2 Culto dos Mortos

SOUSA, Eudoro de. Catábases: estudos sobre viagens aos infernos na antiguidade. São Paulo: Annablume, 2013.

1. O estudo das catábases clássicas, literárias ou não, encontra seus principais núcleos de condensação de problemas em cinco pontos de referência: o culto dos mortos, as religiões de mistério, o pitagorismo e a palingenesia, Orfeu e o orfismo, e a escatologia e a gnoseologia platônicas.

2. Todos os símbolos, mitos religiosos, conceitos e doutrinas filosóficas agrupados em torno desses pontos compõem, em maior ou menor proporção, o solo fecundíssimo em que nasceu e se desenvolveu a poesia dos infernos, razão pela qual convém examiná-los um a um, sem perder de vista que poderão ser reencontrados depois na periferia de um círculo cujo centro seja a única e verdadeira origem de todas essas representações.

I

1. Sendo os infernos reinos das almas, a questão primordial consiste em averiguar o que sejam as almas, problema para cuja solução, no âmbito do Mundo Antigo, concorrem a etnologia, ao determinar as ideias de sobrevivência entre povos à margem das grandes civilizações, a arqueologia, ao sondar os substratos pré-históricos e proto-históricos, e a filologia, ao reunir e interpretar a documentação histórica tradicional.

2. A arqueologia e a filologia clássicas se completam harmoniosamente, ligando o passado mais remoto da Grécia, de Roma e das civilizações vizinhas, conhecido apenas como um livro de imagens sem texto, às épocas mais recentes, em que os textos são amplamente ilustrados por imagens elucidativas.

3. O papel da etnologia mostrou-se menos evidente, pois filólogos e arqueólogos da escola histórica resistiram por muito tempo à comparação entre a refinada literatura greco-latina e o material do folclore europeu e da etnografia marginal, resistência que só cessou quando se percebeu a correspondência entre os estratos sucessivos do tempo, revelados pela arqueologia, e as áreas contíguas do espaço, reveladas pela etnologia, de modo que ideias gregas sobre a sobrevivência e um longínquo reino das almas poderiam assemelhar-se às de certas regiões da Austrália, da África e da Indonésia.

4. A verificação de tais semelhanças ultrapassa a mera curiosidade científica, já que o arqueólogo que precisa definir uma cultura recém-exumada apenas por seus elementos materiais dificilmente a interpretaria sem o confronto com culturas etnológicas de economia e indústria análogas, sendo essa comparação não só permissível como imprescindível, como demonstram as obras de Nilsson, Mannhardt, Frazer, o léxico mitológico de Roscher e as publicações fundadas por Dieterich.

5. A tese de Wilamowitz, defendida ainda por volta de 1930, de uma absoluta originalidade da civilização clássica, que deveria ser interpretada apenas por si mesma, revelou-se insustentável, tanto porque a originalidade da mensagem helênica e romana jamais foi ameaçada pelo esclarecimento de seu ambiente de origem, quanto porque em nenhuma época ocorre substituição completa de ideias velhas por novas, persistindo tradições e inovações lado a lado, sem eliminação de incoerências e contradições.

6. O fenômeno cultural que mais eloquentemente atesta essa coexistência de antecedentes e consequentes é a aglomeração de crenças heterogêneas e homogêneas acerca da imortalidade, bem documentada na Grécia pelo menos a partir do século VI a.C.

7. Embora na estratigrafia horizontal da etnologia as formas de sobrevivência na sepultura, no céu e nos infernos possam aparecer separadas, ainda que como tendências incompletas, um comentador de Virgílio reconhece sua reunião ao dividir o homem em três partes: a alma que sobe ao céu, a sombra que desce aos infernos e o corpo entregue à sepultura.

8. A forma de sobrevivência mais remotamente documentada pela arqueologia, atestada também pelos epitáfios das estelas tumulares e pelos costumes funerários, pouco modificados até hoje, é a de uma vida após a morte inteiramente passada no próprio local de sepultamento e sujeita às mesmas vicissitudes da existência comum, o que contradiz a ideia de que o corpo seja apenas cadáver apartado de um princípio vital.

9. Entre as populações remanescentes situadas no círculo cultural dos caçadores primitivos, sobrevivem vestígios da crença numa alma de vida, substância anímica que, no momento da morte, se liberta do corpo para reintroduzir-se em outro ser humano ou animal, ou então regressar ao céu, morada do princípio divino de onde se originou.

10. Característica do círculo cultural dos plantadores primitivos é a concepção de uma alma do morto, sombra ou imagem que é o próprio indivíduo apenas esvaziado da materialidade corporal, surgida no instante da morte para empreender a difícil viagem ao Além.

11. Adolf Jensen, em Mito e Culto entre os Povos Naturais, de 1950, formulou com a maior clareza a diferença entre essas duas concepções de sobrevivência, a da alma de vida e a da alma do morto.

12. A investigação do papel da alma nas ideias acerca da existência após a morte revela, na variedade dos relatos etnológicos, dois círculos de representações, cada qual refletindo um conceito fundamental inteiramente diverso do outro.

13. As representações do Reino dos Mortos possuem unidade, pois as narrativas de viagens a esse reino mostram que é o homem inteiro, embora sem o corpo terrestre, que empreende a jornada, de modo que essa alma não é propriamente uma parte, mas todo o homem, ao passo que outros testemunhos falam de fato de uma alma que se separa do indivíduo por ocasião da morte.

14. Kruijt, contrariando a teoria de Tylor, demonstrou que entre muitos povos da Indonésia a substância anímica, força vital do homem, não se identifica com o espírito do morto, que só aparece após a morte, e que a alma de vida tem destino próprio, regressando ao céu e à divindade de onde proveio no nascimento ou permanecendo junto à sepultura, muitas vezes sob forma de pássaro, para reingressar num recém-nascido ou animal e recomeçar outra existência, ideia de dualismo psicofísico que dispensa por completo a representação de um Reino dos Mortos.

15. Em oposição à alma de vida, a concepção monística da alma do morto, difundida sobretudo entre os plantadores primitivos, entende o homem como unidade físico-espiritual derivada da divindade por descendência biológica, e a esse círculo pertenceria primariamente a ideia de um Reino dos Mortos onde o indivíduo prossegue sua existência pessoal.

16. Desde as épocas mais remotas coexistem duas concepções da vida, uma dualística, que situa as entidades espirituais paralelamente às materiais, e outra que concebe a vida como unidade e descobre o milagre divino nos próprios processos biológicos, sendo comum a ambas a ideia de que o homem é inconcebível sem a divindade, da qual recebe a alma, segundo a primeira, ou descende diretamente, segundo a segunda.

17. O dualismo psicofísico originou a representação de uma substância anímica especial que prescinde do Reino dos Mortos, próprio da concepção monística, mas o contato entre os dois círculos fez surgir a ideia de que uma alma de vida regressa à divindade após a morte, enquanto outra alma, o espírito do morto, empreende a jornada rumo ao Reino dos Mortos.