Advaita Vedanta

DEUTSCH, Eliot. Advaita Vedānta: a philosophical reconstruction. Pbk. ed ed. Honolulu: East-West Center Press, 1985.

Introdução

1. O Vedānta, cujo nome significa literalmente “fim do Veda”, compreende os ensinamentos das Upanishads, dos Brahma-sūtras e da Bhagavadgītā e suas diversas sistematizações filosóficas, entre as quais o Advaita Vedānta, desenvolvido principalmente por Śaṅkara, constitui uma orientação não dualista de ampla aceitação entre os filósofos indianos e uma das grandes realizações filosóficas das tradições orientais e ocidentais.

2. O Advaita Vedānta constitui simultaneamente um sistema filosófico e um caminho de realização espiritual, pois conhecer implica um ato de ser consciente cujo conteúdo se manifesta na experiência direta, tornando insuficiente o domínio meramente verbal das doutrinas, assim como a cura exige tomar o medicamento em vez de apenas pronunciar seu nome.

3. A íntima relação entre religião e filosofia no Advaita Vedānta exige evitar tanto sua negação em favor de uma interpretação exclusivamente naturalista do pensamento indiano quanto sua dissolução em uma piedade sentimental imune à crítica racional, porque a orientação para a realização espiritual integra um pensamento rigoroso e não diminui sua condição de filosofia técnica.

4. O fundamento tradicional do Vedānta, que vincula a análise filosófica à interpretação de escrituras antigas consideradas portadoras de uma perspectiva única e coerente, apresenta dificuldades para uma compreensão ocidental que não reconhece sua autoridade religiosa e avalia os sistemas pela capacidade de organizar a experiência humana, revelar novas possibilidades de compreensão da existência e sustentar racionalmente suas intuições, reconhecendo ainda a diversidade de experiências e reflexões presente nesses textos.

5. A reconstrução filosófica do Advaita Vedānta privilegia a análise em relação à exegese e busca formular seu conteúdo significativo em termos universais, preservando a visão essencial do sistema ao explicitar aspectos implícitos e deixar de lado elementos de interesse apenas histórico, sem constituir uma distorção modernizadora nem reivindicar o estatuto de um novo sistema vedântico fundado na interpretação coerente das escrituras.

6. A reconstrução do Advaita Vedānta exige selecionar, em sua extensa literatura, os elementos de interesse filosófico universal e apresentá-los segundo sua dinâmica própria, pois, embora seu contexto de debates com outras escolas indianas seja indispensável à compreensão histórica, a tarefa reconstrutiva ultrapassa a comparação erudita e a exposição doutrinária ao concentrar-se naquilo que permanece filosoficamente vivo.

7. A reconstrução do Advaita Vedānta assume a forma de uma apresentação recriadora que desloca parcialmente essa filosofia de seu contexto histórico e tradicional para torná-la compreensível como sistema de pensamento e caminho de experiência espiritual acessível a qualquer estudante de filosofia.