KRAMER, Samuel Noah. The sacred marriage rite: aspects of faith, myth, and ritual in ancient Sumer. Bloomington: Indiana University Press, 1969.
Há quase um século, o mundo erudito conhece um antigo culto mesopotâmico da fertilidade cujos principais protagonistas eram o rei-pastor Dumuzi — comumente conhecido como Tammuz, segundo a forma bíblica do nome —, protótipo eminente do “Deus Moribundo”, e sua amada esposa Inanna, também conhecida pelo seu nome semítico Ishtar. Contudo, até há pouco tempo, havia pouquíssimos dados concretos, definidos, autênticos e confiáveis relativos a esse culto de Dumuzi-Inanna — ou Tammuz-Ishtar — disponíveis aos cuneiformistas, e quase nenhum aos antropólogos e historiadores. Somente agora, com a identificação, publicação, restauração e tradução de um variado conjunto de obras literárias sumérias inscritas em dezenas de tabuletas e fragmentos de argila dispersos por museus de todo o mundo, tornou-se possível apresentar um relato relativamente abrangente e razoavelmente confiável desse culto, e especialmente de seu núcleo central, o Rito do Casamento Sagrado. Este livro representa um esforço pioneiro de reunir e interpretar esse material sumério para o historiador, o antropólogo e o humanista.
Os dois primeiros capítulos são introdutórios; estabelecem o contexto para uma apreciação mais plena do papel do Rito do Casamento Sagrado no quadro da história, da cultura e das realizações literárias sumérias. O terceiro capítulo trata da origem e do desenvolvimento do rito: sua motivação psicológica, seu pano de fundo histórico e sua transformação ao longo dos séculos. O quarto capítulo apresenta traduções dos poemas sumérios relativos ao cortejo e à sedução do casal sagrado, bem como daqueles que lançam alguma luz sobre a própria cerimônia matrimonial.
Como todos esses textos revelam, o Casamento Sagrado era uma cerimônia jubilosa acompanhada por arrebatados e extáticos cânticos de amor do tipo reunido no livro bíblico comumente conhecido como “Cântico dos Cânticos” de Salomão. O quinto capítulo esboça o conteúdo de mais de uma dúzia dessas poesias amorosas sumérias e assinala sua semelhança com o livro bíblico quanto ao estilo, ao tema, ao motivo e, ocasionalmente, até mesmo à fraseologia.
Mas, apesar do amor e da paixão, o casamento de Dumuzi terminou em amarga e irônica tragédia, ao menos no que dizia respeito a Dumuzi. A primeira metade do sexto e último capítulo apresenta o texto completo e revisado de um dos mais intrincados e imaginativos mitos sumérios, “A Descida de Inanna ao Mundo Inferior”, narrativa que termina com a tortura, a morte e a ressurreição de Dumuzi. A segunda metade do capítulo esboça o conteúdo de diversos mitos adicionais concernentes à morte trágica de Dumuzi e conclui com uma síntese das possíveis analogias entre o mito de Dumuzi e a narrativa de Cristo tal como apresentada nos evangelhos.
Este livro é uma versão ampliada das conferências Patten pronunciadas na Universidade de Indiana durante o outono de 1968; não fosse essa singular e valiosa oportunidade proporcionada pela Fundação Patten, O Rito do Casamento Sagrado talvez tivesse de aguardar ainda muitos anos por sua preparação e publicação.
Constitui profundo privilégio dedicar esta obra ao amigo e colega Cyril Gadd, durante muitos anos conservador das coleções do Oriente Próximo e do Egito no Museu Britânico, o sábio — ou ummia, para empregar a palavra suméria correspondente — cujas pesquisas e publicações, ao longo dos últimos cinquenta anos, iluminaram virtualmente todos os aspectos da história e da cultura mesopotâmicas. Foi durante o trabalho conjunto na publicação de suas cópias das tabuletas e fragmentos literários sumérios escavados por Leonard Woolley em Ur que se descobriram várias peças inscritas com partes de “A Descida de Inanna ao Mundo Inferior”, o mito que despertou inicialmente o interesse pelo culto de Dumuzi-Inanna. Uma dessas tabuletas forneceu o desfecho há muito ausente do mito e, assim, tornou possível a tradução e interpretação revisadas apresentadas no sexto capítulo deste livro.
Finalmente, sinceros agradecimentos são devidos a Jane Heimerdinger, assistente de pesquisa no Museu Universitário da Universidade da Pensilvânia, que auxiliou na preparação do manuscrito; e a Gertrude Silver, cujos ágeis dedos concluíram a datilografia em tempo recorde.