O itinerário individual que guia o percurso é o de Wang Fuzhi (Wang Chuanshan, 1619-1692), pensador inscrito na linhagem dos mestres neoconfucionistas dos séculos anteriores, perfeitamente formado na escola dos clássicos, cuja obra representa uma última explicitação do pensamento chinês antes de seu contato efetivo com o Ocidente.
Wang Fuzhi é crítico em relação aos taoístas e nutre a pior aversão pelo budismo, polemizando ardentemente contra ambos; ouviu vagamente falar dos cristãos e do cristianismo, mas isso não faz parte de seu horizonte.
O campo de suas referências e o teatro inteiro de seu pensamento se enquadram resolutamente com os da tradição que, desde os séculos XI-XII, serviu de base cultural e ideológica ao tipo sociológico do letrado e assegurou sua extraordinária longevidade.
Sua obra é muito original, embora quase inteiramente constituída de notas e comentários — ele interroga com audácia e perspicácia o conjunto de concepções codificadas que constitui seu único universo, buscando a justificação mais íntima de cada uma delas.
Wang Fuzhi viveu uma das épocas mais perturbadas da história da China e seu esforço para sondar as representações culturais da tradição visa antes de tudo a restabelecer a máxima coerência num universo desordenado — em vez de simplesmente condenar esse mundo, como convidava o budismo, e buscar evadir-se dele.
Sua obra, quase desconhecida no Japão ainda hoje mesmo entre sinólogos, constitui contudo um lugar particularmente favorável à investigação do pensamento chinês, tanto ela interpreta melhor seus modos de articulação e explora com maior eficácia suas posições.
Pensador genial demais para não ser um pouco marginal — suas obras mais importantes não serão publicadas antes do século XIX —, Wang Fuzhi serviu de fermento ao pensamento da China moderna, chegando a Tan Sitong e ao jovem Mao Zedong, que foi membro de uma sociedade para o estudo de suas obras, fundada em Changsha por volta de 1915.
Pascal, seu contemporâneo, é evocado como paralelo: pouco importante do ponto de vista do dogma e talvez não totalmente confiável aos olhos da ortodoxia, ele oferece não obstante um dos melhores pontos de vista para tomar consciência em profundidade da intuição cristã — conta a força de uma exigência às voltas com um conjunto definitivamente constituído de representações.