4 Inteligência do coração

SCHWALLER DE LUBICZ, René Adolphe. Du symbole et de la symbolique. Dessins de Lucie Lamy. Le Caire: Imprimerie Schindler, 1951. (Reedição: Paris: Dervy-Livres, 1978).

1. A inteligência cerebral depende dos sentidos, do registro dos fatos observados e da comparação entre ideias, constituindo-se mediante operações vinculadas à experiência sensível.

2. Nenhum elemento da inteligência cerebral é abstrato em si mesmo, pois toda ideia qualitativa ou abstrata resulta da comparação entre elementos concretos.

3. A formação gradual do órgão cerebral exige o desenvolvimento dos sentidos, do registro das observações e da comparação das ideias armazenadas na memória, enquanto a razão pertence a outra ordem; os sentidos percebem os elementos principiais mediante resistências de natureza correspondente, relacionando-se o tato à Terra, como materialidade que oferece oposição ao corpo, o paladar à Água, necessária à dissolução das substâncias, o olfato ao Ar, próprio da volatilidade, e a visão ao Fogo, cuja radiância torna as coisas visíveis.

4. O calor do fogo comum pertence ao domínio do tato, enquanto o princípio Fogo, relacionado à visão, está presente em todas as coisas visíveis.

5. A audição pertence ao quinto elemento, o Verbo, que se torna fisicamente perceptível pelo som, distinguindo-se dos quatro primeiros sentidos por atravessar o “coração” sem se dirigir diretamente ao cérebro e por constituir o sentido espiritual que abre o acesso à inteligência do coração.

6. Cada coisa possui um som próprio, pelo qual manifesta sua particularidade.

7. Todas as coisas se comunicam pelos elementos principiais, mas as esferas ainda não alcançadas pela gênese humana só se tornam acessíveis quando transformadas e reduzidas aos elementos correspondentes à inteligência inata, operação igualmente realizada pelos instrumentos científicos; a existência de aspectos ainda não experimentados de Fogo, Ar, Água e Terra permite admitir um mundo que interpenetra o domínio perceptível, enquanto a audição possibilita reconhecer um estado principial ou ideal correspondente a formas principiais.

8. A capacidade humana de conceber, além do estágio meramente animal, abstrações que a inteligência cerebral não compreende como tais demonstra a existência de um mundo paralelo, semelhante em constituição, mas diferente em aspecto, extensão e gênese, no qual se realiza um processo de retorno correspondente ao devir corporal que conduz da fonte originária ao ser humano.

9. A inteligência cerebral, desenvolvida no aspecto animal superior do ser humano, permanece estritamente limitada pelas fronteiras dos sentidos, enquanto a inteligência do coração independe dessas limitações e pertence ao grande complexo da vida.

10. A inteligência cerebral nasce da dualidade e da complementaridade, também concebida como sexualização do universo, pois a qualidade só se torna compreensível pela oposição entre complementares e existe apenas na Natureza enquanto universo dualizado.

11. Qualidade e quantidade definem-se reciprocamente, de modo que toda ideia considerada abstrata precisa ser delimitada quantitativamente e convertida em objeto concreto para ser compreendida pela inteligência cerebral, cuja atividade se interrompe quando palavras como “horizonte” ou “eixo” não podem receber uma determinação objetiva.

12. O eixo, distinto de um eixo mecânico, constitui uma característica fundamental de todo corpo em rotação, embora não possa ser imaginado ou objetivado, confirmando a probabilidade de uma inteligência diferente da cerebral, capaz de apreender funções e formas cuja existência corporal é incontestável, mas permanece inacessível ao instrumento cerebral isolado.

13. A expressão “inteligência do coração”, proveniente dos antigos egípcios, designa a dimensão humana que permite ultrapassar os limites animais e progredir em direção ao Homem divino pelo despertar do princípio originário adormecido em cada ser humano vivo.