ASHTAVAKRA SAMHITA

VERSÃO FRANCESA

Os dois interlocutores presentes no Ashtâvakra Samhitâ (As Palavras do Oito Vezes Deformado) são o rei Janaka, nome comum entre soberanos ilustres, e o jovem adolescente Ashtâvakra, o Oito Vezes Deformado. Nesse encontro cara a cara, em que o primeiro, longe dos fastos de sua corte, busca junto ao segundo respostas para questões essenciais, surgem temas familiares à tradição indiana: o Conhecimento, a Libertação, a emancipação do Desejo.

Resta uma pergunta: por que oito vezes deformado?

O pensamento indiano gosta de semear em tudo pequenas luzes de sentido, como se tudo o que fosse confiado ao rio da vida merecesse uma parcela de chama, para estar em uníssono com o que é o cosmos, através da imagem de Shiva Natarâjâ (Shiva, o rei dos dançarinos), ou seja, uma dança de fogo.

Vem-nos à mente uma palavra do deus Krishna dirigida ao seu amigo Arjuna (Bhagavad-Gîtâ, VII, 4-5): «Terra, Água, Fogo, Ar, Éter, Pensamento, Consciência e senso do Eu, tais são as oito divisões da minha Natureza.»

Afirmação imediatamente seguida por: “Ela se manifesta, mas saiba que possuo outra natureza, não manifestada, encarnada no ser vivo: é ela que sustenta o mundo.”

À luz do jovem Ashtâvakra, o oito vezes deformado, fisicamente afligido por deformações poucos dias após seu nascimento no mundo dos homens, poderíamos dizer que nascer, encarnar-se em um corpo, já seria como estar “desfigurado” pelas aparências, dividido, fragmentado e, portanto, intrinsecamente desunido. Enquanto Krishna se contenta em enunciar os componentes de toda a natureza humana, sem acompanhá-los de um julgamento, Ashtâvakra acrescentaria o brilho de um quase-sarcasmo: possuir uma forma já é ser deformado, é naufragar na dualidade consubstancial à natureza do mundo, é, desde a origem, uma desintegração. Assim é a vida. Ora, como se sabe, o berço das formas manifestadas é o Ser, o Único sem segundo, essa “outra natureza, não manifestada, encarnada no ser vivo” que Krishna evoca. Essa natureza não tem começo nem fim; o pensamento não pode concebê-la; a palavra não pode expressá-la. Ela é imutável, além do espaço e do tempo.

Assim, a fábula do Mahâbhârata e a “metafísica” do Bhagavad-Gîtâ poderiam se unir. Isso não seria contraditório com o espírito de analogia inesgotável que anima a consciência indiana.