3 Mistérios I

SOUSA, Eudoro de. Catábases: estudos sobre viagens aos infernos na antiguidade. São Paulo: Annablume, 2013.

Cultos de “Mistério”

I. O Problema da Mitologia

1. Coloca-se a questão de saber se, na Grécia Clássica, a concepção de uma alma, sombra ou imagem do corpo, surgida apenas no instante da morte para logo seguir rumo ao Hades, constitui um traço cultural pré-histórico isolado de seu contexto original, ou se outras concepções, oriundas do mesmo estrato antiquíssimo, se apresentam igualmente associadas a essa representação na área etnológica dos plantadores primitivos.

2. A resposta inclina-se para a segunda alternativa, seguindo uma sugestão dos próprios gregos, que pareciam perceber essa relação, conforme se depreende das notícias que circulavam acerca da iniciação de Héracles.

3. Segundo Diodoro da Sicília e outros escritores antigos, Héracles, antes de descer aos infernos para trazer Cérbero, o monstro de três cabeças que guardava sua entrada, julgou conveniente iniciar-se nos Mistérios de Elêusis, iniciação que o prevenia do maior risco da empresa, o de terminar a jornada como terminam todos os mortais, restando averiguar de que modo a participação nos mistérios de Deméter e Perséfone lhe abriu o caminho vedado do regresso.

4. A relação entre mistérios e infernos, atestada por uma história que Diodoro certamente não inventou, obriga a reformular um dos problemas mais interessantes e difíceis que se erguem no caminho da redescoberta do Mundo Antigo: o problema da mitologia.

5. Antes de se tornar tema literário ou artístico, e em certa medida mesmo quando já o é na Grécia e em Roma, toda catábase é sobretudo um mito, isto é, uma história peculiar contada acerca dos deuses, semideuses, heróis e habitantes do Hades, e o caráter problemático da mitologia reside em já não se ter hoje sequer uma ideia vaga do valor dessas histórias.

6. Surpreende que nem os gregos das épocas históricas atribuíssem veracidade à mitologia tradicional, embora a quase totalidade de sua epopeia, lírica coral, tragédia, cerâmica, escultura e moedas a reproduzisse com luxuriante variedade, pois, educados num pensamento que oscila entre realidade e aparência, erro e verdade, situaram-na inteiramente do lado do erro, num longo cortejo filosófico que, entre os séculos VI e IV a.C., vai de Xenófanes a Platão, opondo a mentira do mythos à verdade do logos.

7. Nessa atitude mental, o expediente consiste em eliminar o erro atribuído à imaginação mitopoética pela verdade do pensamento lógico-discursivo, sendo a alegoria, que transfere a significação das imagens para as ideias, o termo natural desse processo, cujos princípios, atribuídos a Teágenes de Régio, permaneceram inalterados do século VI a.C. ao fim do século XVIII, até que a obra de C. O. Müller anunciasse uma mudança provocada pelas tendências do Romantismo, culminantes nas preleções de Schelling e enraizadas na filosofia da natureza e na primeira teorização do inconsciente, de Schubert e Carus.

8. Papel idêntico desempenham hoje os epígonos da filosofia romântica da natureza, como Klages, Bergson, Scheler e Jung, cuja principal analogia é a teoria do inconsciente, isto é, a redescoberta do contraste entre a paixão da noite e a norma do dia, entre o contínuo da imaginação onírica e o descontínuo da consciência vigilante, que pela segunda vez permite evocar a veracidade da mitologia, ocultada por mais de vinte séculos sob a exegese de alegoristas e simbolistas, de Pródico a Creuzer.

9. Psicólogo e mitólogo enfrentam as mesmas dificuldades quando se lhes pede uma definição exata ou uma informação breve e unívoca, pois só a própria imagem, apresentada em seu contexto habitual, é intuitiva, clara e inequívoca.

