A harmonia celeste é a dos seres em sua natureza comum — sem contraste porque sem distinção —, e durante o sono a alma não distraída se absorve nessa unidade, ao passo que na vigília, distraída, distingue seres diversos e produz teorias e erros.
“Abarcar — eis a grande ciência, a grande palavra. Distinguir é ciência e falar de ordem inferior”
As distinções são ocasionadas pela atividade, pelas relações e pelos conflitos da vida — da prática do arco derivou-se a noção do bem e do mal; dos contratos derivou-se a noção do direito e do torto
“Complacência e ressentimento, pena e alegria, projetos e arrependimentos, paixão e razão, indolência e firmeza, ação e preguiça — todos os contrastes, outros tantos sons saídos de um mesmo instrumento, outros tantos cogumelos nascidos de uma mesma umidade — modalidades fugazes do ser universal”
“Não há seres reais distintos. Só há um eu por contraste com um ele. Ele e eu não sendo senão seres de razão, também não há, na realidade, o que se chama o meu e o teu”
“Tudo se passa como se houvesse um verdadeiro governador, mas cuja personalidade não pode ser constatada. É uma tendência sem forma palpável, a norma inerente ao universo, sua fórmula evolutiva imanente”
As normas de toda espécie — a que faz um corpo de vários órgãos, uma família de várias pessoas, um Estado de numerosos súditos — são outras tantas participações do reitor universal, que nem o aumentam nem o diminuem, pois são comunicadas por ele, não separadas dele
“É da ignorância desse princípio que derivam todas as penas e tristezas dos homens — luta pela existência, medo da morte, apreensão do misterioso além”
Ainda há homens, poucos, que o convencionalismo não seduziu — que reconhecem como mestre apenas sua razão e, pelo esforço desta, deduziram de suas meditações sobre o universo que só há de real a norma universal
“O vulgo irrefletido crê na existência real de tudo. O erro moderno afogou a verdade antiga — tão arraigada e inveterada que os maiores sábios, incluindo o Grande Yü, foram suas vítimas”