e o faz golpear um gancho de ferro fixo no chão, que mal caberia na mão de um guerreiro, e duas vezes o anel e a espada se partem e voltam a soldar-se quando Peredur une os pedaços, mas na terceira não se ressoldam, e o velho o abençoa como o primeiro esgrimista do reino, possuidor de dois terços de sua força, faltando-lhe adquirir o terço restante para tornar-se invencível, prova que exige tanto força para destruir quanto para reconstruir e cujo tema da espada a ressoldar reaparece na versão cisterciense da Demanda.

26. Revelando-se irmão da mãe de Peredur e, portanto, irmão do pescador da véspera, o velho conversa com o sobrinho quando entram no salão e passam para um quarto dois homens carregando uma lança enorme de cujo encaixe correm até o chão três regatos de sangue, diante da qual todos se lamentam e gemem, sem que o velho interrompa a conversa nem explique, nem Peredur pergunte, e, após breve silêncio, entram duas donzelas carregando um grande prato com uma cabeça de homem banhada em sangue, provocando gritos tão fortes que se torna cansativo permanecer no salão, até que se calam.

27. Nesse cortejo não há talhador, o Graal não é nomeado e é apenas um prato, mas vê-se o que contém, uma cabeça humana cortada banhada em sangue, da lança correm não uma gota, mas três regatos de sangue, o prato é levado por duas jovens e a assistência solta gritos de dor e lamentação que lembram ritos funerários arcaicos de certas sociedades tradicionais.

28. Esse relato sóbrio e preciso, distante do rico cortejo de Chrétien e ainda mais da cena complicada à vontade por Wolfram, está provavelmente mais próximo do arquétipo, como confirmará o romance de Jaufré, parecendo, sem floreios e sem conotação cristã alguma, surgido por encanto do mais profundo paganismo celta.

29. A cabeça cortada é motivo bem conhecido da mais autêntica e antiga tradição celta, como atestam a arqueologia e os relatos históricos gregos e latinos, e sua importância para compreender a religião celta e a Demanda do Graal exige comentário especial, assim como a Lança, que ganhará pleno valor na continuação de Peredur e não é de modo algum a lança do centurião Longino, como pretenderam os textos cristianizados, mas um objeto sagrado igualmente conhecido da mitologia celta.

30. Segundo a Batalha de Mag Tured irlandesa, os antigos deuses Tuatha Dé Danann trouxeram das ilhas do norte do mundo a ciência, a magia, o druidismo, a feitiçaria e a sabedoria, além de objetos como a espada de Nuada, a Pedra de Fál, o Caldeirão do Dagda e a Lança de Assal, vinda de Gorias e pertencente a Lug, com a qual ninguém perdia batalha, lança de poder venenoso e destruidor que, segundo o Destino dos filhos de Tuireann, precisava ter a ponta mergulhada num caldeirão de veneno e fluido negro, isto é, sangue, e que, segundo um poema do Leabhar Gabála, matava aquele cujo sangue derramava, não errava o alvo quando se pronunciava ibar, teixo, e voltava à mão do lançador ao dizer-se athibar, sendo essa a verdadeira lança da demanda primitiva, cuja presença junto à cabeça cortada se justifica pelo episódio do segundo ramo do Mabinogi em que Brân o Abençoado, ferido na coxa por uma lança envenenada, como o Rei Pescador, ordena que lhe cortem a cabeça e a levem para um banquete de imortalidade, de modo que, cabendo a Peredur vingar o homem cuja cabeça está no prato, a lança é sem dúvida a arma que o feriu e a lamentação um ritual a observar até que a vingança se cumpra, num contexto nada cristão.

31. Peredur naturalmente não faz pergunta alguma, despede-se do tio no dia seguinte sem nada ter compreendido e encontra a prima de Chrétien, aqui reduzida a irmã de leite, que o chama de excomungado e lhe atribui o peso da morte da mãe, sem dizer nada sobre o enigmático cortejo nem censurá-lo pelas perguntas não feitas.

32. Depois de vingar a irmã de leite enviando o assassino do marido dela como prisioneiro à corte de Artur, Peredur atravessa ao acaso uma terra sem animais invadida por arbustos, que nas outras versões descreve os arredores do castelo do Graal, e chega a um castelo onde é recebido por uma jovem por quem se apaixona de imediato, vestida com uma velha roupa de seda furada através da qual se via uma pele mais branca que a flor de cristal, com cabelos e sobrancelhas mais negros que o azeviche e duas covinhas nas faces mais vermelhas que o mais vermelho, retrato que prepara a imagem poética do êxtase na neve e corresponde à Blanchefleur de Chrétien, que a fez loura.

33. Como em Perceval, a jovem vem à noite oferecer-se a Peredur, expõe-lhe a situação desesperada e pede ajuda, e ele promete tudo, mas, diferentemente de Perceval, não a faz entrar em seu leito, recusando o que ela oferece antes de provar até que ponto pode socorrê-la, e ela volta ao próprio quarto.

34. Peredur livra a jovem dos inimigos vencendo-os e enviando-os à corte de Artur, permanece três semanas junto dela e parte prometendo socorrê-la sempre que precisar.

35. O episódio difere do de Chrétien, em que Perceval está real e sinceramente apaixonado por Blanchefleur, e do de Wolfram, em que Parzival desposa a bela Condwiramurs, pois no relato galês não há sequer relação sexual, parecendo Peredur antes obcecado pela imagem de uma mulher inacessível.