10. Na forma em que se apresenta, a imagem revela por si mesma aquilo que contém.

11. Quando se tenta abstrair da imagem sua essência, ela se obscurece e se dissolve em névoa, razão pela qual sua função só se compreende se mantida em sua complexidade de ser vivo, e não analisada cientificamente como cadáver ou historicamente como ruína arqueológica.

12. Tais palavras atestam a mudança de atitude perante a mitologia, mas, à luz da história do problema, cabe perguntar o que se ganha ao passar de um extremo a outro, afirmando agora que a verdade reside na imagem, e não no conceito.

13. Seria ocioso abolir os resultados de mais de vinte séculos de interpretação da mitologia grega trocando simplesmente uns princípios exegéticos por seus contrários, de modo que convém buscar nas palavras de Jung um sentido menos evidente, adotando como hipótese de trabalho que perspectivas mais verídicas se abrem justamente onde se afirma que a imagem se desvanece quando se procura sua essência.

14. Desse ponto descortina-se a experiência comum da leitura dos poetas, pois interpretar poesia e interpretar mitologia impõem os mesmos problemas quando forma e conteúdo são considerados separadamente, e, mesmo sabendo que ambos brotam da mesma fonte de inspiração, a estrutura da inteligência obriga a atentar ora para a forma, ora para o conteúdo, fazendo desvanecer-se alternadamente os aspectos formais ou materiais da obra.

15. A contagem de sílabas, acentos, quantidades, metros e estrofes está para a poesia como a análise químico-física está para a vida, a recuperação de monumentos para a compreensão das culturas passadas e as reações fisiológicas e comportamentais para a psique, e cada procedimento produz uma única das duas objetivações possíveis da realidade, pois duas atitudes gnoseológicas diversas obtêm do real, sucessiva ou alternadamente, respostas que constituem duas ordens complementares de objetividade.

16. Se essa visão for correta, uma interpretação clássica e uma interpretação romântica dos mitos gregos não se excluem como contraditórias, assim como na física moderna não se excluem os observáveis que operatoriamente se definem ora como partículas, ora como ondas.

17. Complementares ou contraditórias, é certo que historicamente chegou o momento em que uma visão racional, expressa por conceitos logicamente relacionados, começou a ocupar o lugar de uma visão mítica, expressa por imagens entrelaçadas por conexões tão íntimas que mal alcançavam o limiar da consciência.

18. A passagem entre essas duas épocas, resumida em fórmulas correntes como a do mito ao logos, ganha relevo ao inverter-se o aforismo de Bacon e transpô-lo do quantitativo ao qualitativo, conforme sugere Uexküll, pois, sem negar que mais saber gera mais poder e que mais poder técnico amplia o saber, revela-se mais sugestivo que os diversos dramas representados pelo homem no seio da realidade arrancam dela o que há de objetivo nos diversos estilos de cultura, erguendo eles próprios os cenários em que se desenrolam.

19. A mitologia é a poética de um dos dois grandes gêneros de dramas que se representam na história como culturas de determinado estilo, aquele cujas personagens são deuses, semideuses, heróis e habitantes do Hades, enquanto a ciência é a poética do outro, de modo que não existe caminho do mito ao logos, nem relação positivista entre idades sucessivas da mesma razão, mas no máximo complementaridade, pois nem a mitologia é ciência rudimentar, nem a ciência é mitologia que trocou imagens por conceitos, e o amor aos mitos não equivale, de modo algum, ao amor à sabedoria.

20. A aparente contradição histórica desse princípio decorre de alguns autores do drama científico, iniciado na Grécia do século VI a.C., não terem percebido que as personagens do mito, entradas em cena pela porta da alegoria, já haviam trocado de máscara, pois as figuras moldadas por Homero e Hesíodo eram produto de uma interpretação grega, que atendia a exigências de unidade dramática, mas não a ponto de calar os protestos justificados de Xenófanes, Heráclito e Platão contra o engano de fazer crer que as histórias dos grandes épicos ainda fossem mitologia.

