NEEDHAM, Joseph; WANG, Ling. Science and civilisation in China. Cambridge New York Port Chester [etc.]: Cambridge university press, 1991.
(a) INTRODUÇÃO
(b) A CONCEPÇÃO TAOISTA DO TAO
* O Tao, para os taoistas, não era o caminho correto na sociedade humana, mas o modo como o universo funciona, ou seja, a Ordem da Natureza.
O Tao dá origem e nutre todas as coisas por meio de sua Virtude, espontaneamente, sem qualquer mandato, sendo um exemplo da virtude invisível que não reivindica posse nem domínio sobre o que cria.
No Tao Té Ching: “O Tao deu à luz, a Virtude (do Tao) criou… Criá-los, mas não reivindicá-los, controlá-los, mas nunca depender deles, ser o chefe entre eles, mas não dominá-los; isso é chamado de Virtude Invisível.”
O Tao é comparável ao logos de Heráclito, controlando a mudança, e ao Uno de Parmênides, porém baseia-se na natureza física, sem necessidade de metafísica, adotando um naturalismo orgânico.
No Zhuangzi, o Tao é descrito como tendo realidade e evidência, mas nenhuma ação ou forma, existindo por si mesmo antes do Céu e da Terra, não sendo alto, baixo, antigo ou novo.
Os textos taoistas estão repletos de perguntas sobre a natureza, como por que o céu gira ou como a nuvem se torna chuva, buscando mecanismos secretos ou causas naturais, em vez de um controlador consciente.
Em uma entrevista fictícia entre Lao Tzu e Confúcio, o Tao é descrito como algo que produz a energia vital, dá origem às formas e opera por necessidade, sendo o conhecimento verdadeiro contrastado com a aprendizagem superficial dos letrados feudais.
As forças do Yin e Yang, os gostos e desgostos (comparáveis à philia e ao neikos de Empédocles), e os processos de condensação (chü) e rarefação (san) foram conceitos físicos importantes, descobertos independentemente na China e na Grécia antigas.
O texto Liezi exemplifica a aversão taoista à cosmogonia e escatologia, focando na operação do Tao no presente, enquanto uma passagem do Guanzi apresenta a doutrina de que a água é o elemento original de todas as coisas, análoga à de Tales de Mileto.
No Liezi, Chhang Lu Tzu afirma: “Céu e Terra formam apenas um pequeno ponto no meio do Vazio… Céu e Terra devem necessariamente perecer no final.”
No Guanzi: “Agora, a água é o sangue e a respiração da terra… Portanto, dizemos que a água é o material bruto preparatório de todas as coisas.”
© A UNIDADE E ESPONTANEIDADE DA NATUREZA
* A ideia mais enfatizada pelos filósofos taoistas foi a unidade da natureza, a eternidade e a não-criatividade do Tao.
O sábio deve abraçar a Unidade do universo, usando-a como instrumento de teste para tudo.
O Tao não se esgota no maior nem está ausente do menor, estando completo e difuso em todas as coisas, assim como um sábio não deve ter preferências ou preconceitos, cobrindo todas as coisas imparcialmente.
No Zhuangzi, o Tao é descrito como estando nas formigas, nas ervas daninhas, na telha de barro e até no esterco.
Os taoistas rejeitaram a ética da visão de mundo científica em formação, afirmando que o humano não é o único critério, e que critérios éticos não se aplicam fora das relações sociais, exigindo neutralidade ética da ciência.
Os padrões humanos são irrelevantes fora da humanidade, como ilustram as parábolas de Zhuangzi sobre o que é absolutamente certo em termos de habitat, sabor ou beleza.
A natureza é autossuficiente e não criada, com o Tao vindo à existência por si mesmo (tzu-jan), uma afirmação básica do naturalismo científico, na qual a natureza age livre por si mesma, como Lucretius descreveu.
Os sons do vento, descritos no Zhuangzi, são um exemplo naturalista de fenômenos que poderiam ser atribuídos a espíritos, mas que surgem por si mesmos (tzu i), sem qualquer outra agência.