36. Retomando a errância, Peredur reconcilia a jovem do anel com seu amigo e chega a um estranho castelo onde uma condessa cercada de muitas damas o convida à mesa, mas o desaconselha a pernoitar porque todas as noites o castelo é atacado por nove feiticeiras de Kaer Loyw, Gloucester, e, decidindo ficar, ele luta contra uma delas, que, prestes a morrer, pede clemência e lhe oferece cavalo, armadura e o ensino da cavalaria e das armas, aceitando ele com a condição de que as feiticeiras não ataquem mais as terras da condessa, e, com permissão desta, parte para Kaer Loyw, onde permanece três semanas na corte das feiticeiras.

37. Essa aventura, exclusiva de Peredur e de incontestável fonte celta, não podia ser retida pelo romancista champanhês nem pelo poeta alemão, pois punha em causa o valor da cavalaria tradicional, transmitida por homens após provas de resistência masculina, ao fazer Peredur, que só possuía dois terços de sua força, adquirir o último terço junto a mulheres, o que desagradaria ao público francês ou alemão, enquanto o autor galês a incluía sem dificuldade por remeter a um antigo costume celta cuja lembrança persistia, ao menos como tradição lendária, no meio de língua celta.

38. As feiticeiras de Kaer Loyw desempenham junto a Peredur o mesmo papel que as mulheres guerreiras Scatach, Uatach e Aífe na Educação de Cúchulainn, constituindo a etapa decisiva de sua iniciação guerreira, na qual aprende não só a maneira material de combater, mas a magia guerreira essencial às sociedades arcaicas, tornando-se virtualmente invencível pela comunicação de segredos, como os grandes heróis épicos Cúchulainn, Finn, Siegfried, iniciado pela Valquíria, e Aquiles, por sua mãe Tétis, ficando desde então apto a cumprir sua missão.

39. Peredur, porém, não tem noção clara do caminho nem da missão, pois a primeira passagem pelo castelo do Graal não lhe deixou lembrança marcante, e, após escolher cavalo e armas, deixa a corte das feiticeiras ao acaso e é recebido por um eremita, visita quase não descrita no texto galês, mais considerada por Chrétien e muito desenvolvida em Wolfram, onde corresponde ao encontro com Trevrizent, outro tio de Parzival, que, ao informá-lo sobre o Graal, mente e o desencaminha ainda mais.

40. No prado coberto de neve diante do acampamento de Artur, Peredur, vendo o corvo negro beber o sangue sobre a neve, pensa naquela que ama e cai em êxtase, sem que se saiba de que mulher se trata, pois a expressão a mulher que mais amava pouco esclarece numa demanda semeada de mulheres que o amam e por quem se apaixona, sabendo-se apenas que é morena e podendo ser simplesmente a imagem ideal da Mulher que persegue sem ainda tê-la encontrado, análoga à famosa Sílfide que impregna toda a obra de Chateaubriand.

41. Artur envia os companheiros para convidá-lo, e Peredur os derruba um após outro, Kaï em particular, para meditar em paz, até que Gwalchmai-Gauvain consegue amansá-lo e trazê-lo, sendo festejado pelo rei, mas no dia seguinte encontra uma jovem, Angharad Mão de Ouro, a quem diz que poderia comprometer-se a amá-la mais que a qualquer outra mulher, se ela quisesse.

42. A aparente leviandade de Peredur, que se apaixona por cada jovem que encontra esquecendo as anteriores, tem uma justificação psicológica, pois, tendo esquecido a Lança e o prato, ele busca na verdade a Mulher ideal, projeção da deusa morena que reaparece no romance de Jaufré, de modo que a demanda do Graal, que se quis mística e cristã, poderia ser uma demanda da mulher, busca da divindade feminina ocultada pelas sociedades patriarcais e pelo cristianismo, mas ressurgida no florescimento do culto mariano no século XII, uma justificação mitológica, pois a jovem do anel, a equivalente de Blanchefleur, a condessa e Angharad são manifestações de uma só mulher, a futura Imperatriz, soberana, iniciadora e verdadeira amante de Peredur, equivalente à ambígua Kundry de Wolfram, e uma justificação social e ética, pois as sociedades celtas, herdeiras das concepções druídicas, não partilham a noção de fidelidade amorosa das sociedades fortemente cristianizadas que culpabilizam o sexo ao extremo.

43. O problema essencial consiste em saber se o amor absoluto exaltado pelos textos celtas e medievais implica exclusividade ou pode abranger vários seres, e os textos celtas indicam que a fidelidade amorosa não existe, como mostram Cúchulainn, noivo de Emer, a quem mais ama, mas iniciado sexualmente pelas mulheres guerreiras da Escócia e amante temporário da fada Fand no Outro Mundo, antes de escolher Emer por ser quem lhe agrada enquanto viver, a rainha Medb, que concede a amizade de suas coxas a guerreiros cujos serviços deseja sem deixar de preferir o marido Ailill, Guenièvre, apaixonada por Lancelote e fiel a Artur, Isolda, cuja atitude para com Marcos é ambígua apesar do amor absoluto por Tristão, e Gauvain, pronto a provar à última donzela encontrada que a ama mais que todas, categoria à qual pertence Peredur, que reage como um celta tradicional ao prometer a Angharad apenas amá-la mais que às outras, ao contrário de Perceval e Parzival, já prisioneiros da ética cristã.

