A investigação conduzida através do termo che percorre campos aparentemente díspares — da estratégia à política, da calligrafia à pintura, da teoria literária à filosofia primeira — revelando convergências que atravessam toda a tradição chinesa.
O percurso considera sucessivamente: o “potencial que nasce da disposição” na estratégia; o caráter determinante da “posição” hierárquica na política; a força em ação através da forma do ideograma caligrafiado; a tensão que emana da disposição na pintura; o efeito que ressalta do dispositivo textual na literatura; e a propensão que rege o grande processo da natureza.
Temas comuns emergem: a potencialidade em ação na configuração — seja a disposição dos exércitos, do ideograma ou da paisagem pintada; a bipolaridade funcional — entre soberano e súditos, entre alto e baixo na representação estética, entre “Céu” e “Terra” como princípios cósmicos; e a tendência engendrada espontaneamente por simples interação, desenvolvendo-se por alternância.
Questões de interesse geral surgem: por que a reflexão estratégica na China antiga recusa as qualidades pessoais — como a coragem dos combatentes ou a moralidade do governante — para atingir o resultado fixado? O que constitui, aos olhos dos chineses, a beleza de um traçado de escrita? Por que os chineses não precisam postular a existência de Deus para justificar a realidade?
Coloca-se a questão de se ainda é possível falar simplesmente de “tradição” — dado que, desde Michel Foucault, uma corrente importante da reflexão sobre as ciências humanas tornou suspeita tal representação.
O ponto de vista de exterioridade em relação à cultura chinesa — a “heterotopia” evocada por Foucault no início de As Palavras e as Coisas — permite perceber, por comparação, modos de permanência e homogeneidade que não aparecem tão nitidamente ao olhar interior.
A segunda aposta deste livro é a de que o termo che, decepcionante do ponto de vista de uma história nocional, é precioso como revelador da intuição de base da tradição chinesa: a realidade — toda realidade — concebida como um dispositivo sobre o qual é preciso apoiar-se e fazer operar, explorando estrategicamente a propensão que dele emana.