Por baixo da questão do tempo, é a questão do “viver” que se propõe trazer à luz — para abordá-la a novos custos e descolá-la do tempo — assim como as condições de possibilidade de sua assunção pela filosofia.
Viver — não uma vida, da qual se fala de fora — não se passa entre início e fim; viver em si não é da ordem do deslocamento do móvel e da travessia.
Como viver no “presente” se este, segundo sua definição física, não é mais que um ponto sem extensão, um ins-tante sem agora possível? Ou se, segundo sua descrição fenomenológica, a intenção que lhe confere consistência só é concebida na dependência de um objeto temporal — como a melodia percebida, de Agostinho a Edmund Husserl?
Michel de Montaigne, ao término dos Ensaios, sugere, numa fórmula de substituição, não viver no presente, mas “a propósito” — e esse a propósito faz entrever o momento não como lapso de tempo, mas como ocasião ou “ocorrência”, conceito ainda a forjar.