ESOTERISMO E SIMBOLISMO

SCHWALLER DE LUBICZ, René Adolphe. Du symbole et de la symbolique. Dessins de Lucie Lamy. Le Caire: Imprimerie Schindler, 1951. (Reedição: Paris: Dervy-Livres, 1978).

I — O ESOTERISMO NÃO TEM NADA A VER COM UMA VONTADE DE SEGREDO, OU SEJA, COM UM SEGREDO CONVENCIONAL.

Se assim fosse, deveríamos considerar que textos como os das Pirâmides do Egito, os Vedas e Upanishads indianos, o Tao-Te-King chinês, o Gênesis de Moisés, os Evangelhos e o Apocalipse, por exemplo [É inconcebível que sábios, filólogos, teólogos e, em geral, todos os estudiosos da história ainda não tenham compreendido a importância dos textos das Pirâmides. Nenhum outro texto sagrado, guardado e transmitido ao longo de milênios, conservou sua forma intacta. Se as transcrições, traduções e comentários não alteraram o sentido fundamental, deixam pelo menos uma margem de dúvida quanto à forma original, veículo precisamente do Esoterismo.

Nos textos — gravados em pedra — das câmaras das Pirâmides da quinta dinastia, as palavras permanecem inalteradas há quatro mil anos. Alguns samaritanos guardam como relíquia sagrada uma Bíblia que consideram autêntica e aqui alguns “civilizados” vêm a esses santuários com jazz em seus toca-discos e os turistas ignorantes, mas curiosos, vêm secar suas mangas nessas pedras gravadas. Nas quais cada traço, cada alinhamento, cada agrupamento de textos, cada cor tem um valor — já que aqui não podemos ler essas palavras, conservemo-las pelo menos para nossos sucessores. Não foi um grande mérito da missão de Bonaparte ter reconstruído escrupulosamente os textos cuja decifração parecia impossível?], são grandes mistificações.

Se, por exemplo, a intenção dos Evangelhos era dar aos homens uma moral de honestidade, e se o caminho para chegar ao “Pai” era explicável, por que nos impedir de alcançar esse objetivo falando-nos por meio de parábolas? Por que esses textos esconderiam o que pode ser dito abertamente para ajudar os miseráveis deste mundo? Por uma necessidade perversa de criar mistérios, ou “hipnotizar o povo”, como afirmam os materialistas? Porque o mundo daquela época era muito inculto em comparação com o nosso, tão inteligente? Ou porque esses profetas e inspirados divinos não sabiam se expressar melhor?

Temos testemunhos suficientes sobre a inteligência, a grande sabedoria e até mesmo o elevado grau de civilização alcançado pelos povos do passado para dar atenção a suposições semelhantes.

Por outro lado, nenhuma criptografia, nenhum hieróglifo é absolutamente indecifrável. É absurdo acreditar que textos como os que nos foram legados em abundância pelo antigo Egito apresentem um sentido esotérico baseado nesse tipo de explicação, se esse esoterismo pode ser expresso por escrito. A criptografia e os hieróglifos, na composição de um texto sagrado, não têm outra intenção senão despertar o interesse do leitor, destacar um aspecto do texto, guiá-lo, em última análise, para seu caráter esotérico. O mesmo ocorre com os “jogos de palavras” e as parábolas.

O Esoterismo não pode ser escrito nem dito e, consequentemente, não pode ser traído. É preciso estar preparado para captá-lo, vê-lo, ouvi-lo à sua escolha. Essa preparação não é um Conhecimento, mas um Poder, e só pode ser adquirida através do esforço da pessoa, uma luta contra seus obstáculos e uma vitória sobre sua natureza animal humana.

Existe uma Ciência Sagrada e, há milênios e milênios, inúmeros curiosos tentaram em vão penetrar seus “segredos”. Como se, com um pico, quisessem cavar um buraco no mar. O instrumento deve ser o adequado. Só se encontra o Espírito com o Espírito, e o Esoterismo é o aspecto espiritual do Mundo, inacessível à inteligência cerebral.

São charlatões aqueles que acreditam poder revelar o esoterismo de tal ensinamento. Eles podem tentar explicar o sentido subjacente de uma palavra ou fórmula, ou seja, um segredo convencional, mas, na Ciência Sagrada, a única coisa que poderão fazer será substituir as palavras e, como resultado, obterão, no máximo, má literatura em vez de uma ideia simples.

O verdadeiro Iniciado pode guiar um discípulo dotado para ajudá-lo a percorrer o caminho da Consciência mais rapidamente, e o discípulo, que chegará a estágios de iluminação graças à sua própria Luz interior, lerá diretamente o esoterismo de qualquer ensinamento. Ninguém poderá fazer isso em seu lugar.