FRONTISI-DUCROUX, Françoise; VERNANT, Jean-Pierre. Dans l'œil du miroir. Paris: Éditions Odile Jacob, 1997. (Coleção “Le temps de la pensée”).
1. A concorrência entre espelho e roca nas imagens indica que os valores atribuídos pelos gregos ao espelho ultrapassam amplamente seus aspectos utilitários, e o disco que devolve às mulheres a imagem de sua beleza é muito menos frequente nos escritos do que nas pinturas, pois quando katoptron, esoptron, enoptron ou dioptron aparecem nos textos é sobretudo para evocar espelhos imateriais de filósofos, historiadores e poetas, metáforas e comparações que desenvolvem em domínios variados o motivo fundamental do “fazer ver”.
O tempo revelador
1. O tempo associa-se naturalmente ao espelho, convocado para refletir as devastações dos anos, e é ele mesmo pensado como espelho, como na Fedra de Eurípides, que, após confessar sua paixão e o medo da desonra, afirma que o tempo um dia revela os maus apresentando-lhes seu espelho como a uma moça, imagem que, embora geral, intervém numa situação feminina e erótica, pois a obrigação de fidelidade e a pressão do olhar alheio pesam muito mais sobre as mulheres, mas criada, encenada e interpretada por homens para um público talvez exclusivamente masculino, uma história de mulher vista pelo e para o olhar masculino.
2. A revelação operada pelo tempo é expressa por um composto do verbo brilhar, pondo a perversidade em plena luz, de modo que o espelho do tempo age como projetor que busca os perversos na obscuridade e os exibe não a si mesmos, como no face a face da moça com seu espelho, mas a um espectador coletivo, a opinião pública, concepção que ultrapassa a simples reflexividade, assim como nas imagens a mulher mais estende o espelho a outra do que se contempla, pois o espelho revela o que sem ele escaparia aos olhares e é o instrumento que torna visível, qualquer que seja seu objeto.
Os poderes do vinho
1. No plano moral, o vinho fornece outro espelho, o da alma, segundo Ésquilo, enquanto o bronze é o da beleza, e o da humanidade, segundo Alceu, espelho essencialmente masculino por ser consumido sobretudo no banquete entre cidadãos, e seu poder revelador, comparado por Teógnis ao fogo que prova o ouro e a prata, mostra o espírito de um homem, mesmo sensato, quando bebe sem medida até a vergonha.
2. Platão aconselha usar a virtude do vinho para provar sem risco o caráter alheio no simpósio, em vez de expor mulher e filhos a um homem violento ou escravo dos sentidos, mas vê no vinho algo mais que um instrumento de prova recíproca, pois no fim do Banquete o elogio exaltado de Alcibíades, que tira sua verdade do vinho, revela a beleza autêntica de Sócrates sob seus traços grotescos de Sileno.
3. O poder do vinho opera em dois níveis, rompendo as aparências e revelando o oculto pelas palavras libertas e pela violência dos sentimentos, levantando a máscara das convenções ao preço de uma inversão que mostra brutalidade e paixão sob a sabedoria aparente, e possuindo também uma virtude inspiradora que alcança na embriaguez a verdade do invisível, o espírito em Teógnis e a alma em Platão, contemplados então em sua beleza ou feiura.
4. O vinho ocupa lugar particular entre os espelhos figurados porque, como outros líquidos, oferece concretamente uma superfície refletora olhada de cima, como a taça de bronze que Sêneca considera protótipo do espelho, e em Atenas a sobreposição do rosto refletido e das imagens pintadas nos vasos de beber gera outros jogos de espelhos, com o bebedor pintado que devolve a imagem do real, o guerreiro moribundo, destino virtual de todo cidadão, ou a máscara da Górgona, figura da morte petrificante, a misturar-se ao reflexo do bebedor.
5. O termo dioptron de Alceu evoca um olhar que atravessa o líquido em busca do objeto ou uma imagem que sobe das profundezas à superfície, de modo que o vinho, espelho do bebedor, funciona ao mesmo tempo no plano individual de uma reflexividade permitida aos homens e no plano coletivo do conhecimento mútuo entre semelhantes, pois, como no barbeiro, o homem tem direito ao face a face do espelho desde que em público e em grupo.
O espelho da voz
1. O vinho revela a verdade das almas libertando a palavra, e a linguagem, que mostra ao nomear, é ela mesma espelho, segundo Platão, para quem o logos torna visível o pensamento pela voz, modelando a opinião como num espelho ou na água do fluxo que passa pela boca, verbalização como visualização sonora do pensamento, sugerida pela proximidade entre fluxo e palavra, em que a reflexão é concebida como moldagem de uma matéria que sem ela permaneceria imperceptível, designada por um verbo ligado a tupos, marca, impressão em cavo ou em relevo, noção fundamental das teorias ópticas e catóptricas.
