Imaginação Simbólica, instrumento da Geografia Sagrada

SCHWARZ, Fernand. Initiation aux livres des morts égyptiens. Paris: A. Michel, 1988.

A imaginação, como agente criador de formas e representações de uma realidade vivida, tem a função de nos fazer conhecer a região do Ser, além dos sentidos e do abstrato.

A imaginação ativa dá acesso ao intermundo entre os planos sensível e inteligível, ou seja, ao próprio local de sua interação. Sem esse intermundo, a articulação entre o sensível e o inteligível fica definitivamente bloqueada e seu desaparecimento acarreta uma catástrofe para o espírito, que, desprovido desse lugar paradoxal como agente ativo da consciência, perde sua capacidade de se manifestar concretamente. Ele permanece então um agente passivo e se manifesta exclusivamente de uma dessas duas formas: sensível ou abstrata.

O mundo imaginário, sede da imaginação ativa, aparece como o mundo onde se realizam as correspondências e os símbolos; é a sede do centro do mundo que liga os diferentes níveis do real; é o lugar da coincidentia oppositorum, como um novo estado de compreensão, nem alegórico nem fantasmagórico, mas bem concreto. Este estado do Ser foi descrito pelas tradições de todo o mundo e simbolizado, por exemplo, no Egito, pela figura de Osíris, o Ser paradoxal, deus dos Mortos e da Ressurreição. O mundo imaginário possui a capacidade contraditória de desmaterializar as formas sensíveis e dar forma (mas não materialidade) às realidades inteligíveis às quais dá figura e dimensão.

As sociedades tradicionais sempre reconheceram uma organização tripartida do mundo que Henry Corbin atualizou em sua obra Corps spirituel et Terre céleste (Corpo espiritual e Terra celeste) e que pode ser representada da seguinte forma:

1. Mundo inteligível: pura inteligência das formas inteligíveis (não representáveis), o Nous dos gregos, o Noun dos egípcios.

2. Mundo imaginal: o mundo da Alma, das formas imaginárias, visíveis mas imateriais, a Psique dos gregos; o universo dos Deuses-símbolos; o lugar paradoxal.

3. Mundo sensível: domínio das coisas materiais, das formas concretas, o Soma dos gregos; o mundo humano.

Através da geografia sagrada, o território material das sociedades tradicionais foi organizado de acordo com o seu mundo imaginário, e a sua pátria terrestre tornou-se assim uma verdadeira porta para a eternidade, um espelho entre o Céu e a Terra, ou seja, uma nova terra de paradoxos, uma terra de imagens.

Toda imagem do mundo deve ser capaz de fazer coexistir os componentes contraditórios da vida, pois a linguagem conceitual ou analítica é incapaz, por sua natureza e estrutura, de expressar uma realidade contraditória ou paradoxal. É através da imaginação ativa ou simbólica que a consciência chega à representação de uma visão global, onde as coisas são mostradas como são e não como as vemos.