44. A noção celta de fidelidade é sobretudo relativa, consistindo na fidelidade a um ser de eleição livremente escolhido e amado com amor absoluto numa relação privilegiada que não admite outra do mesmo tipo, sendo secundárias as ligações passageiras de natureza política, social, econômica, puramente sexual ou, como parece ocorrer no Amor Cortês dos séculos XII e XIII, familiar, já que o amor entre a dama e o cavaleiro não se compara ao que a une ao marido senhor, o que clarifica as relações entre amante e marido, vassalo e suserano, dando boa consciência a um e preservando o amor-próprio do outro, princípio cuja negação torna Artur, na Morte do rei Artur, o primeiro responsável pela desagregação da Távola Redonda ao não mais aceitar a ligação de Guenièvre e Lancelote, privando-se deste, e que Charles Fourier analisa na Atração apaixonada ao descrever a partida quadrada e o acordo tácito de infidelidades recíprocas, sendo tempo de buscar a origem do Amor Cortês ou Fin'Amor nos costumes das sociedades celtas ocidentais, de ordem sociológica e cotidiana, mais que em vagas contribuições árabes puramente literárias.

45. O episódio de Angharad Mão de Ouro existe apenas no Peredur, e a partir dele o relato galês se torna muito diferente dos de Chrétien e de Wolfram.

46. À declaração de amor de Peredur, Angharad responde jurando que não o ama e jamais o quererá, e ele, sem desanimar, jura não dirigir palavra a nenhum cristão até que ela reconheça amá-lo mais que a qualquer outro homem, abandonando a corte para uma nova errância.

47. Numa floresta, Peredur passa por casas negras grosseiramente construídas, vê um leão acorrentado à beira de um abismo cheio de ossos de homens e animais, rompe a corrente e lança o leão no vazio, chegando a um vale com um castelo onde um homem alto de cabelos grisalhos e dois jovens, um louro e outro moreno, lançam facas com cabos de osso de cetáceo, compreendendo que o leão era o porteiro desse homem, que o convida amavelmente, enquanto a filha do anfitrião lhe revela que no dia seguinte terá de combater os gigantes das casas negras, vassalos de seu pai.

48. O velho de cabelos grisalhos, duplo do Rei Pescador, com seus dois filhos louro e moreno e uma suposta filha, mergulha Peredur, errante sem meta, em novas provas destinadas não a provar seu valor, mas a desencaminhá-lo, já que, sem saber para onde vai nem qual seu objetivo, é paradoxal mas indispensável que se descubra e reanime as imagens que jazem em seu inconsciente, e assim ele mata um terço dos gigantes e os dois filhos do anfitrião, poupando este sob a condição de ir batizar-se na corte de Artur, pois os habitantes do castelo não eram cristãos, o que permitiu ao herói falar-lhes sem quebrar o juramento, e depois mata uma serpente deitada sobre um anel e se apodera deste.

49. O episódio da serpente e do anel, pouco explicitado, prefigura o que virá e possui evidente simbolismo sexual, pois, ao matar a serpente, Peredur elimina o elemento masculino, o pai, em favor do elemento feminino representado pelo anel, signo materno por excelência, escolhendo, como herói que deve cumprir uma ação na família da mãe, entre a pertença à linhagem paterna, sociedade patriarcal, e à materna, ginecocracia, escolha que revela os componentes celtas do relato.

50. Depois dessa façanha, Peredur encontra cavaleiros de Artur que não o reconhecem e a quem não pode responder por causa do juramento, fere mais uma vez Kaï e recebe o apelido de Criado Mudo, até que Angharad, sem reconhecê-lo, declara que, apesar de ele não poder falar, o amará mais que a todos no mundo, e Peredur, desligado do juramento, responde alegremente que a ama, sendo reconhecido por todos e permanecendo na corte com Gwalchmai, Owein e os demais, sem que se diga mais nada sobre Angharad.

51. Perdido durante uma caçada com Artur, Peredur encontra uma morada onde criados jogam xadrez e senta-se junto a três donzelas, uma das quais o adverte de que o dono da casa nunca deixa viver quem ali se aventura, e de fato o senhor, um homem negro caolho, poupa-o durante a noite a pedido da filha e obriga-o a combater de manhã, sendo vencido e interrogado sobre como perdeu o olho, cena que situa Peredur no mundo subterrâneo diante de um ser ciclópico, imagem do grande deus indo-europeu senhor do tempo e do espaço, o Wotan-Odin germânico, o Horácio Cocles historicizado dos anais romanos, cuja prova confere ao herói o direito de saber para onde deve dirigir-se.

52. O homem negro explica ter perdido o olho lutando contra a Serpente Negra do Monte, Crug Galarus, o Monte Doloroso, onde há um cairn, monte de pedras ou túmulo, e nele uma serpente com uma pedra na cauda dotada da virtude de dar a quem a segura numa mão todo o ouro que deseje na outra, e indica a Peredur o itinerário até uma misteriosa Condessa das Proezas, após o que Peredur o mata friamente, enquanto uma das jovens lhe diz que agora possui todos os tesouros do castelo e pode escolher a mulher que lhe agrade.

