TRANSPARENTE-OPACO

FJPC

Determinar o estatuto de realidade do invisível ou do “espírito” (shen) expõe à contradição entre pensá-lo por diferença com o visível como princípio autônomo e evitar uma ruptura dualista que levaria a um ato de fé.

Devido à diferença implícita do yin e do yang que o constitui, o fundo de latência do processo é constantemente animado pela dupla tendência da limpidez do yang e da opacidade do yin.

A realidade do homem é concebida segundo a mesma oposição entre a dimensão de invisível ou espírito (vazio unitário da consciência) e seu ser físico e sensorial (fator de limitação e exclusão).

A tradição chinesa assimilou a dimensão de invisível ou espírito da consciência à dimensão de invisível ou espírito que caracteriza o estágio de não-atualização de todo real fora dela.

Para os discípulos de Confúcio, o aspecto mais sutil e capital da sabedoria do Mestre (o “Céu” e a “natureza humana”) é interpretado por Wang Fuzhi em função da noção de dimensão de eficiência invisível do Processo como coerência interna à realidade (shenli).

A prática divinatória do Livro das Mutações, tal como interpretada por Wang Fuzhi, leva em conta o caráter insondável do Processo.

A consciência letrada da finitude humana não abandona a reflexão racional por uma conversão religiosa, nutrindo um profundo otimismo na capacidade de o homem estender sempre mais longe o horizonte de seus conhecimentos.

A capacidade de eficiência invisível, tanto no processo do mundo quanto na conduta do Sábio, é caracterizada pela extrema mobilidade, pela não-obstrução e pela comunicação.

Todo devir é regulador na medida em que se prossegue sem nunca se interromper; a regulação só é possível na mobilidade, e essa capacidade imanente de incitação-regulação constitui a dimensão de eficiência invisível do Processo.

A imparcialidade, em seu sentido mais profundo, é o que permite ao curso perpetuar-se, isto é, à existência advir e renovar-se.

A dimensão de eficiência invisível (shen) e o curso das mutações (hua) são absolutamente indissociáveis e constituem a totalidade do real.