SABEDORIA DIVINA

BREUIL, Paul. Zarathoustra: Zoroastre et la transfiguration du monde. Paris: Payot, 1978.

A dupla abordagem de Zaratustra, mística racional e ética existencial, escapou ao dilema das duas concepções tradicionais da filosofia. De fato, segundo a pertinente observação de W. Jaeger: «No diálogo sobre a Filosofia… Aristóteles une a filosofia grega e os sistemas religiosos orientais, como o dos zoroastrianos, os magos, sob a denominação comum de sabedoria (sophia), que designa por vezes (sometimes) em Aristóteles o conhecimento metafísico dos princípios mais elevados, ou teologia (3). » O «às vezes» define bem a hesitação na qual o fundador do Liceu oscilou constantemente, entre o idealismo do Mestre e o pensamento peripatético, que aliás sucederá ao Estagirita. Não é impressionante essa aproximação estabelecida por Aristóteles, em seus momentos de aproximação mística, entre a sabedoria (sophia) e o conhecimento metafísico dos princípios supremos? E não assume um significado profundo, até mesmo simbólico, quando se sabe que a identificação da sabedoria com Deus havia sido realizada por Zaratustra no Senhor Sabedoria muito anteriormente e que era conhecida pelos magos? Mesmo para o pai do racionalismo, a abordagem filosófica compreendia, portanto, uma parte de busca da sabedoria divina, a theosophia. A etimologia original da palavra filosofia entendia bem o sentido de philo (amante) e sophia (sabedoria), ao contrário do desvio para o sentido meramente intelectual de philo (amante), mas de sophein = saber. O amante da sabedoria (sophia/mazdah) não tem mais nada em comum com a abordagem puramente intelectual do filósofo peripatético.

Entre esses dois caminhos, como destaca um Dicionário de Filosofia: “a ambiguidade do conceito antigo de ‘sabedoria’, que evoca ao mesmo tempo um conhecimento da verdade e uma prática da moral, deveria suscitar duas interpretações da filosofia”. A primeira, racional, remonta aos físicos jônios e, parcialmente retomada por Aristóteles, desenvolve-se no positivismo. A segunda, proveniente na verdade de Zaratustra, mas que tradicionalmente se remete a Sócrates, Platão e Kant, considera a filosofia de acordo com sua etimologia primária de busca moral e aprendizagem da virtude em função de nosso devir espiritual. A “traição” de Aristóteles ao Mestre da Academia assume um relevo surpreendente. Consagrada pelos sofistas e pela escola peripatética, ela operou uma trágica desespiritualização pelo uso profano de uma palavra originalmente piedosa, para designar, em última instância, toda dialética, fosse ela materialista! O divórcio teve consequências terríveis, o filósofo passando a ser apenas um especulador de ginástica intelectual que, não se apoiando nem na vida nem no coração, rompe a tríade de pensamentos, palavras e ações puras, em benefício exclusivo da palavra vazia que não recolhe mais do que migalhas de sabedoria.