SOUSA, Eudoro de. Mitologia: História e mito. Organização de Joaquim Domingues. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004.
TRANS-OBJETIVIDADE E MEDIAÇÃO
43. Diabólico e simbólico sugerem bem o que ocorre na passagem de um horizonte a outro, mas a complementaridade descreve melhor o que os une ao Além-Horizonte Extremo sem tocar o Separado, pois toda dualidade aquém do horizonte coincide no vértice do triângulo situado além dele, e, retomando o fragmento 30 de Heráclito, fogo e mundo podem compor o único Macrossímbolo, coisa acrescida de seu ser-origem, do qual os demais símbolos, nascidos das unidades de contrários, são repetições verídicas, acessíveis apenas aos que vivem na Grande Vigília e em disponibilidade irrestrita, já que aquém desse horizonte nada se opõe a nada e não há sequer arremedo de complementaridade, de modo que todos os caminhos conduzem ao Purgatório trans-objetivo, que despe as coisas de suas envolturas coisificantes.
44. O drama continua indispensável como instituidor do segundo grau da atividade gnósica, pois a natureza do símbolo só se esclarece para quem viveu o drama simbolizante, cuja fonte mais comum é o Eros, mesmo em seus mistérios menores, e também a experiência litúrgica, como a da Igreja Católica Romana, preferida pela importância que atribui ao culto praticado pelo homem inteiro, comprometendo alma e corpo e reconhecendo que o conhecimento não se desenraíza da carne, já que ninguém chega ao sobrenatural sem estação no natural e o homem não é composto de espírito e matéria, mas o que se decompõe em matéria e espírito.
45. Embora o corpo morto se degrade como o de qualquer animal e o homem comece a morrer ao nascer, a crença na imortalidade, núcleo de todas as religiões, não é cega, pois vê que a morte está no tempo e no espaço comuns e que a imortalidade, divindade no homem, consiste em as portas da vida e da morte se desprenderem do tempo para se abrirem na trans-objetividade, com suas dimensões indimensionais de Lonjura e Outrora, onde o homem é símbolo e seu ser-origem não pode acabar, sendo imortal apenas quem, sem método, transpõe em vida o limite-limiar do mundo em que a alma está à venda por coisas.
46. O drama ritual é simbolizante, mas tudo facilmente escorrega da superfície da trans-objetividade e se degrada de novo em fragmentos aquém do horizonte da objetividade, pois a vida comum exige concentração nas coisas, comodidade e estabilidade que permitem esquecer a morte, e só a distração eleva acima delas, de modo que quem já provou a trans-objetividade, ciente de como se desgarrou, deve retomar seu papel no drama metamorfoseante segurando-se à balaustrada do horizonte além dela, limiar do Absoluto no qual já está de algum modo instalado quem recebeu o dom de ultrapassar horizontes.
47. Se a coisa é objeto do sujeito aquém do horizonte da objetividade, o símbolo, como coisa elevada à trans-objetividade, só pode ter por sujeito algo que não é esse sujeito, sendo possível tanto que além do objetivo deixe de haver sujeito e objeto quanto que ainda haja objetos de outro sujeito, alternativa que se harmoniza ao entender trans-objetivo como relativo ao patamar inferior, excluindo-se apenas o objeto-coisa e o sujeito-coisa, de modo que os símbolos ainda seriam objetos, mas não do homem humano.
48. A fórmula atribuída a Hegel, segundo a qual Deus é Sujeito, serve para sugerir que Deus é sujeito da Realidade inteira, o Ultra-Ser de Álvaro de Campos, o que concerne ao terceiro horizonte, enquanto no segundo, o da trans-objetividade, a pergunta é pelo autor do libreto do drama em que as coisas emergem como objetos simbólicos, o que desperta certa nostalgia dos deuses pagãos, autores de múltiplas diacosmeses, cada uma afeiçoada ao deus que lhe traçava a intriga, no jogo ritual em que os homens são jogados e deixam de estar sujeitos a ser sujeitos de coisas ou de símbolos.
49. O trans-sujeito exigido pelo trans-objetivo não se obtém pela superação das características do homem humano, mas apela para a trans-humanidade dos Acólitos do Ser, que vivem na sujeição de ser sujeitos do drama em que mundos e homens se acrescem de seu ser-origem, perdendo o homem humano, na passagem, toda iniciativa de objetivação e tornando-se desumano, não no sentido ético, mas no sentido de Alberto Caeiro ao recusar sentimentalizar a natureza, como natural metamorfose do homem a caminho da divindade.
50. No símbolo, homem e mundo são cojogados pelo arremesso da divindade promotora de sua diacosmese, sem que um faça o outro, mas afeiçoados a ponto de o homem ser o lado de dentro do mundo e o mundo o lado de fora do homem, e a morte se torna êxtase cósmico de formas tão diversas quanto os deuses que a autorizam, embora nenhum deus seja Deus nem o trans-objetivo seja a Realidade Absoluta, de modo que a passagem ao trans-objetivo apenas dá ciência e consciência do objetivo, restando saber o que se ganha ao passar ao horizonte da Realidade, à beira do Grande Abismo do Horizonte Extremo, onde só ocorrem os versos de Álvaro de Campos.
