Em direção a esse inobjetivável do “fundo das coisas”, difícil de recuperar nas redes da grande língua europeia, abre-se aqui um caminho de acesso a partir da rica literatura crítica que os letrados chineses dedicaram à pintura ao longo de quase dois milênios.
A pintura chinesa se devotou a figurar o insondável no interior do traçado — o Fundo através da forma — e os letrados puderam ao mesmo tempo produzi-la e refleti-la porque se apoiavam no pensamento de um continuum de existência e de sua “via” de imanência, atualizando-se e reabsorvendo-se: o tao, o tao dos taoístas.
Percorrer com paciência esses antigos tratados de arte da pintura convida a aprofundar o desvio tanto em relação ao estatuto ontológico da forma acoplando-se à matéria quanto em relação ao partido lógico da determinação e à ambição, dita estética, da representação.
O que se percebe primeiro como pequenos abalos discretos — que perturbam inesperadamente o alicerce do pensamento ocidental — revela progressivamente, em sua fissura, uma outra maneira de se engajar no pensamento: que não se fundaria nem no Ser nem em Deus, na qual a elucidação das coisas se operaria sem arrancamento, e onde soterramento e dessoterramento colaborariam — tomada e abandono — à semelhança do grande processo de existência, em vez de aguardar, numa clareza definitiva e construindo a perspectiva, o desvelamento da Verdade.
Essa outra possibilidade de pensamento é tornada eminentemente sensível pela pintura evocada nos tratados, que explora a coerência para extrair efeitos que basta contemplar para neles se abrir, fruí-los e partilhá-los.