21. Daí decorre a pergunta se seria preciso negar o caráter mitológico de todo tema ou variante da epopeia, da lírica, da tragédia e da plástica, chegando à conclusão de que, em verdade, não existe mitologia grega.

22. Tal afirmação perde seu aspecto absurdo ou paradoxal quando se considera que o estilo de uma cultura é dado pelo conjunto de características dominantes que a distinguem das demais, que o estilo próprio da cultura grega consistiu em criar e desenvolver os germes do pensamento racional, que esse pensamento se afirmou pela negação da verdade dos mitos e que uma cultura erguida sobre tal negação tenderia necessariamente a abster-se de criar novos mitos.

23. Do ponto de vista histórico-cultural, aquilo que vulgarmente passa por mitologia grega não é senão uma interpretação grega do mito pré-helênico, isto é, um conjunto de emergências de substratos egeo-asiânicos e de adstratos orientais apenas parcialmente assimilados, pela poesia e pela plástica, pela cultura indo-europeia que lhes sobreveio, parcialidade que encerra fatores importantíssimos para a investigação.

24. A própria parcialidade da assimilação e a incompletude da interpretação denunciam o fato de terem ocorrido, pois um mito pré-helênico ou oriental totalmente assimilado e interpretado jamais se distinguiria dos demais fenômenos culturais de origem grega.

25. A forma da assimilação ou da interpretação pode fornecer indícios da época em que se efetuou ou da estratificação histórica de assimilações e interpretações sucessivas.

26. Frequentemente, a partir dos resíduos de assimilação parcial ou de interpretação incompleta, torna-se possível reconstituir o todo, composto do assimilado e do inassimilável, do interpretado e do ininterpretável.

27. Esses princípios gerais de investigação arqueológica devem aguardar o momento de sua aplicação à análise das catábases clássicas, importando por ora indagar as consequências da origem pré-helênica da mitologia grega.

28. A análise morfológica e comparada das culturas, sobretudo em seus aspectos religiosos, estabelece que as culturas em que o mito ainda é elemento essencial e irredutível são as dos plantadores primitivos, nas quais só se conhecem os deuses pela participação no drama que os representa aos homens, distinguindo-se seu sacrifício dos demais por três diferenças: não invoca os deuses, mas é sua própria presença, já que repete o deicídio primordial de que nasceu o mundo; não pressupõe uma teologia separada do culto, sendo o drama ritual a única objetivação da natureza divina; e tem em si mesmo sua razão de ser, pois a vítima oferecida é a própria divindade.

29. Por via etnológica retorna-se ao drama mediante o qual se objetiva a realidade, pois, em maior grau entre os plantadores primitivos e em menor grau nos estratos pré-históricos e proto-históricos do Mediterrâneo, onde sobrevivem elementos dessa cultura graças ao caráter conservador da religião, o mito ainda não se separou do rito, e o drama ritual que os integra significa e é a presença da divindade, que só emerge do real como objeto pelo renovado desempenho desse drama por quem o representa.

30. Também a divindade desempenha aí um papel, e só por isso dela se pode contar um mito, que é justamente esse papel, ao passo que de um Deus que fez surgir o Mundo do Nada com um gesto ou uma palavra nenhum mito se pode contar, pois o ato criador não tem história, apenas a criatura a tem, razão pela qual a física ou a história natural pode ser desde o início inteiramente profana.

31. As considerações precedentes admitem um resumo em poucas palavras, destinado a fixar as ideias.

32. A civilização clássica apresenta duas ordens de conhecimento, uma racional e outra mítica, cujos conteúdos correspondem a duas atitudes diversas do sujeito perante o real, distinguidas pelos dramas que desempenham, e que se opõem não contraditória, mas complementarmente, como os aspectos contínuos e descontínuos da realidade subatômica, embora na história essa complementaridade se projete como sucessão, como se uma era racional absorvesse e substituísse a era mítica, quando na verdade o que se substitui não é o mito em sua originalidade perene, mas o mito já interpretado pela mente racional, interpretação da qual, e só da qual, consiste a mitologia grega.