Após a travessia do rio e com a barca amarrada na margem oriental, o candidato caminha rumo ao Templo com a mão na mão do Mestre, como da primeira vez, ao longo do canal que liga o rio ao cais das procissões, ladeado de grandes esfinges.
As esfinges não são exatamente iguais, pois detalhes diferenciam cada uma segundo seu lugar, isto é, seu número, e o conjunto revela uma Lei que cada sacerdote conhece na medida do que consegue decifrar.
Talvez venha o dia em que os homens saberão adorar Deus em espírito e não precisarão mais de templos, de mitos que simbolizem a obra do pensamento divino, de figuras que representem os estados de Sua potência nem de escritas misteriosas que traduzam o sentido secreto da Ciência divina.
Os homens ainda não chegaram a esse estágio, e o filho dos homens precisa de tudo isso, que Her-Bak, com um suspiro, reconhece ser belo.
O Sábio contorna o muro do recinto exterior até uma aldeia de artesãos, com oficinas para os trabalhos do Templo, armazéns, escolas de especialistas e um fervilhar de operários semelhante a uma colmeia.
No segundo recinto, um dédalo de vielas abriga sacerdotes e escribas, e ali fica a nova morada de Her-Bak, confiado durante o primeiro estágio aos cuidados do escriba Pasab.
A imaginação do jovem atravessa muralhas e inventa mistérios, mas o Mestre o reconduz à realidade.
Por portas, pátios, capelas e estátuas circula uma vida intensa: sacerdotes controlam as oferendas e a correção de textos murais, escultores trocam nomes nos cartuchos, pintores corrigem cores, estudantes meditam e copiam inscrições, músicos desfilam e uma salmodia ressoa de um pequeno templo.
Uma grande muralha coberta de hieróglifos e imagens esculpidas tem uma porta de madeira lavrada a ouro que resplandece ao sol, mas o Sábio passa adiante e segue por um corredor interminável até uma porta larga de madeira nua, guardada por vigias.
Atravessar aquele limiar é o primeiro passo de um ensinamento que exige respeito, no qual é fácil entrar e difícil sair pela porta estreita que conduz ao Templo interior, pois muitos ali permanecem satisfeitos com as aparências.
Querer saber tudo o que se pode saber expõe ao risco de não conhecer outra porta, sorte reservada aos tagarelas e aos curiosos.
Nada deve ser prejulgado, pois aquilo que se quer só se revela diante dos fatos, e os homens não são julgados por palavras.
A porta se abre para um grande pátio cercado de colunatas, onde as túnicas brancas dos escribas se destacam sobre as cores vivas dos textos esculpidos e os alunos aguardam a visita extraordinária do Sábio.
Todas as frontes se inclinam diante do Sábio, e a apresentação de seu candidato desperta surpresa, inveja, ódios ciumentos e intenções de bajulação.
Aquele-que-lê-nos-corações corta essas raízes doentias declarando que Her-Bak é o menor de todos, não sabe nada, nada receberá que não tenha conquistado e não terá nenhuma fraqueza perdoada.
Um escolar muito jovem, Aouab, oferece sua amizade a Her-Bak justamente porque ele nada sabe.
O Sábio convida todos a instruir o novato e promete seu louvor a quem der a melhor definição do Templo.
Aouab define o Templo como a Casa do Deus, recebendo um sorriso do Sábio, mas é afastado por um escriba contador.
O escriba contador define o Templo como totalizador das riquezas das Duas Terras para o Senhor Todo-Poderoso, e o Sábio, olhando sua pança, acrescenta que também o é para os ventres que alimenta.
O professor Remeny o descreve como o castelo do Neter, onde este usa coroas como o Rei e recebe os impostos dos fiéis, descrição reduzida às aparências.
Smôn, alto e magro como um abutre e tido como tão avarento que guarda os pensamentos em conserva, apresenta uma tese segundo a qual o Templo exprimiria uma ciência astronômica, cósmica, numérica, analógica ou anagógica, apoiada nas afirmações de supostos iniciados.
A antítese de Smôn sustenta que os templos relatam apenas gestos rituais, fatos históricos e atos reais, pois a destruição de monumentos anteriores, a usurpação de cartuchos e as alterações de formas e dimensões seriam inadmissíveis se plantas e símbolos obedecessem a uma ciência sintética.
