François Jullien
François Jullien é filósofo, helenista e sinólogo. Três áreas de especialização que não apenas atestam uma vasta cultura, mas, mais essencialmente, a originalidade de uma abordagem intelectual entendida como uma aventura do pensamento.
Ele partiu, de fato, para a China a fim de agitar o pensamento europeu, de tirá-lo de suas “classificações” matriciais. Esse era o meio de desfazer os pontos de vista unilaterais, de operar um descentramento: o preço a pagar, em outras palavras, para se disponibilizar e dar toda a sua dimensão ao “crescimento do diverso”, como o chamava Victor Segalen. Para isso, era preciso passar pela experiência de um deslocamento do pensamento, criar dissenso e, portanto, fazer dissidência, o que ele chamaria mais tarde de “des-coincidir”.
Isso levou, em particular, François Jullien a questionar nossas próprias categorias de pensamento, aquelas que nos vieram dos gregos, que fundam nossa tradição filosófica e alimentaram a metafísica, mas que foram tão assimiladas que caíram no não-pensado.
Pois ele quis sondar, à maneira de Hegel na prefácio da Fenomenologia do Espírito, esse “bem conhecido”, que se tornou familiar, mas que não por isso é “reconhecido” e refletido pelo pensamento. Por isso mesmo, ele quis abrir outros caminhos, reavivar as possibilidades do espírito, cultivadas em outros lugares e deixadas em pousio ou abandonadas aqui. Como essa desconstrução da filosofia exigia um exterior, a China serviu-lhe de ponto de apoio para fazer alavanca e relançar o pensamento.
Depois de assim utilizar a China como um operador teórico, ele desenvolveu, numa “segunda” fase de seu trabalho, uma reflexão sobre a alteridade, tanto pessoal – o íntimo – quanto cultural; e se propôs a desenvolver uma filosofia em que “ex-istir” seja precisamente a capacidade de se “manter fora” – em ascensão – do atoleiro que ameaça a vida.
Mas como entrar no pensamento da existência? Trata-se de inventar uma conceptualidade fluida, um modo alerta do ensaio em que a construção filosófica não esmague a descrição do ambíguo e do singular.
* François Jullien, nascido em 1951, construiu uma trajetória intelectual que atravessa a filosofia europeia e o pensamento chinês, ocupando posições acadêmicas de prestígio tanto na sinologia quanto na filosofia.