2. A aproximação entre expressão verbal e espelho liga o auditivo ao visual, paralelismo caro a Platão e constantemente desenvolvido por filósofos e poetas, que confrontam o eco e o reflexo muito antes do mito de Narciso e comparam eikon e logos, a pintura eloquente do canto e a poesia silenciosa das imagens.
A poesia e o brilho
1. O espelho do canto poético, proclamado por Píndaro, é o único capaz de impedir que o valor fique para sempre oculto na obscuridade, pois as belas ações só encontram o prêmio de seus esforços quando, graças a Mnemosine de diadema brilhante, se refletem no canto glorioso, imagem inserida entre muitas metáforas visuais da eficácia do poema, como tesouro, templo ou fachada, que dá a ver os feitos ao mesmo tempo que os faz ouvir, assim como Simônides chamava a palavra imagem das ações, conferindo ao canto a materialidade, permanência e solidez das imagens de pintores e escultores.
2. Com a metáfora do espelho, Píndaro sublinha o aspecto estético da memorização poética, que exige, como a mulher que se prepara para agradar, ordem, embelezamento e adorno, o kosmos, e, ao passar da imagem de pedra ou pintada à imagem refletida, aprofunda a distância entre realidade e aparência e opera uma inversão em favor da mímesis, já que para ele a única verdade está no espelho, pois sem a luz gloriosa projetada pela Memória de círculo brilhante, que joga com a circularidade do diadema e dos espelhos, os mais altos feitos, mergulhados nas trevas, não existem, enquanto as imagens sonoras do canto lhes dão substância, vida, inteligibilidade e lugar no cosmos.
3. Confrontado à poesia de Píndaro, o espelho ganha eficácia redobrada, pois o que sem ele permaneceria invisível não existiria, de modo que é pensado como órgão da visão e estabelece-se uma equivalência entre visualização e existência autêntica.
As lições da história
1. O historiador completa a inversão, pois o espelho da história, como a poesia, realça pelo brilho o que merece ser lembrado, e Plutarco, vivendo na intimidade dos grandes homens e escolhendo suas ações mais belas, busca corrigir os costumes, primeiro os próprios, olhando a história como espelho para ordenar sua vida conforme as virtudes deles, verbo que remete ao adorno e à ordem do kosmos, e depois os do leitor, que, diante dos espelhos das belas ações, se pergunta o que fariam Platão, Epaminondas, Licurgo ou Agesilau e ajusta conduta e palavras.
2. Captada pelo historiador, a vida dos grandes homens torna-se exemplo a imitar, de modo que o modelo está no espelho e quem o contempla se faz reflexo, numa contaminação mimética semelhante à identificação do espectador com os heróis no teatro, e Plutarco compara os historiadores aos atores, que participam do brilho dos feitos que expõem, refletidos sobre eles como num espelho quando a ação transparece nas palavras, usando o verbo técnico da reflexão dos raios luminosos, pois a reflexão não opera na sombra, tendo a luz por substrato, e a contaminação virtuosa da história nutre-se desse brilho devolvido, redobrado e partilhado.
Os pais modelos
1. Uma preocupação pedagógica semelhante inspira a comparação segundo a qual os pais devem oferecer aos filhos um modelo claro e sem mancha, contemplado como espelho, desviando os olhares de ações e palavras vergonhosas, de modo que é a imagem paterna, mais que a virtude em si, que fascina o filho, e essa relação passa também pela semelhança, explícita na Chave dos sonhos de Artemidoro, onde ver a própria imagem num espelho anuncia filhos e vê-la na lua anuncia um filho ao homem e uma filha à mulher, pois cada um verá uma imagem semelhante a si.
2. Na relação especular entre pai e filho, a semelhança atua não entre modelo e reflexo, mas entre um reflexo-modelo, uma imagem exemplar, e o sujeito que vê, o filho que procura moldar-se por ele, representação inscrita na concepção da mímesis.
Nos olhos, nos rostos
1. Mais espontaneamente ainda que o tempo, o vinho ou a palavra de poetas e historiadores, o rosto humano e o olho prestam-se à comparação com o espelho.
2. Sócrates observa a Alcibíades que o rosto de quem olha o olho de outro aparece como num espelho na pupila em frente, onde se forma a pequena figura, o eídolon de quem olha.
3. O olho, espelho vivo permitido e recomendado aos homens, não se limita a devolver a imagem recebida no face a face, mas busca nas profundezas do ser verdades que faz aflorar, pois, segundo Filóstrato, os olhos revelam o caráter e os sábios neles examinam os espíritos como imagens no espelho, segundo Aquiles Tácio o espírito se mostra no rosto como num espelho, alegre ou aflito, e já o Sócrates de Xenofonte atribuía ao rosto, prósopon, o poder de exteriorizar os sentimentos.