Instado a dizer o que defende e se crê nessa ciência, Smôn apenas balbucia sons indecisos, provocando o riso geral, e o Sábio lhe dá as costas exigindo coragem para definir o Templo.
Renf-ankh evoca Ptah, que ao criar o mundo fez os deuses descerem à terra moldando-lhes corpos de madeira, pedra e metais, nos quais eles penetraram, de modo que o lugar das estátuas é uma réplica do céu ou do horizonte celeste.
Smôn protesta que os Antigos não tinham conhecimentos astronômicos suficientes para conceber a noção de horizonte, e sua objeção é recebida com gargalhadas.
Renf-ankh observa que as portas do santuário se chamam portas do céu e que o Rei aparece nos muros como homem vivo enquanto os deuses são de pedra, concluindo que sacerdotes e sacerdotisas representam as figuras divinas nas festas, o que é uma opinião e não uma definição.
Ao tentar definir primeiro o céu, remontando ao tempo em que os deuses reinavam na Terra, Renf-ankh é interrompido: suas noções se aproximam da realidade, mas revelam incerteza nebulosa, e buscar o fio que liga todos os santuários conduziria a uma harmonia tranquilizadora.
O professor Hesy, jovial e de sorriso untuoso, afirma que todos têm razão e define o Templo como o palácio de um deus servido por domésticos, cortesãos e intendentes, que o despertam, lavam, vestem e enfeitam como a um nobre.
O humor de Hesy é recebido com ironia, como se recobrisse por modéstia uma compreensão mais profunda.
O professor Neni define os templos como casas de eternidades do Neter, mas cada templo teve começo e nenhum é eterno, e o termo hehe, ou mais exatamente nhehe, significa a duração pelos séculos dos séculos.
Todas as definições revelam a preocupação de afirmar uma concepção utilitária e humana, e o ensinamento do Templo exterior mostra apenas a casca do fruto, referindo-se aos efeitos e não às causas profundas.
A banalidade dos textos estudados sob esse ângulo enganou muitos, mas não é humilhante errar por falta de bases essenciais, e toda pesquisa conscienciosa prepara o intelecto para formular claramente problemas dignos de solução.
A solução não seria compreendida por quem confia apenas nas aparências e não cultivou a Inteligência do coração, outro caminho que pode ser oferecido mas nunca imposto, pois exige uma mentalidade adaptada, da qual depende a compreensão dos textos.
Essa disciplina remonta aos tempos antigos e ao modo de expressão dos Mestres, cuja tradição é apenas continuada.
Pasab, o mais velho dos escribas professores, reconhece que não pode haver rancor se esse conhecimento é oferecido pelos antigos Mestres na proporção da adaptação do buscador, e pede ao Sábio uma definição justa do Templo.
A definição mais simples foi dada no início, a Casa do Deus, e é tão justa quanto a afirmação de que o corpo do Homem é a Casa do Deus, razão pela qual se diz ao homem que busque conhecer a si mesmo.
O Conhecimento é um vaso esférico de puro cristal cheio de Sabedoria, no qual o universo inteiro se reflete e, reunido em feixe, é projetado em imagens sobre os planos dos muros.
As proporções dos planos, das colunas, das salas e dos recintos, assim como sua disposição e orientação, concorrem para guiar o pensamento na leitura dessas imagens.
Assim é o Templo Real, que encerra os lugares de ensinamento do todo na parte e da particularidade no todo, e isso é apenas um prefácio à definição, pois os ouvintes não poderiam receber mais.
Pasab, de cabelos embranquecidos sem ter transposto a porta interior, confessa perceber às vezes as analogias secretas das letras divinas gravadas em seu coração e pergunta se deve sufocar essa visão para não sair de seu domínio.
A estrela que protege Pasab é o Senhor do Tempo, e os que ela influencia participam de sua lentidão, mas também de sua paciência e profundidade.
O verdadeiro ensinamento não é acúmulo de saber, mas um despertar de consciência por etapas sucessivas, cada uma consistindo em descobrir a chave da porta seguinte.
Pasab cumpriu com perfeição o papel de Aquele da porta, e Sab, o chacal que lhe dá o nome, detém a primeira das chaves, vive na penumbra e na noite e pode tornar-se o Abridor dos caminhos e até o Guardião do segredo.
O homem que sabe conduzir um de seus irmãos àquilo que conheceu pode um dia ser salvo por ele.
Fechada a porta larga, um grupo ruidoso cerca o novo candidato, enquanto os professores se escandalizam por não terem sido consultados.
