Religião e Magia: Imaginação Simbólica

SCHWARZ, Fernand. Initiation aux livres des morts égyptiens. Paris: A. Michel, 1988.

Para compreender melhor o significado das relações entre magia e religião no Egito, é preciso saber, como escreve Paul Barguet, que “a religião egípcia não é exatamente um politeísmo, mas um monoteísmo multifacetado”. Deus pode ser invocado sob tal nome ou tal aspecto em um determinado lugar e, em outro lugar, sob outro nome ou aspecto. Para retomar uma fórmula do Livro dos Mortos, “Deus é único, ele se transforma em milhões de seres, ele está em todas as coisas”.

A magia tem a função de criar ressonâncias cósmicas em favor do morto, mas também de defendê-lo contra qualquer ação ou feitiço lançado por um eventual adversário terrestre. Na verdade, o morto teme tanto a magia negra exercida contra ele por antigos contemporâneos quanto a ação nefasta das potências celestiais. “Embora pela magia [Heka], o texto exerça pressão sobre os acontecimentos, ele não foi concebido para tornar inocente o coração do culpado perante o tribunal de Osíris”.

O capítulo 30 do Livro dos Mortos ilustra bem a consciência que o egípcio tem de não poder transgredir a ordem do mundo por meio de artifícios. “Não invente mentiras contra mim perante o Grande Deus, senhor do Ocidente.” O fundamento essencial da doutrina funerária egípcia pertence, acima de tudo, ao domínio da fé. Ela eleva os vivos à realidade dos deuses, na qual cada um busca sua salvação de uma forma ou de outra.

A tradição egípcia considera a magia como “uma arma defensiva para resistir aos golpes do destino” oferecida aos homens por Deus, mas também como um meio de recriar a articulação que liga o Céu e a Terra, o alto e o baixo. É essa ideia que sustenta o que o pensamento tradicional define como geografia sagrada, ou seja, a articulação que permite conectar o espaço-tempo essencial, único habitat da alma liberta das necessidades contingentes.