4. Essas comparações confirmam as diversas orientações do funcionamento do espelho para os gregos, ora projetor, ora instrumento de exploração interna, mais frequentemente receptor do que vem de frente, e também passagem ou lugar de emergência do que sem ele permaneceria inacessível.
Do amor e da amizade
1. O face a face pratica-se sobretudo entre amigos ou amantes, espelho ideal na época clássica, segundo a regra enunciada por Sócrates a Fedro de que o amado vê a si mesmo no amante como num espelho e tem um contra-amor que é imagem refletida, eídolon do amor, comparação que, do Alcibíades ao Fedro, perde concretude e ganha valor simbólico, pois o espelho já não é apenas a pupila, mas o amante inteiro, em quem cada um se projeta e se modela num vaivém que confunde amor e contra-amor, Anteros, cujo prefixo marca o face a face, a troca recíproca e a simetria da reflexividade, sendo para Platão paradigma da contemplação da alma pela alma e da visão de sua parte mais divina, modelo do conhecimento do semelhante pelo semelhante e ponto de partida da ascensão das belezas terrenas à beleza divina, embora o leitor moderno, como a maioria dos contemporâneos de Sócrates, talvez prefira permanecer cativo da imagem sedutora do amante-espelho.
2. Aristóteles, mais sereno, admite que para conhecer o rosto olhamos no espelho, revelando os limites simbólicos da interdição, e que para conhecer a nós mesmos olhamos o amigo, outro eu, semelhante menos complacente e duplo corretor sem o qual não se pode ver o próprio caráter, podendo-se ter vários amigos, mas não demais, para não se perder em tantos espelhos, de modo que a reflexão especular entre dois homens livres e iguais é um dos modelos da philia, que cimenta todas as relações sociais.
3. No universo trágico de Ésquilo, a metáfora do espelho denuncia a ambiguidade e a ilusão da amizade, quando Agamêmnon declara conhecer o espelho da convivência e ter visto nele o fantasma de uma sombra, a afeição dos que julgava amigos, reflexo redobrado cuja inanidade torna o espelho ainda mais revelador de uma ausência, numa inversão entre aparência e realidade tão rigorosa que o único a sair ileso da prova é Ulisses, mestre das mentiras, que simulara loucura para fugir à guerra, mas, obrigado a cumprir o juramento, mostrou-se verdadeiro amigo.
Na armadilha do bajulador
1. O espelho dos rostos pode armar outra armadilha além da hipocrisia, quando o amigo-espelho renuncia ao rigor para devolver um reflexo complacente demais, perigo de excesso de fidelidade mimética que Plutarco ensina a detectar fingindo mudanças súbitas de opinião, humor e gosto, pois o bajulador, como um polvo, não tem originalidade nem sentimentos próprios e recebe como espelho a imagem de paixões e movimentos alheios, à maneira do número do espelho quebrado retomado no cinema desde Max Linder.
2. Aplicada ao bajulador, a imagem do espelho não contradiz a do rosto-espelho que faz coincidir fisionomia e vida interior, pois o bajulador, aspirado pela fachada que oferece, torna-se realmente o que quer parecer e, pelo mimetismo perpétuo, despersonaliza-se até ser apenas aparência e anular-se em puro eídolon.
3. A comparação de Plutarco joga com a plasticidade do espelho e o jogo mimético, mas sua insistência na reciprocidade total indica que o perigo está na reversibilidade, pois o bajulado sofre por sua vez a despersonalização, modelando-se no reflexo que o bajulador lhe devolve e anulando-se, representação não isolada do grande risco de desaparecer no espelho.
A mulher, espelho do homem
1. Nessa série de espelhos masculinos, a mulher aparece em Plutarco, para quem, assim como um espelho ornado de ouro e pedras é inútil se não dá reflexo fiel, a esposa rica nada vale se não modela sua vida e seu caráter pelos do marido, concepção inovadora em relação à época clássica, pois a boa esposa, embora reflexo, não é passiva, mostra, fornece e devolve uma imagem, parece poder escolher entre submissão e recusa e, ao consentir em ser espelho do esposo, é valorizada, antítese do bajulador, sendo para Plutarco a mulher o espelho ideal do homem, como mostra o Erótico, onde, retomando Platão, afirma que a beleza feminina pode, como a dos jovens, conduzir as almas bem-nascidas à contemplação da beleza divina.