53. A pedra na cauda da serpente lembra a Pedra Filosofal dos alquimistas, tanto mais que a cauda do dragão é símbolo corrente dos tratados de alquimia, e o tesouro subterrâneo guardado por serpente, dragão ou diabo é tema difundido nos contos orais, mas para chegar ao cairn Peredur deve passar pela Corte do Rei dos Sofrimentos, nome que lembra o rei Mehaigné, sofredor de sua ferida, duplo do Rei Pescador nas versões cristianizadas, e onde ocorre algo ligado ao Graal, pois, recebido por mulheres, vê chegar um cavalo trazendo na sela um cadáver, que uma delas banha numa cuba de água quente e unge com um bálsamo precioso, ressuscitando-o, o mesmo acontecendo com mais dois cadáveres.

54. Essa cuba tem paralelos na tradição celta, como a Fonte de Saúde da Batalha de Mag Tured irlandesa, que devolvia o calor aos guerreiros mortos, deixando-os cheios de vida no dia seguinte, e o caldeirão do segundo ramo do Mabinogi galês, que restituía a vida ao homem morto nele lançado, embora sem a fala, o que, somado a outro caldeirão galês de inspiração e abundância, evoca as virtudes curativas do Graal, que segundo Chrétien e todos os continuadores alimenta e mantém vivo o rei ferido, tema tão importante que merece um capítulo inteiro.

55. Dessa vez Peredur não fica estupidamente mudo diante do estranho espetáculo e pede explicações, sabendo que todos os dias os jovens são mortos por um addanc que vive numa gruta, e, quando no dia seguinte partem novamente para combatê-lo, pede para acompanhá-los, sendo recusado porque, se morresse, ninguém poderia ressuscitá-lo, e limita-se a segui-los à distância.

56. O addanc, ou afanc, pertence ao bestiário fabuloso galês e designa um monstro, espécie de serpente ou dragão, embora o termo signifique castor, e uma tradição muito difundida, de origem incerta, faz dele um monstro que vive sob um lago ou lagoa e rompe constantemente o dique provocando inundações, prova de que o célebre Monstro do Lago Ness não é invenção jornalística, mas remete a crenças antigas.

57. Peredur faz então um encontro capital ao avistar, sentada no alto de um monte, a mulher mais bela que já vira, que conhece o objetivo de sua viagem e o adverte de que o addanc mata por astúcia, escondido atrás de um pilar de pedra à entrada da gruta, de onde vê sem ser visto e atinge todos com um dardo envenenado, oferecendo-lhe, em troca da promessa de amá-la mais que a qualquer outra mulher, uma pedra que lhe permitirá vê-lo sem ser visto, e, quando Peredur promete, dizendo amá-la desde que a viu, e pergunta onde a encontrará, ela responde que do lado da Índia e desaparece após pôr-lhe a pedra na mão.

58. O cenário desse episódio é um monte megalítico, onde ressurgem as crenças ancestrais sobre os sídhe irlandeses, morada dos antigos deuses, heróis, fadas e seres sobrenaturais e esconderijo de tesouros, cuja entrada é sempre perigosa, daí a intervenção da mulher misteriosa, um dos aspectos da divindade feminina que assiste o herói desde o início, que Peredur aceita sem dificuldade amar acima das outras, provavelmente morena e verdadeira fada ou maga, já que lhe dá a pedra da invisibilidade, comparável ao anel de Giges e ao anel que a dama-fada Lunete dá a Yvain no Cavaleiro do Leão de Chrétien.

59. Trata-se de um esquema tradicional universalmente difundido, pois Teseu só vence o Minotauro no labirinto subterrâneo graças ao fio de Ariadne, Jasão só obtém o Velocino de Ouro graças à maga Medeia, que adormece o dragão guardião, e no conto hitita do Dragão capturado por astúcia a deusa Inara pede ao mortal Hupasiya que mate o dragão das profundezas, missão que ele só aceita tornando-se amante da deusa para obter a parcela de poder divino necessária, sendo sempre indispensável a ajuda da Mulher detentora de poder divino ou mágico, como nos contos em que o herói recebe de uma mulher um objeto ou fórmula mágica, de modo que Peredur está agora maduro para avançar na demanda.

60. A demanda prossegue por estranhas terras, chegando Peredur a um vale onde corre um rio com um rebanho de ovelhas brancas numa margem e um de ovelhas negras na outra, e cada vez que bale uma ovelha branca uma negra atravessa a água e se torna branca, e vice-versa, enquanto à beira do rio se ergue uma grande árvore cuja metade arde da raiz ao topo e a outra metade tem folhagem verde.

61. A cena corresponde à da Navegação de Máel Dúin irlandesa, de manuscrito do início do século XII, em que numa ilha dividida por uma paliçada um homem corpulento lança ovelhas brancas que se tornam negras ao passar para o outro lado e negras que se tornam brancas, e a árvore verde de um lado e ardente do outro evoca a lenda da Árvore Seca, bem conhecida na Idade Média, e a longa dissertação da demanda cisterciense sobre a Árvore da Vida levada por Eva do Paraíso terrestre.

62. Peredur encontra-se na fronteira entre os dois mundos, o dos vivos e o dos mortos, concebidos segundo a visão celta de trocas contínuas entre eles, conforme às crenças druídicas registradas pelos autores antigos, para os quais a morte é apenas o meio de uma longa vida, segundo Lucano, as almas passam de um corpo a outro, segundo César, revivem certo número de anos em outro corpo, segundo Diodoro da Sicília, e há outra vida entre os mortos, segundo Pompônio Mela, sendo total a intercomunicação na noite de Samain, grande festa celta de primeiro de novembro, quando os sídhe da Irlanda estavam abertos e nada do que neles havia permanecia oculto.