A expressão tzu-jan (espontâneo, natural) tornou-se universalmente adotada para falar de fenômenos naturais, como em Ya, o Grande, que seguiu a natureza da água para projetar canais.
Zhuangzi abordou problemas de causalidade, sugerindo que a dependência de um fenômeno pode ser inconsciente, como as escamas de uma cobra ou as asas de uma cicada, e que no universo o Tao não precisa de consciência para produzir todos os seus efeitos.
No Zhuangzi, a Sombra pergunta: “Tenho que depender (de outra coisa)… E essa coisa tem que depender, por sua vez, (de outra coisa)… Como se pode saber se o movimento é dependente ou independente?”
A ideia de um verdadeiro governante consciente é rejeitada, pois o corpo humano tem todas as suas partes completas sem um governante absoluto, sugerindo que o mesmo se aplica ao universo.
1) Autômatos e a Filosofia do Organismo em Zhuang Zhou
* Parábolas taoistas sobre autômatos, como a de um robô construído por um artífice que se comportava como um ser humano, são significativas para entender o conceito organísmico de Zhuangzi.
No Liezi, o rei descobre que o robô era apenas uma construção de couro, madeira, cola e laca, com órgãos internos artificiais completos, e que a remoção do coração impedia a fala.
O rei, maravilhado, pergunta se a habilidade humana poderia ser comparada à do grande Autor da Natureza, mas a essência da história é a negação de uma orientação consciente nos assuntos do microcosmo.
O pensamento aparece também no Guan Yin Tzu, onde se afirma que carapaças de tartaruga secas e ímãs não têm vontade, mas podem prever o futuro e exercer grande poder atrativo, respectivamente.
2) Taoísmo, Causalidade e Teleologia
* O lema dos taoistas poderia ser “Conhecer as causas”, pois eles acreditavam que todo fenômeno tem uma causa, e o sábio não indaga sobre o bem ou o mal, mas sobre as razões deles.
No Lüshi Chunqiu: “Todos os fenômenos têm suas causas. Se não se conhecem essas causas, embora se possa estar certo… no final ficará perplexo… o sábio não pergunta sobre a bondade ou a maldade, mas sobre as razões delas.”
A negação da teleologia geral é ecoada em uma história do Liezi, onde uma criança de doze anos argumenta que os peixes e os animais de caça não foram criados para o benefício humano, nem os humanos para o de mosquitos e tigres.
(d) A ABORDAGEM À NATUREZA; A PSICOLOGIA DA OBSERVAÇÃO CIENTÍFICA
* Os templos taoistas são conhecidos como guan, cujo significado original é “olhar”, referindo-se à observação do voo dos pássaros para adivinhação, o que aponta para a observação da natureza como raiz do pensamento científico chinês.
A observação da natureza, em oposição à gestão da sociedade, requer uma passividade receptiva e liberdade de teorias preconcebidas, simbolizada pela “água” e pelo “feminino”.
(1) O Símbolo da Água e o Símbolo do Feminino
* O “feminino” e a “água” simbolizam a passividade receptiva necessária para observar a natureza, em contraste com a atividade dominadora da sociedade.
A bondade da água é beneficiar todas as criaturas sem lutar, contentando-se com os lugares que todos desprezam, sendo maleável e refletindo toda a natureza, como uma superfície espelhada.
Os símbolos do feminino e da água têm significado social, levando ao princípio de liderança de dentro, em vez de cima, que é masculino, agressivo e dominador.
O Espírito do Vale, que nunca morre, é nomeado como o Feminino Misterioso, cuja porta é a raiz da qual Céu e Terra surgiram.
A falha posterior em entender esse simbolismo deveu-se à falta de desenvolvimento da ciência experimental na China, mas os taoistas foram às raízes da ciência e da democracia ao enfatizar o tolerante, o receptivo e o permissivo sobre o masculino, dominador e agressivo.
