A religião tradicional atacada por Zoroastro pode ser reconstituída em suas linhas gerais tanto pelo Avesta posterior, que readmitiu elementos do paganismo anterior, quanto pela religião paralela do Rig-Veda indiano, que nunca passou por reforma radical.
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No Rig-Veda coexistiam dois tipos de divindades: os asuras, mais remotos e ligados à ordem cósmica, e os devas, mais próximos dos homens e associados ao avanço guerreiro ariano.
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No Irã pré-zoroastrista esses dois tipos também devem ter coexistido, e os daëvas foram considerados por Zoroastro não deuses, mas potências maléficas.
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Indra, o mais popular dos deuses do Rig-Veda, aparece no Avesta posterior como demônio; o mesmo ocorre com Saurva, correspondente ao indiano Sarva ou Rudra, e Nanghaithya, correspondente aos Nasatyas ou Asvins védicos.
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Zoroastro nunca ataca os ahuras, mas também evita mencionar qualquer um deles pelo nome, chegando a mencionar “ahuras” no plural em dois hinos, o que indica que não os havia rejeitado inteiramente ao compô-los.
A visão de mundo de Zoroastro parte das condições concretas de seu tempo, retomando da religião antiga a antítese entre Verdade (asha) e Mentira (druj), mas colocando esse antagonismo no centro de seu ensinamento religioso com uma radicalidade ausente no Rig-Veda.
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De um lado havia uma comunidade pastoril e agrícola sedentária dedicada ao cultivo da terra e à criação de gado; do outro, uma sociedade tribal predatória e destruidora.
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Os deuses dos nômades eram descritos como correspondentes a seu caráter, pois entregavam o boi à Fúria em vez de prover-lhe boas pastagens.
Na guerra contra os “seguidores da Mentira”, Zoroastro não admite compromisso, declarando que quem for benevolente com o seguidor da Mentira torna-se ele próprio um seguidor da Mentira.
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Em seu diálogo com a Boa Mente, Zoroastro se descreve como “verdadeiro inimigo do seguidor da Mentira” e “firme apoio do seguidor da Verdade”.
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O Profeta, porém, não considerava os seguidores da Mentira irremediavelmente condenados, pois todo homem é livre para escolher entre os dois partidos.
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O objetivo último de Zoroastro não era apenas fazer guerra aos seguidores da Mentira, mas convertê-los, a eles e a todos os homens, à nova religião que proclamava.