63. As trocas entre os dois mundos se dão nos dois sentidos, pois os humanos que entram no Outro Mundo se tornam verdadeiramente seres do Outro Mundo e os seres do Outro Mundo se tornam humanos, como exprime o símbolo das ovelhas brancas e negras, num domínio em que todas as metamorfoses são possíveis.

64. Diante de três caminhos, Peredur pede orientação a um jovem caçador, chega à gruta do addanc, mata-o sem dificuldade graças à pedra da invisibilidade e volta para despedir-se dos três filhos do Rei dos Sofrimentos, recusando a proposta de ficar com eles e desposar uma de suas irmãs.

65. Peredur é então alcançado por um cavaleiro de armadura vermelha, Etlym Gleddyf Coch, Etlym da Espada Vermelha, que se declara seu vassalo e pede para acompanhá-lo, e ambos são recebidos na corte da Condessa das Proezas, onde o costume concede a quem derrube seus trezentos homens o direito de sentar-se à sua mesa, prova que Peredur vence, enquanto a condessa, apaixonada pelo cavaleiro vermelho, passa a noite com Etlym.

66. No dia seguinte, Peredur e Etlym seguem para o Monte Doloroso, cercado por trezentos homens que aguardam a morte da serpente para disputar entre si a pedra de sua cauda, e Peredur derruba todos, vai visitar a serpente, mata-a e toma a pedra que dá ouro, distribuindo riquezas aos trezentos homens sob a condição de se tornarem seus vassalos, entregando depois a pedra a Etlym com a recomendação de juntar-se à Condessa das Proezas e permanecer com ela, e parte, eterno errante, em busca de não se sabe bem o quê.

67. Peredur não guarda a pedra para si, pois ainda não sabe a que está destinado e não considera a riqueza um objetivo suficiente, e chega a um lugar de inúmeros moinhos de água e de vento, onde o moleiro-chefe o hospeda e lhe conta que a Imperatriz de Cristinobyl reuniu na planície todos os cavaleiros do mundo para escolher em torneios o mais valente como esposo, e no torneio Peredur vê a Imperatriz, a mais bela donzela do mundo, apaixona-se perdidamente, vence todos os adversários enviando-os a ela e é por fim recebido, ocasião em que três homens apresentam à Imperatriz taças de vinho para que as dê a quem deverá enfrentá-los, e ela as dá a Peredur, que mata os três, sendo então lembrado por ela da promessa feita quando lhe deu a pedra e ele matou o addanc, após o que governa com a Imperatriz durante catorze anos.

68. As três taças de vinho evocam a taça de Gwenhwyfar que desencadeou a demanda, e Peredur, no auge de seu poder e de sua força, guerreiro invencível, é tomado como esposo pela Imperatriz, curiosa personagem que confessa ser a mulher da pedra da invisibilidade sem que ele a tenha reconhecido, o que não o impediu de amá-la, revelando-se que todas as mulheres encontradas até então são aspectos diferentes dela, imagem clara da Soberania e do poder sobrenatural.

69. As aventuras de Peredur poderiam terminar nesse casamento com a Imperatriz, o que faria da demanda essencialmente uma demanda da Mulher, como se o autor galês tivesse abandonado o modelo comum para seguir outra tradição desde o encontro com Angharad, ou como se Chrétien tivesse descartado essa parte do modelo por não ser arturiana e ser marcada demais pelo contexto galês, mas essas aventuras, aparentemente estranhas à demanda do Graal, reforçam o caráter iniciático do percurso de Peredur, e a ausência da vingança pelo sangue se explica provavelmente pela necessidade de cumprir a demanda da Mulher antes de alcançar a meta verdadeira.

70. A partir desse ponto, o relato galês volta bruscamente ao contexto arturiano e torna-se, por algum tempo, paralelo ao Perceval de Chrétien.

71. Na corte de Artur em Caerllion sobre o Usk, antiga capital da Britannia Secunda no sul do País de Gales, Peredur, apelidado Paladyr Hir, Lança Longa, está com Gwalchmai, Owein e Hywel, filho de Emyr Llydaw, Hoel da Armórica, quando chega uma jovem de cabelos negros, montada numa mula amarela, equivalente à Hedionda Donzela da Mula de Chrétien e à Kundry de Wolfram, de fisionomia rude e grosseira, rosto e mãos mais negros que ferro mergulhado em piche, maçãs salientes, queixo alongado, nariz pequeno de narinas dilatadas, um olho cinza-esverdeado cintilante e outro negro como azeviche profundamente afundado, dentes longos mais amarelos que a flor da giesta, ventre erguido acima do queixo e espinha em forma de báculo.

72. A horrenda donzela saúda amavelmente a todos, mas investe contra Peredur, acusando-o de ter estado na corte do rei coxo, visto o jovem com a lança vermelha de cuja ponta uma gota de sangue se transformava em torrente até o punho, e outros prodígios, sem perguntar o sentido nem a causa, pergunta que teria devolvido a saúde ao rei e a seus domínios.

