A terceira operação consiste em dizer o que se vê da maneira mais justa e natural na língua de chegada — não se trata mais de traduzir, mas de ver e de dizer, sendo a visão a pedra do meio do rio sobre a qual se pisa para passar para o outro lado.
Montesquieu dizia: “Para bem traduzir, é preciso saber bem o latim, e depois esquecê-lo”
Entre línguas da mesma família, a tradução parece uma operação de conversão de um sistema em outro; entre o chinês e o francês, é raro que a modificação de uma frase chinesa resulte numa frase francesa bem formada — é preciso ver a coisa e expressá-la novamente
Quando se pena para exprimir o que se vê, frequentemente descobre-se que a representação da coisa não era suficientemente coerente e precisa — e a expressão justa apresenta-se então por si mesma
Dessa conversão resulta um sentido novo dos recursos da língua francesa e um interesse renovado pelos autores que a manejaram antes
A tradução de ensaios e cartas de Li Zhi, filósofo do século XVI, ensinou a ler melhor o chinês, mas talvez ainda mais a manejar melhor o francês
A conversão instaura também uma espécie de igualdade entre o tradutor e o autor: ao tomar consciência da liberdade que lhe oferecem os recursos do francês e das restrições que ele impõe, o tradutor toma também consciência da liberdade que o chinês oferecia ao autor — o que autoriza deixar de reproduzir no francês o que no texto original decorre apenas de restrições lexicais, gramaticais ou retóricas
Traduzindo, aprende-se a manejar as línguas, a ler bem e a escrever — concentrando toda a atenção nos meios de expressão, o tradutor adquire um sentido aguçado da forma