Para os gregos arcaicos, a desgraça dos homens não provém de que a alma, divina e imortal, esteja aprisionada num corpo material e perecível, mas de que seu corpo não é plenamente uno e não possui de modo pleno e definitivo o conjunto de poderes, qualidades e virtudes ativas que confeririam à existência uma vida em estado puro, totalmente viva e imperecível, isenta de todo germe de corrupção e isolada do que poderia, de dentro e de fora, obscurecê-la, murchá-la e aniquilá-la.
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Essa concepção arcaica difere radicalmente da posterior oposição platônica entre alma imortal e corpo material: o que falta ao homem não é a libertação do corpo, mas a plenitude, a consistência e a perennidade que o corpo divino possui em grau absoluto e que o corpo humano possui apenas de forma diminuída, derivada e precária.
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A parte de obscuridade e de não ser que habita o corpo humano pertence ao campo nocturno do Chaos, origem do cosmos, e é por isso alheia ao campo luminoso do divino, onde a vitalidade é inesgotável e a presença é plena e constante.