A energia vital inconsciente, que subsiste independentemente da consciência do eu e é invariavelmente instintiva, reflete a porção divina da natureza humana, mas só transformando-a, mediante o trabalho consciente, na forma mais alta da superconsciência intuitiva se alcançarão os dons mágicos que são o prêmio da busca.
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As maçãs de ouro, o filhote de sabujo de poderes extraordinários e o corcel negro são os dons e os penhores das virtudes do reino fadado da vida imortal.
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As maçãs são idênticas às maçãs nórdicas do jardim de Freya, aos frutos clássicos das Hespérides e ao fruto bíblico da árvore da vida eterna.
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Afrodite, a deusa do Amor do Trono de Ouro, doou três talismãs semelhantes, provenientes de seus jardins na ilha sagrada de Chipre, ao jovem Hipômenes, quando este arriscou sua vida na corrida com a virgem Atalanta.
As maçãs de ouro quebram o encantamento do medo da morte, unindo a vontade ao seu justo objetivo, e são o alimento que faz mudar a pele da mortalidade.
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São o alimento dos imortais, e os que as provam se identificam com a parte imperecível de sua natureza e são como deuses.
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O filhote de sabujo de poderes extraordinários, que fareja e persegue sem jamais perder o rastro, é o cão de aponte ideal, uma encarnação de sabedoria instintiva e de consciência.
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O corcel negro é uma alta e cavalheiresca transfiguração da montaria antes tão modesta, o aspecto que convém ao destrier e companheiro do rei herói.
Conn-eda não perdeu nada ao partir do lago fadado e de seu príncipe, pois não há separação, morte nem perda no plano mais alto da existência suprapessoal.
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Sob a forma das maçãs, do cão e do corcel negro, ele conserva os poderes que antes, mediante os humildes serviços do poldro de pelo eriçado, o haviam assistido e guiado.
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O poldro de pelo eriçado, que não era nem negro, nem branco, nem alazão, mas a união perfeita de todas as qualidades e de todos os contrários, era o mais modesto veículo da mesma força vital que agora revelou seu poder.
Na busca do reino mais alto, o herói passa o período ritual de um ano, símbolo de uma vida ou encarnação, um ciclo completo de existência da primavera ao inverno, do nascimento à morte.
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Durante esse período, Conn-eda participa da vida dos imortais, sendo aceito por eles como um da sua estirpe mediante o rito sagrado da hospitalidade.
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Ele se impregna da qualidade de seu superior modo de ser e nela se confirma.
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Assim, despertada nele a essência divina antes latente, adquire uma natureza dupla e torna-se habitante das duas esferas, a mortal e a divina.
Quando o homem-deus finalmente retorna, renascido e com os símbolos de sua sabedoria e de seu poder, as forças do mal desmoronam automaticamente por si mesmas, e a madrasta se lança no vazio.
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Tal fim é a única verdadeira derrota que pode existir para as forças do mal: autodissolução e autoaniquilamento diante de uma superioridade qualitativa, não quantitativa, alcançada mediante o sacrifício de si mesmo e a vitória sobre si mesmo.
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Toda falha de integração na esfera humana exige o aparecimento, em algum lugar do espaço e do tempo, do oposto ausente.
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A personificação do antagonista predestinado mostrará inevitavelmente seu rosto.
O dragão presta um serviço à vida ao transformar em afirmação inegável o poder do fator ausente e ainda não integrado, forçando os guardiões da sociedade a levá-lo em consideração.
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Antes que o dragão possa ser destruído, o próprio herói e a sociedade heroica devem sofrer uma transformação, uma crise de desintegração e depois de reintegração em base mais ampla.
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Se o dragão for vencido apenas pelo peso das armas, a necessidade de seu reaparecimento não terá sido eliminada, e após um período de recuperação ele romperá as correntes de qualquer prisão subterrânea e desencadeará outra guerra.
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Os inocentes se esforçam sempre por excluir de si e negar no mundo as possibilidades do mal.
A função do mal é manter em movimento as dinâmicas da mudança, pois as forças do mal, cooperando com as forças benéficas de modo antagônico, contribuem para a tessitura da tapeçaria da vida.
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A experiência do mal, e em certa medida apenas ela, produz a maturidade, a vida real e o real controle dos poderes e das tarefas da vida.
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O fruto proibido, o fruto da culpa mediante a experiência e do conhecimento mediante a experiência, devia ser engolido no Jardim da Inocência antes que a história humana pudesse ter início.
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O mal devia ser aceito e assimilado, não evitado.
O reino das fadas precisa da ação do perfeito herói humano para reconquistar seu príncipe perdido e ser salvo da desventura, pois, devido a uma desgraça mitológica anterior, o irmão do rei do reino das fadas havia sido afastado de sua morada transcendente e condenado à forma de existência inferior do poldro de pelo eriçado.
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O príncipe das fadas deseja a libertação desse exílio e seu reino aguarda seu retorno, mas ele não tem permissão de empreender a jornada necessária senão com o cavaleiro humano às costas.
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O príncipe sobre-humano só pode realizar sua própria salvação ajudando o herói mortal a alcançar a vida imortal.
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O herói humano alcança a salvação e a completude enquanto o reino das fadas, reintegrando aquele que havia perdido, é curado de sua aflição, restituído em sua perfeição e preenchido de alegria.
Uma cooperação entre as forças conscientes e inconscientes é necessária para que se conheça o estado de perfeição hipercosciente, pois as faculdades mudas e instintivas da psique cooperam com a personalidade consciente na perigosa busca dos símbolos divinos da vida.
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Essas faculdades já tendem por si mesmas a retornar à esfera mais alta, sobre-humana, de onde surgiram; esperam, aguardam e lutam por sua reinstauração há muito retardada.
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Necessitam, porém, da ação do ser humano, razão pela qual o animal adverte: Se não seguires meu conselho, morreremos ambos.
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Toda a ação repousa sobre o herói: como protagonista do princípio consciente, cabe a ele realizar os atos decisivos, ainda que seu papel seja o de simples instrumento.