A continuidade entre fetichismo e naturismo e a adoração das pedras como manifestação empírica da potência
Não há abismo intransponível entre fetichismo e naturismo, o que se evidencia na adoração das pedras; qualquer pedra de forma ou dimensão incomum desperta a intuição da potência; Jacob, ao repousar a cabeça sobre uma pedra e sonhar, reconhece empiricamente a santidade do lugar e unge a pedra com óleo, rito etiológico que revela uma experiência vivida da presença do sagrado.
As tribos helenas, ao se estabelecerem na Grécia, colocaram no centro de seu território a pedra agyieus, adornada e coroada, destinada a proteger a colônia; de forma fálica, representava a potência fecundante, origem da hermé fálica e, por fim, da imagem do deus; em Israel, esse desenvolvimento foi contido pela repulsa ao antropomorfismo.
Em muitas partes do mundo subsiste o costume de lançar pedras sobre montes rituais à beira dos caminhos, prática que forma centros de potência, como nas pilhas de pedras dos antigos gregos ou nas “pedras de aldeia” das Índias Neerlandesas, que garantem saúde e força à comunidade, distinguindo-se entre pedras masculinas e femininas e servindo de local de entronização dos príncipes, às vezes consideradas de origem celeste.
As pedras ligam-se tanto à potência vegetal quanto às forças do céu, como nas pedras de raio, e o silex de Júpiter Ferétrio, guardado no Capitólio, desempenhava papel nos juramentos solenes, punindo o perjuro como o raio; outras pedras romanas, como os termini, protegiam fronteiras e limites, enquanto o lapis manalis evocava a chuva através de um encantamento mágico, ecoado em lendas medievais.
Os metais também possuem potencialidade, sendo considerados sexuados e sujeitos a uniões simbólicas; toda a alquimia repousa sobre tais concepções, segundo as quais os minerais seriam embriões imaturos que a metalurgia conduz à perfeição até tornarem-se ouro, ápice da maturação espiritual e material.
“Havia um leão vermelho, amante audaz, casado com o lírio em banho tépido, e ambos, chamas desdobradas, foram constrangidos de câmara em câmara nupcial.”
Quanto mais raro o metal, maior sua potência; o ouro, com a cor do sol, participa de sua força vivificante, razão pela qual gregos e egípcios o associavam à vida e à imortalidade, e as dádivas de ouro dos reis significavam concessão da própria vida; as maçãs de ouro das Hespérides e, mais tarde, as de Idun, simbolizavam a própria essência vital.