TORRANO

Jaa Torrano

Resumo do ensaio publicado em ZELIA DE ALMEIDA CARDOSO (organizadora) — Mito, Religião e Sociedade. (Atas do II Congresso Nacional de Estudos Clássicos). São Paulo, SBEC, 1991, pp. 371-374.

As duas características mais notáveis comuns à tradição épica grega são o uso do verso hexâmetro e a invocação das Deusas Musas, feita no início do canto ou sempre que o canto exige extraordinário esforço de memória.

O primeiro aspecto da dupla finalidade da invocação inicial é a súplica de que as Musas comuniquem o desejo e a habilidade de cantar e de dançar, manifestando-se aos homens na forma sensível do canto e da dança.

O segundo aspecto da dupla finalidade da invocação é a garantia da verdade do canto, pois o objeto do canto ultrapassa a finitude humana — os desígnios e as ações dos Deuses e a vida e os feitos dos heróis que outrora conviveram com os Deuses.

Na Teogonia de Hesíodo, a invocação inicial das Musas desdobra-se num hino que abrange suas atividades habituais, sua primeira aparição a Hesíodo, sua filiação e nascimento, e a súplica com indicação dos temas pedidos ao aedo.

Os versos 22-34 da Teogonia, que narram a primeira aparição das Musas a Hesíodo, permitem exemplificar quatro características gerais do pensamento mítico e lêr, implícito neles, o conceito de mito cuja definição mínima é “a palavra com que os Deuses interpelam os homens e, interpelando-os, fundam todas as possibilidades que se abrem para os homens no mundo e sobretudo a de sermos homens no mundo”.

As características gerais do pensamento mítico ilustradas nos versos hesiódicos não se restringem à Grécia antiga, mas têm validade universal, manifestando-se aqui na singularidade da revelação divina peculiar à piedade helênica.

A primeira característica é a oralidade, que não é mera ignorância do uso da escrita, mas culto e cultivo da memória enquanto potência divina que outorga identidade espiritual à comunidade cultural e ao indivíduo.

A segunda característica é a concretitude, que consiste em pensar e dizer a totalidade do ser, a existência e os aspectos fundamentais do mundo recorrendo exclusivamente a imagens sensíveis.

A terceira característica é a importância dos nomes divinos, que nomeiam os aspectos fundamentais do mundo e insturam, na multiplicidade do sensível, uma distinção decisiva entre a ordem de realidade fundante e a ordem de realidade fundada.

A quarta característica é o nexo necessário entre verdade, conhecimento e existência, que supõe o conceito de mito como “a palavra com que os Deuses interpelam os homens e, interpelando-os, fundam as possibilidades que se abrem para os homens no mundo, sobretudo a de sermos homens no mundo”.