73. A verdadeira prova de Peredur no castelo da Cabeça Cortada consistia em estabelecer contato entre aquele mundo estranho, espécie de Outro Mundo indiferenciado e estéril, e o mundo dos vivos de onde vinha, reanimando uma terra moribunda e devolvendo a fecundidade a um reino esterilizado pela impotência do rei, símbolo do reino, comunicação e diálogo que ele não soube provocar, tema presente em numerosas lendas e contos populares em que o herói chega por acaso a uma Cidade Submersa ou Desaparecida, é solicitado a comprar algo ou a responder a perguntas e, por não ter dinheiro, não saber responder ou não perguntar, vê a cidade desaparecer, ficando sozinho, desesperado pelo ato falhado e obcecado pelo desejo de reencontrar o caminho.

74. A Donzela Feia acrescenta que, para quem quiser cobrir-se de glória, há uma ocasião excepcional, pois em sua morada, o Castelo Orgulhoso, residem quinhentos e setenta cavaleiros prontos a combater, e numa montanha próxima há uma jovem prisioneira num castelo, cuja libertação daria a maior fama do mundo, e Gwalchmai declara querer libertá-la, enquanto Peredur jura não dormir em paz enquanto não souber a história e o sentido da lança mencionada pela jovem negra.

75. Desenham-se assim as duas demandas, a de Gauvain voltada para a jovem prisioneira e a de Peredur, que já cumpriu a demanda da Mulher, voltada para a resposta às perguntas não feitas, preocupando-se ele mais com a lança que sangra do que com a cabeça cortada no prato, prova de que o Graal pode ser muito diferente segundo quem o busca.

76. A demanda de Gauvain, muito esquematizada e resumida no relato galês em comparação com a redundância de Chrétien, omite a mãe do rei Artur e a libertação da jovem, abandonando Gwalchmai quando ele marca o combate com o cavaleiro que o acusa de ter matado seu pai e voltando-se apenas para Peredur, sem mais paralelismo com Chrétien, salvo alguns episódios presentes nas Continuações.

77. Peredur percorre toda a ilha da Bretanha em busca de notícias da jovem negra sem que ninguém possa informá-lo, e, após um ano de errância, um sacerdote lhe recusa a bênção por portar armas numa sexta-feira santa, mas o desculpa por ter perdido a noção do tempo e o hospeda.

78. Nesse único trecho da parte final comum ao autor galês, a Chrétien e a Wolfram, Peredur interroga o anfitrião sobre o Castelo das Maravilhas onde testemunhou o misterioso cortejo, e o sacerdote o envia a uma corte real num vale além da montanha, onde, bem recebido, corteja com tal empenho a filha do rei, que parece corresponder-lhe, que o rei o lança na prisão, mas a jovem vem ter com ele à noite e lhe fornece armas para participar dos combates contra um conde poderoso revoltado, sob promessa de voltar à prisão ao anoitecer, e Peredur mata os homens do conde e o próprio conde, retornando fielmente à prisão, onde a filha do rei cuida do repouso do guerreiro, até que ela revela ao pai a identidade do vencedor, e o rei o liberta oferecendo-lhe a filha e metade do reino.

79. Peredur recusa, pedindo apenas informações sobre o Castelo das Maravilhas, e a filha do rei, exclamando que o pensamento daquele homem é mais elevado do que supunham e declarando-o o homem que mais ama, indica-lhe o caminho além da montanha até um lago com um castelo no meio, chamado Castelo das Maravilhas, cujo nome conhecem, mas cujas maravilhas ignoram.

80. O castelo no meio ou mesmo sob o lago é tema difundido na mitologia celta e nos contos populares, domínio mágico e espécie de Outro Mundo acessível apenas a quem conhece a entrada, como na expedição de Lóegaire, cujos heróis mergulham num lago e veem uma fortaleza e uma paisagem semelhantes às da superfície, na Perseguição de Gilla Decair, com sua Terra sob o Mar, na História de Taliesin, em que Tegid o Calvo vive no meio do lago Tegid com sua mulher Ceridwen, no Reductorium Morale de Pierre Bersuire, do século XIV, em que o cavaleiro Galuagnus mergulha num lago e descobre uma estranha fortaleza, em Lancelote do Lago, criado num país maravilhoso pela Dama do Lago, Viviane, fada das águas, e na espada de Artur, Kaledfwlch, proveniente do país sob as águas.

81. O castelo atingido por Peredur não é ainda o verdadeiro Castelo das Maravilhas, mas uma etapa prévia, onde, entrando por portas abertas, encontra um jogo de xadrez em que as peças jogam sozinhas, perdendo o lado que ele ajuda enquanto o outro solta gritos como homens, e, irritado, recolhe as peças no colo e lança o tabuleiro no lago, aparecendo então uma jovem negra que o censura por ter perdido o tabuleiro da Imperatriz, ao qual ela tinha mais apego que a tudo no mundo.

82. Esse estranho tabuleiro, prefiguração do xadrez eletrônico moderno, reaparece com mais detalhes na Continuação de Perceval do pseudo-Wauchier e na Demanda do Santo Graal, onde uma bela fada das águas surge diante de Perceval, figura entre as treze maravilhas da ilha da Bretanha como o xadrez de Gwenddoleu, cujas peças jogam sozinhas quando postas de pé, e evoca a Navegação de Art, filho de Conn, em que o jovem Art joga xadrez contra a concubina de seu pai, a fada Bécuma Cneisgel, ajudada pelos seres invisíveis do sídh que movem as peças e a fazem vencer.

83. Os celtas praticaram com paixão o xadrez ou um jogo análogo, o fidchell irlandês, que adquire valor simbólico pelo papel preponderante da Rainha, verdadeira senhora do jogo, correspondente às estruturas da sociedade celta primitiva, em que o Rei, indispensável mas quase imóvel, fala depois de seu druida, deve estar presente no combate para que este seja ganho, mas nada faz, sendo o eixo de uma sociedade em que só a Rainha encarna a soberania.

