Em Tcheng havia um feiticeiro transcendente chamado Ki-hien, que sabia tudo sobre a morte e a vida, a prosperidade e o infortúnio dos indivíduos, e previa o dia preciso da morte de cada um com a exatidão de um gênio — e os habitantes de Tcheng, que não queriam saber tanto, fugiam dele de longe ao avistá-lo.
Lie-tzeu foi vê-lo e ficou fascinado; ao voltar, disse a seu mestre Hou-tzeu que havia encontrado algo superior ao ensinamento recebido
Hou-tzeu respondeu que Lie-tzeu havia recebido apenas o ensinamento exotérico, não o esotérico, que é o germe fecundo; seu saber era como ovos infecundos postos por galinhas sem galo — faltava o essencial
Hou-tzeu desafiou Lie-tzeu a trazer o feiticeiro, afirmando que lhe mostraria que Ki-hien só vê o que lhe é deixado ver
No dia seguinte, Ki-hien examinou Hou-tzeu e disse a Lie-tzeu que o mestre era um homem morto — antes de dez dias estaria acabado; havia tido a visão de cinzas úmidas
Lie-tzeu voltou em lágrimas; Hou-tzeu explicou que se havia manifestado a Ki-hien sob a figura de uma terra hibernante, com todas as energias imobilizadas — fenômeno que no vulgo só ocorre às vésperas da morte, daí a conclusão errônea
No dia seguinte, Ki-hien disse que o mestre estava melhor e que só havia visto sinais de vida — o que havia visto antes era apenas um episódio, não o fim
Hou-tzeu explicou que desta vez se havia manifestado sob a figura de uma terra ensolarada, com todos os recursos das energias em ação
Na terceira visita, Ki-hien declarou o estado demasiado indeterminado para formular qualquer prognóstico — depois de uma determinação, se pronunciaria
Hou-tzeu explicou que se havia manifestado sob a figura do grande caos, com todas as energias em equilíbrio; um redemoinho pode ser causado por um monstro marinho, por um recife, por uma corrente ou por outras nove causas — coisa indeterminada, suscetível de nove explicações diversas; com maior razão o grande caos
Na quarta visita, Ki-hien, ao primeiro olhar, fugiu aterrorizado; Lie-tzeu correu atrás dele mas não o alcançou
Hou-tzeu explicou que se havia manifestado no estado de emanação do Princípio — Ki-hien viu num imenso vazio algo como uma serpente se esquivando, uma projeção, um jorro; esse espetáculo ininteligível o aterrorizou e pôs em fuga
Convencido de que ainda era um ignorante, Lie-tzeu se recolheu em casa durante três anos consecutivos; fez os trabalhos domésticos para a esposa e serviu os porcos com respeito, a fim de destruir em si mesmo a vaidade que quase o havia feito desertar do mestre; se desfez de todo interesse, se libertou de toda cultura artificial e tendeu com todas as suas forças à simplicidade original; tornou-se por fim tosco como um torrão de terra, fechado e insensível a tudo o que acontecia ao redor, e perseverou nesse estado até o fim