SOUSA, Eudoro de. Mitologia: História e mito. Organização de Joaquim Domingues. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004.
Introdução. O Exilado adâmico passou a morar no Mundo Infernal sem perceber o que nele há, e a grafia de Homem e Mundo com maiúscula designa homem e mundo encerrados no horizonte da objetividade, horizonte traçado pelo Diabo, cujo Mundo e cujos limites constituem o tema desta parte.
1. O Diabo dispõe de riqueza incalculável e sempre reposta, que gastou sobretudo para fazer crer em sua inexistência, permanecendo invisível por trás do Homem, a quem transferiu a responsabilidade e os prejuízos de toda separação do que deveria ter ficado unido, e também para iludir os homens a trocarem a Criação pela construção de coisas dispersas sobre a superfície de um Mundo sobreposto ao que fora dado gratuitamente, coisas e palavras opacas que, obra do Grande Separador, trazem nas raízes o sinal da Recusa e se rebelam contra toda unidade.
2. O Diabo iludiu os homens fazendo-os crer que as coisas estão a seu serviço, quando são eles os servos delas, sobretudo porque a coisificação abrange também palavras, conceitos e ideias que isolam as coisas, e o intelecto lógico-discursivo pode diminuir a distância entre elas, mas jamais abolir o distanciamento que as mantém coisas, de modo que no domínio coisístico não há coincidência dos opostos nem amor, pois Eros desertou desse mundo e as coisas não se afeiçoam, ficando o diabólico definido como aquilo cujo limite jamais se converte em limiar.
3. Diabólicos são os homens na maior parte da vida, tanto mais quanto neles predominam o intelecto e a vontade, vontade de uma coisa só que recusa tudo o que ela não é, e para esses seres racionais e voluntariosos a morte é término temível, enquanto os que se fizeram por si foram na verdade feitos pelo Diabo, aspirantes a uma coisa só que já estão a serviço dela, na ilusão de que um dia ela os servirá.
4. A apreensão sensível ou intelectual é aprisionamento de coisas que, por malícia diabólica, fingem docilidade até se apossarem de quem pretendeu possuí-las, e a vontade, nascida no paroxismo da apreensão, é vontade de poder, última tentação do Cristo, que Rogério Bacon associou à ciência, sendo apreender ou querer coisas o primeiro passo de quem põe a alma à venda, agora comprada pelos próprios semelhantes mediante a adesão a ideologias, ciências, técnicas, seitas, partidos, sistemas filosóficos ou sabedorias ocultas.
5. Diabólico, do grego diabállein, significa o que separa, e a separação diabólica não se confunde com a do Absoluto-Separado de Heráclito, Platão e Plotino, cujo limite é também limiar pelo qual se pode aceder ao Separado e do qual o Absoluto se derrama sem perder sua Excessividade pelos degraus inferiores da realidade, pois a separação diabólica atua inteiramente do lado de cá do horizonte, sem a comunicação transbordante do Pleroma.
6. A separação diabólica caminha em sentido contrário ao da separação divina, fechando o acesso à unidade, fragmentando tudo em coisas que só se relacionam pelo lado de fora, como criação negativa do espírito que sempre nega, distinta da negação neoplatônica do Princípio, e a única unidade que se lhe opõe é a falsa unidade fabril do homo faber, que, do produtor de bens de consumo ao fabricante de conceitos, permanece no patamar inferior da escalada humana rumo ao não-só-humano.
7. Nada se faz com amor, pois o ódio ou a indiferença impera nas coisas que os homens são, e o coisificado é resíduo da degenerescência diabólica do que resta de divino no homem e no mundo, só percebido nos raros momentos de distração, justamente o que o Diabo compra ao exigir concentração pertinaz no construir premeditado, arremedo do criar, que disseca o cadáver de um deus, enquanto o distraído, desatento à morte, é distraído pelo amor.
8. Religião e Eros vão a par porque ambos ligam o que pretende existir separado, e a morte associada ao amor é dissolução dos limites da individuação coisística, que o servo da vontade e da razão toma por aniquilação e recusa por apego ao si mesmo, sendo o êxtase erótico-religioso perda de si para ganhar o ser que envolve os amantes, distinto do sexo, que pertence ao ter, de modo que a execração da concupiscência só tem razão enquanto repúdio do sexo que não se excede em Eros, sem que se vede ao comum dos homens o acesso ao êxtase descoisificante, sob pena de fazer do puritano o amigo do Supremo Amigo das Coisas.
9. No ápice do coisismo, rumo ao qual caminha a história, multiplicam-se as instituições, coisificação de anseios legítimos de justiça, amparo e direitos que morrem ao institucionalizar-se e se pervertem segundo a moral do ressentimento nietzschiana, pois a igualdade de direitos não implica igualdade dos homens e a institucionalização apenas releva sua desigualdade natural, sendo toda troca de instituições uma troca de elitismos e restando aos alienados, que se recusam a ser envolvidos por esse ideal, a indiferença diante delas.