(2) O Conceito de Jang (Condescendência, Cedência)
* A condescendência (jang), que significa ceder, renunciar ao melhor lugar, está ligada à ideia de prestígio obtido pela distribuição de bens (potlatch), uma tradição profunda que atingiu seus maiores picos de expressão nos textos taoistas.
O sábio coloca-se em segundo plano, mas está sempre à frente; não luta por nenhum fim pessoal, e assim todos os seus fins pessoais são realizados.
Do ato de ceder, os estudiosos taoistas passaram a recusar cargos estatais, mesmo quando convocados, um lema ao longo da história (“Nolo episcopari”).
(3) Ataraxia
* O principal motivo dos filósofos taoistas para se engajar na observação da natureza era obter a paz de espírito (ataraxia) que vem de formular hipóteses sobre as manifestações assustadoras do mundo natural.
A paz de espírito protocientífica era conhecida na China como ching hsin, e a ataraxia no mundo grego como ataraxia.
No Tao Té Ching, afirma-se que ao guardar a calma inabalável, pode-se ver o retorno de todas as coisas à raiz, e esse retorno à raiz é chamado de Calma, que é o reconhecimento da Necessidade.
O sábio que regula o Tao nutre seu conhecimento pela calma, chegando a não ser afetado pela tristeza ou pela alegria quando segue o curso da natureza, sendo considerado liberto das amarras.
No Zhuangzi, Chhin Shih afirma: “Quando o mestre veio, foi porque ele teve ocasião de nascer. Quando ele foi, simplesmente seguiu o curso normal… Aqueles que são calmos na época certa… não podem ser afetados pela tristeza ou pela alegria.”
O paralelo com os epicuristas e Lucrécio é próximo: a ciência é o único remédio para os múltiplos medos humanos, dissipando o terror e as trevas da mente não pelos raios do sol, mas pelo aspecto e pela razão da natureza.
Lucrécio afirma: “esse terror da mente, portanto, e as trevas… não os raios do sol nem as setas brilhantes do dia dissipam, mas o aspecto e a razão da natureza.”
A ideia de “Cavalgar na Normalidade do Universo” expressa a sensação de libertação daqueles que se abstraem das triviais contendas da sociedade para se unificar com o grande mundo da natureza.
O Huainanzi afirma claramente que o sábio não se aterroriza com nenhuma operação da natureza, inferindo o distante do próximo e concluindo que as miríades de coisas se baseiam em um único princípio.
(4) Ação Contrária à Natureza (Wei) e seu Oposto (Wu Wei)
* O famoso slogan wu wei (não-ação) foi mal interpretado como “inatividade”, mas significava, para os primeiros filósofos taoistas protocientíficos, “abster-se de atividade contrária à natureza”.
Wu wei não significa ser sereno e não falar, ou meditar e não se mover. Significa que nenhum preconceito pessoal interfere no Tao universal, e que nenhum desejo desvia os verdadeiros cursos das técnicas.
Usar barcos na água, trenós na areia, escavadeiras na lama ou liteiras em caminhos de montanha não é considerado wei (ou yu wei); os sábios, em todos os seus métodos de ação, seguem a Natureza das Coisas.
O Zhuangzi chama o wu wei de senhor de toda a fama, tesouro de todos os planos, capaz de suportar todos os cargos e de tornar aquele que o pratica o senhor de toda a sabedoria.
O comentário de Kuo Hsiang sobre o Zhuangzi esclarece que não-ação não significa não fazer nada e manter silêncio, mas deixar que tudo faça o que naturalmente faz para que sua natureza seja satisfeita.
O wu wei foi conscientemente modelado na operação do Tao da própria Natureza, que não faz nada e, no entanto, realiza tudo, assim como as operações do céu e da terra procedem de forma bela sem falar sobre elas.
No Zhuangzi: “(As operações do) céu e da terra (procedem da) mais bela (maneira), mas não falam sobre elas… Os Sábios traçam as belas (operações do) céu e da terra, e penetram nos princípios intrínsecos de todas as coisas.”