Um menino montado em seu burro percorre uma região nova para ambos, onde o caminho se perde entre areia e campos e é margeado por uma longa muralha que parece não ter fim.
A paisagem egípcia se desenha sob um céu de luminosidade ofuscante, com cumes áridos no horizonte oriental e a areia pedregosa do deserto detida bruscamente pelos campos cultivados no limite dos canais de inundação.
As tamareiras erguem suas coroas de palmas sobre as casas de terra parda, e a poeira amarela do deserto convive com o ouro das espigas e o verde intenso dos campos recém-semeados.
O
Egito é uma terra sem meio-termo, feita de contrastes absolutos entre seca e inundação, entre esterilidade da areia e fertilidade exuberante do limo.
Duas potências rivais, o Sol e o rio, disputam a terra como esposa comum, que espera deles a fecundação ou sofre a consumpção sem concessão, sem artifício e sem desculpa.
O
Egito é saudado como a terra dos Neter, os princípios divinos.
A altura da muralha desperta no menino a convicção de que ela esconde algo imenso, nunca visto, cuja volta completa exigiria longo tempo.
O pai do menino é um grande cultivador que recebeu do senhor um novo domínio, mais belo que o anterior, porém mais distante do mercado.
O menino rejeita o destino de cultivador e se apega à decisão paterna de que ele será escriba.
Movido pela curiosidade, o menino faz o burro parar à sombra de um sicômoro e sobe até o alto da árvore, mas a muralha continua alta demais para revelar seu segredo.
Ao tentar usar o burro como escada, o menino descobre que o animal se afastou, e ao segui-lo encontra uma porta na muralha.
Esquecido do burro, o menino procura uma fresta entre as tábuas da porta e se pendura nos batentes, até ser surpreendido pelo guarda da cabana vizinha.
O burro aparece amarrado junto à cabana e despojado de sua carga, e o menino acusa o guarda de ter roubado seus pães, suas nozes de dum e seu cesto de sal.
O guarda zomba do menino chamando-o de nascido de ontem e filho de seu burro, ao que este responde ter atado a cintura na véspera e exige ser tratado como homem.
O menino invoca a posição do pai junto ao nomarca e seu futuro de escriba para ameaçar o guarda, que reage virando-o de cabeça para baixo e aplicando-lhe uma surra.
O tapa-sexo recém-conquistado, o daïou, fica rasgado nas mãos do guarda, e o menino nu se lança contra ele com fúria de gato selvagem, arranhando e mordendo.
Em vingança, o menino lança o sal do cesto na jarra de água fresca do guarda, enquanto o pano precioso termina devorado por uma cabra.
A perda do daïou, símbolo orgulhoso de sua jovem masculinidade, provoca no menino um pranto desesperado e uivos de lobo para a Lua.
O guarda insulta o menino chamando-o de chacal maldito e ameaça espancá-lo, mas um homem de presença imponente detém seu braço.
Quem blasfema o nome dos animais sagrados é declarado maduro para o chacal, e o guarda, dominado pelo olhar altivo, prostra-se e lambe os pés do Mestre.
Diante do Mestre, guarda e menino expõem suas queixas mútuas, e o menino lamenta não poder voltar à casa do pai sem seu tapa-sexo.
O Mestre pergunta ao menino se antes de atar a cintura ele não andava nu, e a criança percebe com espanto que não sabia estar nua.
Com um largo sorriso, o Mestre toma a pequena mão do menino e o conduz através da porta do mistério.
O menino atravessa pórticos, pátios e caminhos ladeados de altos muros, até se deter, estupefato, diante de dois colossos que flanqueiam um pilone e reduzem homem e criança a proporções minúsculas.
Os colossos não são deuses, mas reis, e o Mestre se declara servidor deles, o que leva o menino a perguntar por que o servidor é tão pequeno.
O nome do menino é Pois Chiche, ou Grão-de-Bico, e o Mestre afirma que um dia ele saberá que esse nome é belo.
Diante de um falcão de ouro coroado com o alto pschent, o Mestre apresenta ao menino sua própria imagem e o chama de Her Bak, face de falcão, pequeno Hórus no ovo.
Os olhos, os ouvidos e o nariz do menino são os mesmos do falcão, diferindo apenas por uma língua mais sábia, e o deus estará nele no dia em que seu coração nutrir o coração do falcão.
O nome do deus é o nome do próprio menino, pois o rosto do falcão está gravado no grão-de-bico, e a Natureza nunca mente em suas imagens.
Para o menino, um deus é alguém que sabe tudo o que os homens não sabem e também todo o resto.
Os pássaros sabem infalivelmente quando o Sol nasce, culmina e se põe, mesmo quando o homem dorme ou tem os olhos vendados, e nisso são mais fortes que ele.
Os pássaros e as coisas da natureza respondem a quem observa bem, e a resposta vem do próprio coração de quem pergunta.
O modo de interrogar a natureza consiste em calar, calar e olhar.
A frase “hoje é o primeiro dia” marca o despertar do menino, e feliz é quem pode pronunciá-la em tão tenra idade.
Absorvido pelo encontro, o menino esquece a própria nudez e pede ao Mestre que o guarde consigo, oferecendo-se para fazer cerveja com os pães, como a mãe.
O Mestre recusa com tristeza, pois o menino precisa antes aprender muitas coisas e decifrar outro livro que não o dos escribas.
A terra é a ama do menino, e as árvores, as flores e as sementes que germinam ensinam mais a quem sabe olhar do que sabem os escribas que contam milhares e pretendem tudo compreender.
O pai do menino ainda não encontrou o seu primeiro dia, razão pela qual não alcançou a verdadeira sabedoria.
Ao subir no alto pedestal de um colosso para medir sua pequena estatura, o menino é esbofeteado por um sacerdote que o acusa de profanar com pés impuros o pedestal divino.
Se o coração é puro, os pés também o são, e o Mestre ordena ao sacerdote que traga um tapa-sexo novo para seu novo discípulo.
O sacerdote questiona com desdém se tal discípulo já saberia ler, e o Mestre submete o menino à prova dos hieróglifos gravados na parede.
O menino reconhece um olho e um pé e compreende os sinais de modo vivo, dizendo que o olho o observa e que o pé quer andar.
O sacerdote expõe uma leitura erudita e formalista dos sinais, com valores fonéticos, orientações e acepções canônicas, crendo provar a ignorância do menino.
Entre o saber do sacerdote e o olhar vivo da criança, o Mestre escolheria o segundo, ainda que pudesse apagar cinquenta anos de sua vida.
Os caracteres sagrados de Thot e de Sechat estão inscritos nas palmas, no bico do íbis e no grito do corvo antes de estarem nos muros, conhecimento que escapa ao cérebro erudito do sacerdote.
Embora chamado de amigo, o menino não será guardado pelo Mestre, pois outro mestre o espera para despertar seu coração.
Esse outro mestre se encontra no jardim e no campo de cevada do menino, e ele nunca o encontrou porque não sabia procurá-lo.
O verdadeiro mestre ama as perguntas de criança, e o caminho consiste em perguntar ao grão como se abre, contar os brotos da palmeira, aprender as horas com os pássaros e indagar dos ventos do Norte e do Sul a origem de seu sopro vivificante e de seu fogo.
Quem responderá a essas perguntas é aquele cujo nome o menino carrega, o Hórus que nele habita.