84. O episódio do tabuleiro mágico é uma prova imposta pela própria Imperatriz, de quem a jovem negra é mais um rosto, para a ascensão à realeza, como prova o relato neerlandês do século XIV Gauvain e o Tabuleiro Mágico.

85. Nesse relato, um tabuleiro voador entra e sai pela janela da sala onde estão Artur e seus companheiros, e Artur promete o reino a quem o trouxer, sendo Gauvain o único a tentar a aventura, perseguindo o tabuleiro até o flanco de uma montanha, onde entra, combate dragões e chega a um magnífico castelo cujo senhor, o rei Maravilha, promete o tabuleiro em troca da espada maravilhosa do rei Amoraen, que Gauvain obtém, recebendo o tabuleiro e entregando-o a Artur, sem que se diga se este deixa o reino ao sobrinho, esquema presente em numerosos contos populares europeus.

86. Diante do tabuleiro, Peredur não resiste e joga contra o adversário invisível, a Imperatriz, que vence por ser a Soberana, mas, como homem, não aceita a condição inferior e prefere destruir a ocupar o segundo lugar, gesto de cólera que desloca o reino numa catástrofe para todos, daí a advertência da jovem negra e a obrigação de recuperar o tabuleiro, pela qual provará à Imperatriz e a si mesmo ser capaz de assumir a função real, esquema reduzido da Demanda do Graal, em que se trata de provar a capacidade de devolver vida e prosperidade a um reino esterilizado pela morte ou impotência do rei, seja pela vingança pelo sangue, seja pela cura do rei ferido.

87. A jovem negra indica a Peredur que, para recuperar o tabuleiro, deve ir a Kaer Ysbidinongyl, onde um homem negro devasta grande parte dos domínios da Imperatriz, e matá-lo, advertindo que, se for, não voltará vivo.

88. Trata-se do tema da usurpação e da opressão, pois, deslocado o reino por culpa de Peredur, o poder legítimo se enfraquece e os opressores jogam seu jogo pessoal, cabendo a Peredur restabelecer a ordem numa aventura perigosa em que arrisca a vida, já que a opressão tolerada pode ir muito longe, numa lição de política sob aparência apenas feérica.

89. Peredur vence o homem negro e poupa-lhe a vida sob condição de devolver o tabuleiro ao lugar, mas a jovem negra reaparece e o injuria por tê-lo deixado viver, pois os perturbadores de uma sociedade organizada devem ser eliminados definitivamente, e Peredur volta e o mata, perguntando depois onde está a Imperatriz, ao que a jovem responde que só a verá se matar um cervo que destrói animais e pessoas na floresta, o que só é possível se o cão spaniel da Imperatriz o levantar.

90. O cervo é aqui um animal diabólico, antiga divindade dos caçadores pré-históricos de cervídeos, tornado Cernunnos entre os gauleses, sempre representado com chifres, retomado pela lenda irlandesa em Finn, cujo verdadeiro nome é Demne, o Gamo, em sua mulher Sadb, meio mulher meio corça, em seu filho Oisín, o Filhote de Cervo, e em seu neto Oscar, o que ama os cervos, e que conservou no cristianismo medieval certa ambiguidade, representando na Demanda do Santo Graal, branco, com colar de ouro e cercado de quatro leões, o Cristo e os quatro evangelistas, mas servindo mais frequentemente de modelo ao diabo medieval chifrudo e peludo, imagem retomada aqui em sentido profano como símbolo da opressão e da injustiça que Peredur, se for o justiceiro que pretende ser, deve eliminar.

91. Guiado pelo spaniel, Peredur levanta o cervo, mata-o e corta-lhe a cabeça, mas uma amazona surge, rouba a cabeça e o cão e desaparece, e, perseguida por ele, censura-o por ter matado seu bem mais caro e só aceita devolver o cão se ele for a um arbusto na montanha onde há uma pedra chata, um dólmen, e combater quem mora debaixo dela, e de lá sai um homem negro num cavalo ossudo que, após a luta, salta no cavalo e leva consigo o de Peredur, deixando-o desconcertado.

92. Essas aventuras são muito mais desenvolvidas na Demanda do Santo Graal, em que uma velha leva a cabeça do cervo e o cão, Perceval combate um homem saído de um túmulo, outro cavaleiro rouba cabeça e cão à velha, e esta, interrogada, nada sabe e desaparece com um riso de mulher jovem, e sobretudo na Segunda Continuação de Perceval, dita pseudo-Wauchier II, em que a história do xadrez e de suas consequências constitui a ossatura do relato e em que a Dama do Xadrez, equivalente à Imperatriz, entrega a Perceval a cabeça do cervo e o acolhe amorosamente em seu castelo, o que mostra que essa continuação, apesar de bastante cristianizada, segue de perto o modelo do Peredur.

93. Em toda essa história é a Imperatriz quem conduz o jogo, arrastando Peredur por aventuras fantasmagóricas e incompreensíveis em que pode perder-se, mas para guiá-lo através das paisagens mágicas que ocultam o castelo do Graal, como em Wolfram, em que Kundry a Feiticeira mostra a Parzival o caminho de Munsalvaesche, e, após tantos rodeios, recuos e esquecimentos, Peredur está pronto para cumprir a missão a que se destinava.

