As representações mentais e visuais do corpo resultam de experiências pessoais e coletivas, e as noções do que constitui o corpo variam de uma cultura para outra
Os modos de isolar os objetos do conhecimento ou da percepção dependem das concepções que se tem deles
No Ocidente, o corpo é delimitado pela pele e forma uma entidade em si mesmo, o que não ocorre necessariamente para um adepto taoísta
Torna-se imperativo examinar as próprias concepções e manter certa distância delas
Na China, as representações visuais do corpo são raras e, quando aparecem, evocam a leveza do ser humano
As linhas são pouco enfatizadas e frequentemente ondulatórias, reproduzindo movimentos corporais
Essas representações se aproximam mais de desenhos medievais ocidentais do que das esculturas de Michelangelo ou Rodin, que exaltam músculo e potência
O conhecimento do corpo evoluiu consideravelmente na China nos últimos séculos, mas permaneceu relativamente constante em comparação com o conhecimento ocidental do mesmo período
Os escritores taoístas frequentemente enfatizam a importância do corpo humano, a despeito do número relativamente pequeno de imagens existentes
O décimo terceiro capítulo do Livro do Caminho e sua Virtude enuncia: “Se sofri tantos males, não é porque tenho um corpo?”
O termo xing — que designa a estrutura corporal — não aparece em textos clássicos como os Analectos ou Mêncio, mas é corrente nos primeiros textos taoístas
Xing aparece quase duzentas vezes no tratado taoísta de Zhuangzi, do século IV a.C.
Tanto nas representações médicas quanto nas taoístas, o corpo é frequentemente desenhado em forma ovoide, sem membros — evocando os mitos chineses da Criação e a concepção do mundo como Caos, um todo misto e indiviso, por vezes descrito com a forma de um ovo
Existem na língua chinesa vários termos para designar o corpo, e o pensamento antigo desenvolveu precocemente a analogia entre o corpo e o universo
Os termos incluem shen — corpo/pessoa —, ti — corpo físico — e xing — aparência estrutural
A analogia entre microcosmo e macrocosmo tornou-se tão comum que passou a ser tratada como conceito estabelecido
O corpo é também o lugar onde se configuram a identidade individual e social
Antes do período Song (960—1279), há poucas representações gráficas do corpo na China
Desenhos representando movimentos ginásticos foram recuperados nas escavações de Mawangdui (Hunan) em 1973, e há manuscritos e diagramas do corpo nos manuscritos de Dunhuang
Dezesseis textos relacionados à moxabustão representam apenas o contorno do corpo, e alguns diagramas do corpo inteiro ou do rosto aparecem em documentos de adivinhação
Nenhum texto taoísta anterior à dinastia Song contém representação gráfica do corpo, e o ser humano tampouco era tema frequente na pintura em geral
Os catálogos das bibliotecas imperiais mencionam títulos de diagramas relacionados às cinco vísceras ou aos pontos de acupuntura
Os demais componentes do corpo ou o corpo como totalidade não parecem ter sido objeto de representações específicas
Com exceção dos retratos — que surgiram pela primeira vez na dinastia Tang — a reprodução da figura humana não era tema corrente na pintura
As representações visuais mais antigas do corpo no taoísmo foram criadas em meados do século X e inauguraram uma série de desenhos ligados às técnicas da Alquimia Interior
À semelhança de grimórios, esses quadros combinam inscrições e desenhos frequentemente esquemáticos
Tais representações partem de uma visão de mundo organicista e ritualizada, que inclui uma ordem, uma estrutura interna invisível e processos em transformação
O corpo, discretamente representado, integra-se a um conjunto de transformações e organizações — tornando-se o campo da vida
A Alquimia Interior — literalmente “cinábrio interior” — é uma síntese de antigas práticas de ginástica, dietética, respiração e meditação
As práticas incorporam conceitos cosmológicos adaptados da alquimia operativa, chamada “cinábrio exterior”
As manipulações da Alquimia Interior ocorrem no laboratório do alquimista, isto é, no interior do corpo humano
Antes do surgimento do sistema alquímico interior, o vocabulário da alquimia operativa já era empregado no taoísmo como recurso metafórico para descrever técnicas e experiências meditativas, conforme observa Goossaert
