JULLIEN, François. Un sage est sans idée ou L’autre de la philosophie. Paris: Seuil, 1998.
* Partindo sobre os rastros apagados da sabedoria, busca-se reencontrar um certo fundo — da experiência como do pensamento — que a filosofia não concebeu: do qual ela se afastou ao perseguir a verdade, e que seu próprio aparato tornou, em seguida, inapreensível.
Coloca-se a questão de se a sabedoria ainda é frequentável — ou se ela só tem a oferecer o que, anterior à filosofia, é abolido por ela e condenado a não ser mais do que subfilosofia, sem proveito teórico.
A sabedoria das nações reaparece aqui e ali maquiando seus lugares-comuns em ensaios da moda que tranquilizam pelo conformismo, tapando os buracos da ideologia.
Pensamento descorado, esfumado, extinto, a sabedoria não fala ao desejo — é seu avesso, o pensamento arriscado e louco, aventureiro e extremo, que se aguarda como revelação, e que ao menos é alegre.
A filosofia talvez tenha se acomodado facilmente demais com seus outros declarados — o pequeno outro da sofística e o grande outro da teologia —, enquanto a sabedoria, sob aparências mais discretas, se revelaria um outro muito mais recalcitrante.
As opções da sabedoria são mais perturbadoras e seu anti-filosofia mais virulento: poder-se-ia prescindir da verdade — bastaria a congruência; não haveria sequer nada a dizer das coisas, pois esse dizer barra seu processo regulado; e, antes de tudo, seria necessário desconfiar das ideias, pois elas não só põem à distância, como também, ao fixar e codificar o pensamento, o tornam para sempre parcial e privam o espírito de sua disponibilidade.
O pensamento “sábio” se revelaria, ele também, extremo — extremo em relação à filosofia, sob suas aparências insípidas de lugares-comuns —, mas sua coerência foi soterrada pela filosofia, o que exigiu refazer a viagem ao Oriente para demarcá-lo dela.
É a Europa que guardou da sabedoria apenas escombros ou alguns grandes fragmentos isolados: Pirro, Montaigne, os estoicos.
Na China, onde não se erigiu o edifício da ontologia, a sabedoria é a “via”: o sábio, diz-se de Confúcio, porque é sem partido tomado, é “sem ideia”; e, assim, guardando o espírito disponível, torna-se totalmente aberto a cada “assim”, acrescenta o pensador taoísta, pois o apreende como vem, em seu “de por si mesmo assim” — ao sabor, tal como um som emitido.
Não se trata tanto de conhecer — determinando objetos — quanto de tomar consciência do fundo de imanência que se dispensa com tal evidência, tão próximo, que, embora sempre diante dos olhos — ou antes: por estar sempre diante dos olhos —, não se consegue mais vê-lo.
Ludwig Wittgenstein, em 1947: “Possa Deus dar ao filósofo a faculdade de penetrar o que todos têm diante dos olhos!” — Was vor allen Augen liegt.
O “sábio” desempenha aqui o papel de um personagem conceitual — e, à sua semelhança, o “filósofo” também o se torna —, e do diálogo progressivamente montado entre ambos espera-se poder retirar a sabedoria do horizonte místico que, tradicionalmente, serve para redourá-la ao banhá-la nas cores do êxtase.
O pior é o fantasma “ocidental” que se projeta sobre o “Oriente” — o Oriente do Tao, a gurus.
O trabalho aqui empreendido é abrir a razão, não renunciar à sua exigência — ao contrário: tentando retomar a desconstrução de um certo exterior, é anti-exótico.
Quem souber ler no cerne deste ensaio verá nele um panfleto contra as fugas e compensações de todo gênero e a grande maré dos irracionalismos que ameaçariam o futuro.