2. Aquiles Tácio também transpõe a erótica platônica do espelho ao amor heterossexual, descrevendo o olhar entre amante e amada como prazer maior que o ato físico, em que os olhos se modelam reciprocamente como imagens num espelho e a emanação da beleza desce pelos olhos à alma numa união à distância, mostrando o espelho tanto no nascimento do amor, em que o olho recebe os eídola da bela, transmite os eflúvios ao coração e os reflete de volta, quanto na relação estabelecida, em que a reflexividade é metáfora da reciprocidade, mas sem simetria total, pois a mulher nunca é amante ativa e só responde ao amor masculino, num amor de retorno, anteros, isto é, mimetismo, bastando persuadi-la do amor para que ela imite.
3. Essas representações da mulher como espelho do homem num contexto sentimental são tardivas, dos primeiros séculos da nossa era, pois em toda a época clássica, em relação com a ideologia democrática, a philia, que implica igualdade, reciprocidade e simetria, é reservada às relações entre homens, amigos homólogos semelhantes como irmãos nascidos da mesma terra e amantes, cuja relação a philia justifica e que permite aos mais velhos modelar à sua imagem os jovens companheiros.
4. A mulher não está, porém, excluída do jogo metafórico do espelho, como mostra Artemidoro, que reúne representações antigas ao interpretar o sonho de ver o próprio rosto semelhante no espelho como anúncio de casamento para homem ou mulher, porque os espelhos mostram os rostos como homem e mulher mostram um ao outro os filhos, e ver-se dessemelhante como anúncio de filhos bastardos ou alheios.
5. A relação especular entre mulher e homem passa pelos filhos e sua semelhança, sobretudo do filho com o pai, e outra equivalência onírica faz da tabuinha signo da esposa por receber as impressões, tupoi, das letras, nome dado também aos filhos, de modo que a mulher é espelho do homem porque, como o disco lunar que reflete o sol, não tem luz própria e sobretudo porque, como todo princípio feminino, é matéria a que o macho impõe forma, como o artesão que molda cera, argila, metal, madeira ou pedra, operação de marcação que serve de paradigma na pensamento grego tanto para a reprodução sexuada quanto para a visão.
6. Na geração descrita por Aristóteles, o elemento masculino imprime seu modelo na fêmea, cuja matriz fornece matéria inerte, prova disso sendo as massas informes e duras, as “molas”, geradas quando a mulher concebe sem intervenção masculina, em vez dos bons tipos à imagem do pai, assim como o reflexo resulta da impressão sobre o metal polido dos corpúsculos luminosos e visuais e pode ser chamado tupos, tratando-se em todos os casos de “reprodução”.
7. A mulher, sobretudo a esposa legítima destinada à procriação, está, como o espelho fechado no estojo, em situação de receptáculo passivo, no qual o homem grego é obrigado a projetar-se para duplicar-se e perpetuar sua imagem, embora o deplore, a começar por Hesíodo, e por isso evita mirar-se nela como no espelho, preferindo contemplar seu reflexo nas pupilas de outro homem, igual, semelhante e irmão.
8. A atribuição exclusiva do espelho à mulher e a reprovação de seu uso masculino explicam-se porque o disco metálico, como o corpo feminino que prolonga e duplica, é receptor, objeto vidente mais passivo que ativo, que faz de quem nele se mira, pela reciprocidade visual, outro objeto vidente privado do estatuto de sujeito do ver, como ilustra Makkô ou Akkô, figura dos contos infantis definida como criatura fútil e afetada ou louca que fala à própria imagem no espelho como a outra pessoa, cujos nomes remetem a dizer tolices, fazer trejeitos, numa forma média que marca o reflexivo, ou à expressão estúpida e imóvel, espantalho ou bruxa que é louca porque fala ao espelho, sem relação com Demóstenes nem com Narciso, que seria trágico, pois o sintoma maior da loucura para os gregos é a impossibilidade de comunicar com outrem e buscar a própria imagem no metal brilhante comporta risco de alteração e alienação.
9. O homem grego aceita esse perigo para a mulher, já outra, belo artefato fabricado pelos deuses, mas recusa-o para o cidadão, que correria o risco de tornar-se algo diferente de um homem, como os efeminados de Aristófanes, os eunucos bárbaros de Helena ou os súditos do tirano de Cumas, ao passo que, mirando-se de frente no olho de seu semelhante, confirma seu domínio do ver e do saber, isto é, seu estatuto de homem livre.
10. A interdição do espelho é tanto mais imperiosa porque o futuro cidadão nasce e passa os primeiros anos entre mulheres e espelhos e deve um dia romper com o universo fechado do gineceu, e a relação homoerótica, ao receber estatuto quase oficial por motivos pedagógicos, ajuda-o a sair da família como saiu do gineceu e a integrar-se na comunidade cívica, fornecendo-lhe nos olhos do erasta, de modo transitório, um substituto do espelho que teve de rejeitar para entrar no mundo masculino.