Na transição da alquimia operativa para a Alquimia Interior — as duas não são mutuamente exclusivas e podem ser praticadas concomitantemente — ocorreram diversas transformações
Houve um fenômeno de internalização e transposição do laboratório para o interior do corpo
O adepto concebia o caldeirão e a fornalha — utensílios básicos do alquimista — como metáforas dos principais lugares para os quais transferia sua atenção
Esses lugares variavam conforme o estágio de progresso: os rins (termo que nas escritas chinesas designa tanto os rins quanto os genitais) e o coração, ou a parte inferior do abdômen e a cabeça
As manipulações concretas da alquimia operativa foram substituídas por manipulações mentais — o adepto utiliza o poder da imaginação e da visualização para induzir transformações em si mesmo e em sua relação com o mundo
Uma das características mais comuns dos textos de Alquimia Interior é a adaptação de conceitos e modelos cosmológicos para descrever o corpo humano e o indivíduo
Na alquimia chinesa, a transformação interior é modelada sobre a evolução da natureza
A analogia entre microcosmo e macrocosmo é anterior à Alquimia Interior e remonta à dinastia Han
O corpo torna-se um microcosmo no qual se encontram o céu e a terra, o sol e a lua, as estrelas, as montanhas e os vales, os rios e os oceanos, o vento, as nuvens, a chuva, o orvalho e a neve
O taoísta transpõe para o corpo tanto o mundo natural quanto o mundo sagrado dos céus, infernos, deuses e demônios, abolindo a distinção entre interior e exterior
As práticas de visualização das divindades corporais e os esforços para retê-las em si mesmo são procedimentos comuns na maioria das correntes taoístas, notadamente na tradição da Clareza Superior
Manter as divindades no corpo possibilita uma vida longa e o alcance da imortalidade
As divindades são também introduzidas no corpo pelo oficiante durante rituais destinados a remediar perturbações não para si mesmo, mas para a comunidade ou para uma pessoa específica — doenças, epidemias ou desastres naturais
O livro analisa as múltiplas versões de um mapa corporal denominado Quadro para o Cultivo da Perfeição, surgido em diferentes regiões da China
Os mapas incorporam grande variedade de textos, inscrições e elementos figurativos, sendo desconhecidos para a maioria deles o autor e as circunstâncias de produção
Essa representação do corpo é o ápice de uma longa tradição de desenhos esquemáticos que guiavam o meditador e o praticante de rituais
Os manuscritos mais antigos incorporando esse tipo de mapa corporal foram produzidos no século X, e versões parciais de séculos posteriores estão preservadas no Cânone Taoísta
A popularidade desses mapas extrapolou as antologias canônicas — versões manuscritas circularam entre membros de grupos de templos de variadas dimensões
Brigitte Baptandier demonstrou em estudo recente que esse amplo apelo persiste até os dias de hoje
Patrice Fava descobriu um manuscrito que demonstra como pessoas carregam consigo mapas do corpo e um mapa do esqueleto do Senhor Lao
A pesquisa sobre a história das representações do corpo e dos processos alquímicos anteriores ao Quadro para o Cultivo da Perfeição permite rastrear suas origens
O inventário das diversas cópias existentes — menos de uma dúzia — iluminou o contexto taoísta em que o mapa era utilizado
A descoberta recente de uma versão proveniente de coleção particular enriqueceu esse conhecimento
As poucas variações entre os diferentes exemplares revelam um uso flexível do mapa
As inscrições e textos do quadro foram comparados com os encontrados na literatura conhecida do Cânone Taoísta e seus complementos
As inscrições e textos do quadro foram agrupados em três tópicos para tornar mais compreensível sua tradução ao longo do estudo
O primeiro tópico trata do corpo e de seus principais sítios para transmutações alquímicas — o corpo cosmológico como área espaço-temporal das operações meditativas
O segundo aborda o corpo como mundo sagrado de paraísos e infernos, com seus diferentes palácios e divindades
O terceiro apresenta as inscrições, textos e pictogramas que evocam os principais processos da Alquimia Interior e os processos relacionados aos ritos do trovão
As indicações preliminares do quadro são explicadas à luz dos escritos fundamentais da Alquimia Interior e dos ritos do trovão, além da tradução dos textos contidos no mapa