Smôn aconselha prudência e espera, e o sacerdote Sefh-Mesy, figura sombria e magra de olhos perscrutadores e sorriso desencantado, aprova a circunspecção, suspeitando de algum protetor importante ou de parentesco com a Casa Real.
Hesy, de mãos estendidas, acolhe Her-Bak e indaga se foi o pai quem o conduziu, e o jovem responde que não sabe, sendo acusado de ter a língua prudente como a serpente.
Her-Bak declara que foi Mersegert quem o encaminhou ao Templo, e os sábios o desdenham como vidente duvidoso, compadre astuto ou místico inofensivo.
Perguntado se quer ser sacerdote ou escriba, Her-Bak responde que não sabe, e chovem zombarias que o chamam de idiota, de naos vazio e de refugo de escola.
Aouab defende o novato, e Her-Bak observa que os escribas dali são iguais aos que deixou, pois já foi escriba, mas nunca sacerdote.
Diante da definição do sacerdote como servidor do Neter, Her-Bak pergunta se todos os homens não são servidores do Neter, o que provoca silêncio espantado e acusações de insolência, rebeldia perigosa e até aprendizagem de feitiçaria.
Sefh-Mesy isola o jovem e explica que o sacerdote é um funcionário do Templo, com múltiplos cargos: recepção de oferendas, serviço das estátuas, manutenção da casa e dos objetos de culto, regulação de cerimônias, procissões e festas, serviços religiosos e, entre os mais importantes, a gestão das rendas e a supervisão de escribas e noviços.
Her-Bak pergunta onde estão os sábios que conhecem as Leis das coisas, e os escribas o abafam exaltando a própria ciência: escrita, cálculo, textos litúrgicos, medicina, astros e agrimensura.
Cada escriba exalta seus talentos, como citar noventa cidades das Duas Terras, dominar a lista dos nomes cretenses ou as fórmulas epistolares, e todos celebram o poder do escriba, isento de corveias e senhor da multidão inculta.
Sefh-Mesy enxerga ambição no jovem e lhe agrada, pois o sacerdote que se instrui com inteligência pode alcançar os mais altos cargos, gerir grandes domínios e servir na casa dos Grandes ou do próprio Faraó.
Alguns sacerdotes têm caráter estritamente religioso e servem constantemente os santuários, enquanto outros dividem a vida entre funções rituais em dias e horas determinados e funções sociais, como registrador de tesouro, diretor de oficina ou profeta de Amon encarregado da distribuição das águas.
Os mais afortunados são os titulares de ricas fundações de templos funerários, e todos os sacerdotes gozam de notoriedade, autoridade, oferendas do deus e muitas outras vantagens.
Her-Bak pergunta se é permitido buscar a Ciência sem vantagens, provocando silêncio desconcertado e a suspeita de que seja místico ou farsante.
Sefh-Mesy lê o título de um papiro que promete o conhecimento de tudo o que existe, criado por Ptah e escrito por Thot, o céu com suas estrelas, a Terra e tudo o que ela contém, o que as montanhas expelem, o que sai do oceano e tudo o que o Sol ilumina.
O título faz saltar o coração de Her-Bak, que, trêmulo, começa a decifrar o papiro, encontrando céu, disco, lua, Órion, Ursa Maior e constelações do cinocéfalo, do vigoroso e da porca.
Decepcionado, Her-Bak descobre que o papiro é apenas uma longa lista enfadonha, útil somente para escrever o necessário, quando esperava outra coisa.
A leitura prossegue com títulos de funcionários da corte, ocupações, classes e tipos humanos, cidades, terrenos, edifícios, bebidas e carnes, até ser interrompida pela aproximação da hora da refeição.
Hesy conduz a oração final de agradecimento a Ptah, enquanto os gaviões que planam na luz ofuscante proclamam o meio do dia.
Desamparado após a dispersão, Her-Bak é abordado por Asfet, um escolar de rosto anguloso, olhos inteligentes e duros e lábios cortantes, que havia conversado em voz baixa com Smôn e oferece ajuda por julgá-lo nem cortesão nem covarde.
Apesar da hesitação diante daquele rosto, Her-Bak se deixa seduzir pelo gesto cordial e promete amizade a Asfet por ter vindo quando ele estava isolado.
Pasab, de volta sem ser notado, separa os dois estudantes e conduz Her-Bak, por encargo do Mestre, à sua nova vida.