FUNDAR A MORAL

JULLIEN, François. Fonder la morale: dialogue de Mencius avec un philosophe des Lumières. Paris: Grasset, 1995

Fundamentar a moral não é estabelecer princípios, mas sim demonstrar sua possível legitimidade. Explicar em nome de que ela se justifica – de outra forma que não seja como mandamento de Deus ou por sua utilidade social. Essa questão tomou forma completa na Europa no século XVIII: depois que os filósofos do Iluminismo libertaram a moral de sua tutela metafísico-religiosa, e antes que os Mestres da Suspeita, com Nietzsche à frente, se propusessem, ao contrário, a minar sua razão. Desde então, não ousamos mais encarar a moral de frente, em sua rigidez acadêmica – pois a descobrimos ao mesmo tempo muito suspeita e muito ingênua –, mas também não conseguimos nos livrar dela. Não negaremos ter uma consciência moral, mas tememos a mistificação. Assim, tornada difusa, vaga, etérea, sua ideia não cessa de assombrar, como um fantasma, nossos debates ideológicos: o “humanitário”, a “solidariedade”, que não paramos de mencionar hoje, em que se baseiam, afinal?

Por isso, meu objetivo é voltar a essa questão, mas abordando-a deliberadamente de forma indireta – por meio de uma grande tradição moral que se desenvolveu fora do quadro indo-europeu: a China (tendo como representante Mencius). Não para buscar na China uma solução para os impasses que seriam os nossos (e compor algum “catecismo chinês”, ao estilo do século XVIII); mas sim para desobstruir a questão – graças ao deslocamento operado, simplesmente mudando seu terreno: sob o efeito reativo do confronto, expondo-a a outras configurações, desejo abrir-lhe novas possibilidades e colocá-la novamente em movimento. E como, nesse ponto, é possível identificar de imediato uma comunhão de experiência e de desafio (e que, pela primeira vez, no que diz respeito à moral, não precisamos começar por construir representações mediadoras), o encontro se estabelece diretamente, entre a Europa e a China, e a comparação se transforma em diálogo.

Sabemos bem que o que ameaça periodicamente a filosofia é justamente a perda do desafio, ao deixar-se aprisionar em seu próprio debate. Ora, a “China”, aqui, serve para reabrir; serve para tomar distância, para pensar a partir de fora. Ela não é mais uma grande gaveta a ser inventariada, mas torna-se uma ferramenta teórica (e, de objeto, a sinologia passa a ser método). Ela serve aqui para retomar o equilíbrio na moral. Pois se, como recomenda a antiga estratégia chinesa, eu escolho aqui atacar de forma indireta – via a China –, é justamente para forçar a questão a se reposicionar de frente. E se parto deliberadamente de tão longe, não é por desejo de exotismo, ou pelo prazer da comparação, mas para recuperar uma margem de manobra: encontrar-me livre, beneficiando de um novo começo, de tudo o que, nas proximidades, acabou por confundir a questão e torná-la indescritível.

Nas páginas que se seguem, não falarei de “ética”, a evasiva da moda, mas simplesmente de moral.


Diante do Insuportável