51. Os versos de Álvaro de Campos exprimem o pavor diante do mistério de haver ser, do abismo de existir um abismo e daquilo que está além dos deuses, de Deus e do destino e que faz que haja ser para que haja seres, perante o qual tudo o que os homens fazem se transforma numa coisa tremenda, vertigem da qual não se pode fugir, mas a que só se chega após percorrer a coroa circular da trans-objetividade, onde no ritual o homem perde toda iniciativa e se sente feito, sonhado e poetado por outrem, os deuses, sujeitos que fazem homens que já não são o Homem e mundos que já não são o Mundo, ao passo que o homem humano, para se supor autor do Mundo objetivo, precisou rejeitar a parte do símbolo que é o ser-origem das coisas.
52. O trans-objetivo é Purgatório por ser patamar entre dois limiares, apontando para baixo e para cima, com micro-símbolos maiores do que qualquer coisa, por conterem o deus que faz de duas coisas homem e mundo, mas menores do que o Macro-Símbolo, que reúne tudo o que existe aquém e sua origem além, entrevista como Ser-Um, sendo lugar de catarse que limpa os olhos das escamas das coisas fabricadas por encomenda diabólica, e a Humanitas que a Cultura ensinou a reverenciar fica para trás com a naturalidade distraída de uma metamorfose de inseto, num mundo de distraídos e excêntricos em que só a divindade ocupa o centro, como o Sacrificante que assume o papel do deus sacrificado, cuja morte transfere a vida a todo o mundo, natural ou sobrenatural.
53. O estar-entre do simbólico e o ser-entre da metamorfose espelham-se mutuamente, o primeiro entre a objetividade das coisas e a trans-objetividade fundante e o segundo entre a pessoa-sujeito e a subjetividade irredutível, reduzindo-se ambos a uma mesma translucidez atravessada pela luz de uma só Fulguração, pela qual no símbolo aparece o deus-origem através da coisa feita mundo e homem e na metamorfose aparece a disponibilidade através do homem indisponível, operando o drama ritual o milagre de sua interpenetração, de modo que a coisa se torna símbolo à medida que o homem humano se torna desumano, e vice-versa.
54. Na trans-objetividade decide-se a alternativa entre recair na objetividade diabólica ou transpor o limiar do Ser, do Absoluto-Secreto, do Ultra-Ser ou Ultra-Essência, perigo do qual não se pode fugir, como a borboleta atraída pela luz, sendo viver na trans-objetividade, como Platão disse da filosofia, iniciação para a morte, ambiência natural do religioso, do poeta e do filósofo, que convivem com símbolos até ver neles concreções do Macro-Símbolo, complementaridade do Mundo inteiro com sua Origem, sem a qual se cai no dualismo de um Mundo sem Deus ou de um Deus sem Mundo e não se alcança a humanidade transumana.
55. A trans-objetividade é a verdadeira escola, no sentido de lazer, em que distraídos e excêntricos aprendem que o Separado-Originário reúne os contrários na forma simbólica cujo sujeito são os deuses e iniciam-se, na Lonjura e no Outrora, no caminho rumo ao último limiar, sendo religião, poesia e filosofia formas de um mesmo gênero dramático cujo desfecho é a religação simbólica das coisas a seu ser-origem e cujo destino comum é a dupla morte e renascimento, primeiro do homem humano no transumano, nos mistérios menores, depois deste no divino da subjetividade irredutível, nos mistérios maiores, tudo o que parece absurdo ao positivista, negativista que encarna o Espírito que sempre nega, o Grande Separador, o Diabo.
56. O negativismo positivista sufoca a imaginação, alma do pensamento, cujas imagens são pontos de encontro de coisas afins que uma pseudo-realidade separou e que só nos sonhos convivem, e ao idiota, no sentido etimológico de singular ou no comum de louco manso, cabe recusar a realidade dos outros, já que a Realidade talvez seja o oposto da Objetividade e ele talvez já se encontre instalado na mais real das realidades, sem que isso seja elogio da loucura, pois o sair de si é dom divino segundo Platão, distinto da loucura voluntária e da extravagância, que é imbecilidade de quem não acha nem quer achar o caminho de casa, ao contrário de Ulisses, cuja nostalgia permitiu que a Odisseia chegasse ao fim.
57. Os símbolos, homem e mundo acrescidos do deus que é seu ser-origem, estão na trans-objetividade como sinais significativos que convidam a passar ao primeiro horizonte da Realidade, numa metamorfose talvez derradeira, depois daquela em que o homem se despiu da condição de sujeito do mundo objetivo, sabendo agora que não fez os símbolos nem poderia fazê-los, pois seu sujeito é um deus, pontífice que constrói a ponte que o homem, metamorfoseado e distraído, atravessará rumo ao Ser, inacessível à razão voluntariosa, de modo que a trans-objetividade é mediação, cujos nomes conhecidos são Religião, Arte e Filosofia.
58. Religião, Arte e Filosofia designam propriamente a Mediação, embora isso se perca quando delas se veem apenas as projeções no mundo objetivo, rebaixamento que é reação diabólica do negativismo positivista à transcensão simbólica, e, movendo-se em ronda de mãos dadas no circuito da trans-objetividade, entre símbolos e deuses, na Lonjura e no Outrora, ocupam ciclicamente o lugar umas das outras, até que, acelerada a dança, se esbatem seus contornos e já não se distinguem, talvez porque sejam todas o mesmo em relação à unidade que excede o limite do trans-objetivo, limiar do Ser, do Ultra-Ser, do Absoluto-Secreto ou de Deus.