3 Cosmofonia

SOUSA, Eudoro de. Mitologia: História e mito. Organização de Joaquim Domingues. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004.

MITOLOGIA COMO COSMOFANIA

89. A trans-objetividade é o lugar da Mediação, e o oculto reinar dos deuses poderia levar à resignação diante da ocultação do Ser de Deus, mas é próprio do homem jamais resignar-se e ver limiares onde há limites, sendo a transposição do Horizonte Extremo aquilo de que falam todas as religiões, não pela morte-término, que deixa diante de um limite sem limiar, mas pela morte-momento da vida, própria das iniciações e mistérios, linguagem que Platão transferiu à filosofia e que o cristianismo, sobretudo na Igreja Romana, conserva no sacramental, onde não há coisas, mas símbolos, e onde o drama ritual, exorcismo da objetividade diabólica, é jogo litúrgico sem competição, no qual o homem aposta todas as coisas, inclusive a coisa que é, e ganha se consegue assemelhar-se ao Deus ou imitá-lo nos lances do jogo primordial.

90. Na trans-objetividade todos os objetos se transmutam em micro-símbolos, transmutação visível apenas para quem passou por uma metamorfose e atravessou em vida os umbrais da morte, e somente os que a atravessaram formam verdadeira comunidade, cujo bem comum é um símbolo ou uma convergência de símbolos, ao passo que as coisas só dispersam e os que fazem vivem solitários entre solitários, convergindo os símbolos no Macro-Símbolo, mundo-coisa acrescido de seu ser-origem, transparência da Originalidade do mundo, de modo que quem vê seu mundo como símbolo transpôs o limiar da Realidade por ver através dele sua Origem.

91. A tese da complementaridade de 1975 subsiste na atual, desde que haja um horizonte além do qual coincidam termos inidentificáveis sem mediação, pois todo símbolo reproduz o Macro-Símbolo, em que homem e mundo coincidem numa mensagem da Divindade convertida em aceno de um deus mensageiro, retornando o triângulo da complementaridade, visto da base, e do simbólico, visto do vértice, com o originado, sua origem e a Originalidade de todas as origens, e acrescentando-se agora dois horizontes concêntricos, o da objetividade, cujo centro é o Homem sujeito-objetivante num mundo de coisas iguais, e o da trans-objetividade, cujo centro é um deus e do qual o homem é excêntrico, passando-se de um a outro pela distração, pela perda progressiva da opacidade das coisas e pela metamorfose simultânea de homem e mundo, em que o drama diabólico se torna simbólico e as coisas, translúcidas, deixam de ser coisas, pois os símbolos não são feitos pelos homens, mas surgem de uma vez pelo aceno criador de um deus, que também faz os homens.

93. Cada deus faz seu aceno para um mundo com seu homem, e nenhum é igual a outro, podendo o horizonte da trans-objetividade ser limiar de um plano sem limites, percebido apenas por quem, por nova metamorfose, vendo o deus acenante e o homem-mundo acenado, procura o terceiro, fechando o triângulo na Divindade que expede seus mensageiros, de modo que o aprendizado do simbólico é propedêutica para a visão do Real e a trans-objetividade é a ponte entre o mundo construído pelos homens e o lugar do Criador dos mundos que as criaturas não podem criar.

94. As tentativas de unificar o saber científico e técnico, correlacionando as disciplinas que estudam o universo físico, não conseguem soldar as junturas entre inorgânico, orgânico, psíquico e noético, de modo que nem a existência de um universo físico, e menos ainda a de um universo humano, está fora de questão, crescendo na objetividade o número de especializações, cada qual feita da ignorância das outras e incapaz de ir das partes ao todo, talvez porque o Todo das coisas-objetos esteja muito além da objetividade.

95. Como projeto a realizar, retomam-se as noções de teocriptia, ontofania, teofania e ontocriptia ligadas ao oculto reinar dos deuses, sem atribuí-las a Heidegger, pois, se o aceno de cada deus diacosmiza a mensagem do Deus, resta compreender o que é esse reinar e o que nele se oculta, segundo uma ideia há muito mantida, apesar de não haver razões que a sustentem, fundada numa interpretação do fragmento 30 de Heráclito e na concepção, firmada pela história e pela antropologia de Jensen, Otto, Kerényi e Frazer, de que a morte de um deus é vida de um mundo.

96. O fragmento 30 de Heráclito afirma que o cosmos, o mesmo para todos, não foi feito por deus nem por homem, mas sempre foi, é e será Fogo sempre vivo que se acende e apaga com medida, o que levanta a dificuldade de conciliar o continuamente vivo com a alternância de extinção e acendimento, devendo-se notar que esse cosmos não é o Mundo da objetividade, mas o arranjo dos entes visto na Grande Vigília, e que, à luz do fragmento 31 e de suas viragens do Fogo, não se trata de identidade entre Fogo e Mundo, mas de coincidência de opostos.

97. O Fogo vira Mundo ao apagar-se, e nenhum deus fez o mundo, porque o cosmos não é coisa feita, mas surge vivo da viragem do Fogo, como corpo vivo de um deus morto, o que se confirma pelo fragmento 62, sobre imortais mortais e mortais imortais que vivem a morte uns dos outros, pelo fragmento 67, sobre o Deus que muda como fogo misturado a aromas, e pelo fragmento 26, que descreve a antropogonia como inversão da cosmogonia até o retorno ao puro Fogo, concluindo-se que cosmofania é teocriptia e cosmocriptia é teofania, sendo o oculto reinar de um deus sua morte feita vida do mundo que acenou, já que em Heráclito morte é a viragem de cada posto em seu oposto.

98. O pensamento de Heráclito repensa o que há de misterioso nos mistérios pagãos e nos dramas rituais de culturas sobreviventes, que representam pelo deicídio primordial, na Lonjura e no Outrora, a origem do mundo que vive da morte de um deus, regra da qual não se excetua o cristianismo, apesar de a Cultura atual tentar fazer esquecer o mysterium fidei e reduzir Cristo a operário-padrão, pois a morte de Cristo é vida de um mundo sobrenatural, revelado como seu oculto reinar, de modo que a cosmofania teocríptica possui a mais do que qualquer outra o conter o reino oculto do deus, sendo o lado de fora do lado de dentro em que ele se oculta.

99. Se a cosmofania é teocriptia, o mito, tido como gesta dos deuses, não relata o aparecimento dos deuses no mundo, mas seu desaparecimento no aparecimento do mundo que acenaram, conclusão paradoxal que se contorna considerando que o mito autêntico é relato da origem do originado, enredo do drama ritual originário que remete o aqui e agora à Lonjura e ao Outrora da origem, e que, como a origem não tem história, o mito é relato da cosmofania teocríptica, falando do mundo assim disposto e não do deus que o dispôs, não como história dos deuses, mas do que eles fizeram em cada diacosmese.

100. Sendo o deus origem sem história e o mito enredo do drama ritual da origem, o drama ritual por excelência é o Sacrifício, não como fazer sagrado, mas como morte do deus que, morrendo, oferece sua vida ao mundo, de modo que a teocriptia está no sacrifício e o deus reina ocultamente como Morte que condiciona a Vida cósmica, sendo o mito o relato de como, no Outrora que é alma da Lonjura, foi tirada a vida de um deus que aceitou sua morte e de como essa morte está no centro da vida do mundo, podendo a cosmofania ser mito porque a vida do mundo originado é a da própria origem, e tudo o que no mundo acontece são as malhas tecidas pelo deus.