O vocabulário grego das dimensões corporais é uma multiplicidade de termos que designam sem sempre distingui-los partes ou órgãos do corpo, sopros, vapores ou fluidos, sentimentos, pulsões, desejos, pensamentos e operações concretas da inteligência, de tal modo que, como observa James Redfield, nos heróis de Homero o eu interior coincide com o eu orgânico.
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Os termos stêtos, etor, kardía, phrén, prapídes, thumós, ménos e nóos têm valores frequentemente muito próximos entre si e cobrem ao mesmo tempo partes ou órgãos corporais como coração, pulmões, diafragma, peito e entranhas, e realidades psíquicas como sentimentos, pulsões e operações da inteligência.
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Esse vocabulário constitui o código pelo qual o grego exprime e pensa suas relações consigo mesmo, sua presença a si mesmo mais ou menos unificada ou dispersa, suas relações com o outro através de todas as formas de aparência corporal, e suas relações com o divino, cuja presença dentro de si e cujas manifestações externas nas epifanias dos deuses são expressas no mesmo registro simbólico.
Colocar o problema do corpo dos deuses não é perguntar como os gregos revestiram suas divindades de um corpo humano, mas buscar como funciona esse sistema simbólico que permite pensar a relação entre o homem e o divino sob a dupla figura do mesmo e do outro, do próximo e do distante, do contato e da separação.
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O sistema simbólico corporal codifica as relações consigo mesmo, com o outro e com o divino, articulando o que associa o humano e o divino por similitudes, aproximações e encavalamentos e o que os dissocia por contraste, oposição, incompatibilidade e exclusão recíproca.
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O corpo humano é marcado por signos de limitação, deficiência e fragmentariedade que o constituem como um subcorpo compreensível apenas em referência ao que supõe: a plenitude corporal do sobrecorpo divino.
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Levando às últimas consequências todas as qualidades e valores corporais que se apresentam no homem sempre sob forma diminuída, derivada e precária, chega-se necessariamente a dotar as divindades de um conjunto de traços que, mesmo em suas manifestações epifânicas no mundo terreno, situam sua presença num além inacessível e fazem transgredir o código corporal mediante o qual são representadas em relação aos humanos.