10. Desde o Gênesis o Diabo é o primeiro e maior dos críticos, pois crítica e crise derivam de krínein, separar, e sua crítica instaurou, ao alvorecer do humano, a separação entre bem e mal, distinta da separação divina da luz e das trevas, que pertence à criação positiva de um cosmos nascido da contenção do Caos, enquanto a crise diabólica se dá já no mundo acontecido, levando os Elohim a dizer com ironia que o Homem se tornou um deles.
11. Amantes jamais se olham com olhos de crítico, e o amor, loucura erótica que Platão incluía entre as que elevam a obra humana, é clarividente e transfigura o amado, de modo que diante do belo, desocultação momentânea do Ser num ente, é preciso entregar-se sem condições, pois as muralhas que a crítica analítica imagina ao seu redor são produtos fantasmagóricos dela mesma, destrutiva ainda quando se pretende construtiva, enquanto o poeta pouco faz além de imitar em palavras, sons, cores e volumes uma Fulguração do Ser, sendo o artista não a maior eficiência, mas a menor resistência à passagem de uma luz alheia.
12. O Diabo, grande crítico, ocultou-se atrás de Kant, cuja primeira Crítica criou o mundo objetivo, também subjetivo por não haver objeto sem sujeito, num sol gnosiológico da meia-noite feito de formas vazias, mas, num desentendimento intencional do kantismo, o sujeito lança à Realidade perguntas talvez por ela sugeridas e recebe nos mesmos termos o objeto como resposta, sendo o sujeito próximo da personalidade ou personagem e não do eu, de modo que há sujeito e sujeito e, portanto, objeto e objeto.
13. Sujeito e objetividade figuram-se como círculos concêntricos de raios variáveis, e à medida que a subjetividade se objetiva o círculo subjetivo diminui e o objetivo se dilata, até o limite em que ambos se concentram num ponto, a subjetividade irredutível, condição prévia de toda objetivação, no qual objetividade e Realidade coincidem por nada mais se interpor entre o eu e o Real, escapando-se assim ao Diabo, que é o homem-humano, e à separação kantiana entre objetividade cognoscível e Realidade inacessível.
14. Também o homem sofre metamorfoses, sendo ao menos uma a que separa o adulto da criança que foi, e o chamado desenvolvimento, que deveria desencobrir e tornar a criança mais criança, converte-se na educação entendida como condução da criança para fora de si, destruição da criança para reconstruí-la como adulto, num Mundo que pertence a quem trabalha fazendo coisas e não a quem joga com coisas que, pelo jogo, deixam de sê-lo.
15. O lúdico atravessa toda a vida, mas é mais essencial à criança, enquanto o trabalho, afazer sem gosto de fazer, envolve o adulto por obrigação ou dever e frequentemente contraria o que a vida pede, e o Diabo insinua que o trabalho dignifica, orientando a educação para formar cedo adultos amantes do trabalho como meio de ascensão social, ponto em que o trabalho sai do jogo e se torna escravidão, nivelando-se o trabalho afeiçoado ao não afeiçoado, com instituições de assistência e previdência que não querem saber de providência.
16. As instituições não sabem o que fazer com os sem aptidão, com o contemplativo e com os marginalizados que recusaram vender a alma, e o trabalho serve ao desenvolvimento, que se enreda no círculo entre progresso tecnológico e explosão demográfica, impossível de deter sem catástrofe, numa tragédia transferida da poesia antiga para a vida prosaica, em que o Diabo, como os deuses que enlouqueciam os heróis, estreita a disponibilidade humana, encerrando os homens numa caverna onde as coisas dispõem deles, o crítico interpõe o si mesmo entre si e a arte, a educação demole as virtualidades da criança e o trabalho crucifica o ócio criador, sendo o Diabo o Inimigo da Disponibilidade, princípio da irresignação humana diante de todo limite e da passagem da Objetividade à Realidade.
17. A disponibilidade plena não é vazio absoluto, mas sentida ausência de todas as presenças possíveis, enquanto a indisponibilidade que satisfaz o Diabo é presença feita da negação de qualquer ausência na personalidade-sujeito, levando o homem a julgar-se senhor de si quando é escravo do si mesmo, cheio de um si que é na verdade vazio de tudo, de modo que reconhecer esse vazio converteria a indisponibilidade em abertura, situando-se a disponibilidade não do lado do cobiçoso de coisas, mas do aberto à possessão pelos deuses.
18. A disponibilidade humana, abertura infinita ao que o homem tende a ser sem nunca vir a ser, faz dele imagem do Caótico Incontido, e o Diabo, não como princípio maniqueísta do mal, mas como Grande Pastor da Negação, apresenta-se bifronte, com uma face de instabilidade no desenvolvimento e outra de contenção e estabilidade como Grande Mantenedor da Lei e da Ordem, encarnada na justiça cega do summum jus que é suma injúria, aplicada a coisas que devem permanecer iguais para que o Mundo seja sempre o que veio a ser, residindo o diabólico nesse sempre que desemboca na estagnação da morte, ambiguidade já presente na institucionalização como imobilização de anseios.