94. Caminhando pelo vale, Peredur avista um castelo à beira do rio, entra e reconhece seu próprio cavalo no estábulo ao lado do de Gwalchmai, e no grande salão encontra Gwalchmai junto ao velho coxo, o Rei Pescador, sem que se saiba por que aventuras Gauvain chegou antes dele ao Castelo das Maravilhas, mas uma tarefa lhe está vedada e reservada a Peredur, a vingança.

95. A vingança constitui o tema central do relato, pois, sentado junto ao rei ferido, Peredur vê ajoelhar-se diante dele um jovem de cabelos louros que declara ter sido ele a jovem negra na corte de Artur, quando lançou o tabuleiro, matou o homem negro de Ysbidinongyl e o cervo e lutou com o homem da pedra chata, e também quem trouxe a cabeça sangrenta no prato e a lança de cuja ponta corria sangue até o punho, revelando que a cabeça era de seu primo-irmão, morto pelas feiticeiras de Kaer Loyw, que também aleijaram seu tio, e que ele próprio é seu primo, estando predito que Peredur os vingará.

96. No relato galês não há sangue de Cristo, lança de Longino nem mística esotérica, mas um importante elemento sociológico, já que a legislação celta, irlandesa e galesa, prevê a vingança privada como dever sagrado, ligando as ideias de vingança e cura, expressas pelo mesmo verbo em irlandês antigo, íccaim, pago ou curo, e em galês, iachau, ideia presente no conselho materno de Wolfram para vingar-se de Le Hellin, na vingança do Perlesvaus em condições que lembram um sacrifício ritual gaulês e sobretudo na Terceira Continuação de Manessier, em que Perceval mata Partinal da Torre Vermelha, corta-lhe a cabeça e a apresenta ao Rei Pescador, que se ergue imediatamente curado agradecendo a vingança, conformidade que indica ter sido a trama da demanda primitiva exclusivamente uma vingança pelo sangue destinada a curar um rei ferido e devolver vida e prosperidade ao reino esterilizado pela impotência do soberano.

97. O papel da Mulher é essencial, pois a regeneração visada pela demanda só se cumpre graças às indicações que fornece, às provas que impõe e à iniciação mágico-sexual que dispensa, como percebeu Wagner ao desenvolver magnífica e estranhamente Kundry num Parsifal de implicações filosóficas discutíveis, e a longa lista de mulheres que balizam o caminho de Peredur, a mãe, a jovem do anel, a equivalente de Blanchefleur, Angharad, a portadora da cabeça cortada, a primeira condessa, as feiticeiras, a irmã de leite, a doadora da pedra, a Condessa das Proezas, a Imperatriz, a donzela da mula, a filha do rei, a jovem do xadrez e a amazona do cervo, parece compor uma única mulher sob diversos aspectos, cuja natureza se torna problemática quando o jovem louro afirma ter sido várias delas, inclusive a portadora do Graal, personagem de notável ambiguidade sexual, jovem morena quando feminina, ideal buscado por Peredur, e jovem louro quando masculina, o que explica a importância dos combates contra os dois filhos, moreno e louro, dos anfitriões, aspectos complementares da noite e do dia, da sombra e da luz, segundo o monismo celta que vê os seres e as coisas como unos e múltiplos e recusa toda dicotomia, elementos incompreensíveis para o público cristão não celta do século XII e por isso abandonados por Chrétien e seus sucessores.

98. A razão dessa bissexualidade não reside na homossexualidade, pois Peredur-Perceval, embora ambíguo e por vezes muito feminino, não o é, mas provavelmente num androginato ritual, já que a mulher de múltiplos rostos, a Imperatriz, ser sobrenatural ou ao menos maga capaz de mudar de forma, pertence ao Outro Mundo e se manifesta segundo os critérios mais aptos a atrair a atenção do herói, imagem da Deusa dos antigos celtas que reaparece periodicamente em Guenièvre, Isolda, Morgana ou Viviane, e, por ter de encarnar-se, é também sacerdotisa, mas, sendo em definitivo homem, só pode ser xamã, pois os xamãs vestiam roupas femininas para mostrar que participavam das duas naturezas, à imagem do Andrógino primitivo, símbolo do Ser no Paraíso perdido antes da grande separação, sentido etimológico de sexo, e, como o xamanismo visa restituir simbolicamente pelo discurso, pelo sonho ou pelo êxtase o estado primordial, a Imperatriz desempenha o papel de xamã que conduz o herói à regeneração esperada.

99. O que Peredur aprende no Castelo das Maravilhas é, antes de tudo, que o Ser é Uno e que a bissexualidade, longe de ser tara, monstruosidade ou doença, é a tomada de consciência dessa realidade esquecida.

100. Resta a Peredur cumprir o último ato, e com Gwalchmai convoca Artur e seus companheiros para atacar as feiticeiras de Kaer Loyw, combate em que, possuindo os mesmos poderes mágicos que elas por ter sido por elas iniciado, impede que matem os homens de Artur, papel que parece limitar-se a isso, já que nem elas nem ele podiam algo uns contra os outros, mas que torna sua presença indispensável e permite a vingança do tio e do primo, aniquilando as feiticeiras que representam o mundo inquietante da magia e das receitas guerreiras de outrora, embora Peredur permaneça o único depositário de seus segredos, e talvez nisso resida a Realeza do Graal.