Sonhos

Sources orientales II. Les songes et leur interprétation. Paris: Seuil, 1959.

Os sonhos e sua interpretação na Índia

1. O domínio dos sonhos recebeu múltiplas formas de exploração na Índia, dando origem a numerosos escritos cujas preocupações, finalidades e relevância variam consideravelmente.

2. As concepções indianas do sonho distribuem-se entre tradições distintas, pois as interpretações budistas diferem das bramânicas, enquanto as crenças populares presentes na religião e nos contos se distinguem das construções filosóficas e místicas elaboradas sobre a experiência onírica.

O bramanismo

1. A tradição bramânica dos sonhos remonta aos Vedas, cujos hinos foram compostos entre os séculos XV e X antes de Cristo, e prolonga-se até obras relativamente tardias, como o Svapnacintamani de Jagaddeva, do século XII.

2. A amplitude dessa literatura exige uma divisão em categorias que, embora apresentem limites imprecisos e frequentemente sobrepostos, permitem organizar suas manifestações mais significativas.

3. A compreensão das concepções bramânicas do sonho exige considerar inicialmente uma antiga teoria já presente nas Upanishads, mesmo que essa precedência altere parcialmente a ordem cronológica das fontes.

4. A teoria dos estados da consciência, amplamente desenvolvida posteriormente pela filosofia da Caxemira, possui origens antigas que estabelecem os fundamentos de suas elaborações posteriores.

A teoria dos quatro estados

1. A alma humana apresenta três estados naturais — vigília, sonho e sono profundo — e um quarto estado extraordinário, correspondente à identidade com Brahman, sendo o sonho uma condição instável na qual a alma alcança domínios inacessíveis à consciência desperta.

2. O movimento jubiloso no sonho manifesta o atman como princípio de imortalidade e segurança, cuja realidade última coincide com Brahman.

3. A Prashna Upanishad associa o sonho à autonomia e à expansão da atividade espiritual, libertada das restrições que delimitam a experiência da vigília.

4. Durante o sonho, o espírito exerce seu poder de expansão ao reviver percepções e experiências anteriores e ao contemplar igualmente aquilo que jamais percebeu, reunindo o experimentado e o desconhecido, o real e o irreal.

5. O sono profundo constitui uma primeira unificação do ser, na qual a multiplicidade das experiências oníricas cede lugar a uma condição de recolhimento interior.

6. Quando o espírito é penetrado por uma claridade sobrenatural, os sonhos cessam e a bem-aventurança instala-se no corpo.

7. A Kaushitaki Upanishad aproxima o sono sem sonhos da morte, compreendendo ambos como movimentos pelos quais o ser humano retorna ao próprio centro.

8. No sono sem sonhos, o ser humano unifica-se no sopro vital, recolhendo nele a palavra e os nomes, a visão e as formas, a audição e os sons.

9. A Brihadaranyaka Upanishad distingue o sonho do sono profundo e evidencia a passagem quase imperceptível entre essas duas condições da consciência.

10. No diálogo entre Ajatashatru e Gargya, o adormecido recolhe suas faculdades ao espaço interior do coração, movimenta-se livremente nos mundos do sonho e, quando deixa de conhecer qualquer objeto, alcança um repouso profundo comparável à bem-aventurança de um soberano ou de um brâmane eminente.

11. A Chandogya Upanishad explica os estados de consciência por uma correspondência mística entre as veias do coração e os raios solares, estabelecendo uma circulação que relaciona o sono sem sonhos à participação na imortalidade de Brahman, identificado com o sol.

12. As veias provenientes do coração e o sol compartilham uma mesma composição cromática, formada por tonalidades castanhas, brancas, negras, amarelas e vermelhas.

13. Os raios solares estabelecem uma comunicação entre o mundo humano e o mundo situado além dele, penetrando nas veias e retornando delas ao sol como uma estrada que liga duas localidades.

14. O sono inteiramente apaziguado e sem sonhos corresponde à entrada nas veias, condição na qual o ser humano se reveste de claridade e perde o contato com o mal.

15. Além do sonho e do sono profundo encontra-se turiya, o quarto estado, no qual a contemplação culmina na identidade com Brahman e na absorção do contemplador na realidade contemplada.

16. Aquele que recolhe os sentidos, purifica o pensamento e contempla o princípio luminoso designado por om torna-se participante de sua condição sem sono, envelhecimento, morte ou sofrimento.

17. A teoria dos quatro estados oferece uma organização filosófica das crenças médicas, astrológicas e populares sobre os sonhos, pois a consciência onírica, parcialmente liberta do peso da realidade concreta, pode aproximar-se do Absoluto e trazer imagens simbólicas de acontecimentos ainda inacessíveis aos sentidos.

18. As visões relativas e provisórias obtidas no sonho refletem uma realidade única, contínua e eterna, de modo que cada temperamento humano constitui uma configuração particular na qual se inscrevem experiências oníricas correspondentes.

19. A validade das interpretações dos sonhos encontra sua garantia nos estados superiores de sono sem sonhos e de imersão no Absoluto.

As chaves dos sonhos

1. A preocupação com a interpretação dos sonhos já aparece de maneira embrionária nos Vedas, que reconhecem experiências oníricas capazes de anunciar perigos.

2. A proteção de Varuna é invocada contra ameaças manifestadas em sonho por aliados, amigos, ladrões ou lobos, atribuindo-se à divindade o poder de afastar seus efeitos temidos.

3. O Atharva Veda, no qual predominam os hinos mágicos, associa os sonhos inquietantes a outras manifestações consideradas funestas.

4. A amuleta funciona como uma defesa contra o sonho ameaçador, protegendo o adormecido assim como o preserva de outros sinais adversos, como o espirro e a voz agourenta do corvo.

O 68º Parishishta do Atharva Veda

1. Embora o Atharva Veda já reconheça sonhos como sinais, seu 68º Parishishta apresenta a primeira verdadeira chave dos sonhos conservada, integrada a um conjunto de anexos versificados especialmente dedicados aos presságios.

2. Esse antigo tratado remete a uma obra anterior atribuída a Kroshtuki e transmitida a Shaunaka, cuja existência é conhecida apenas por essa referência e que teria servido de modelo ao texto preservado.

3. A extensão da obra, suas digressões, a corrupção de numerosos versos e a disposição desordenada dos termos dificultam uma interpretação segura, sobretudo porque as correspondências entre sonhos e significados frequentemente escapam a critérios racionais e dependem do esclarecimento fornecido pela tradição posterior.

4. O tratado divide-se em cinco capítulos, começando pela classificação dos temperamentos humanos e dos sonhos característicos de cada um.

5. A classificação distingue o temperamento bilioso, relacionado ao fogo, o fleumático, relacionado à água, e o aéreo ou sanguíneo, relacionado ao ar, articulando essas disposições também a correspondências planetárias.

6. O temperamento bilioso manifesta-se em sonhos dominados por calor, tonalidades douradas e vermelhas, paisagens áridas, vegetação ressequida, florestas incendiadas, corpos ensanguentados, imagens divinas danificadas e uma lua avermelhada.

7. Flores e árvores associadas a cores intensas, meteoros, relâmpagos e incêndios prolongam o predomínio das imagens ígneas nos sonhos das pessoas biliosas.

8. A ingestão abundante de água em rios, lagos e fontes exprime, nos sonhos biliosos, a necessidade de compensar o calor que caracteriza esse temperamento.

9. Banhos, sede, conflitos, dores, humilhações e exaustão integram os sonhos biliosos, nos quais o sofrimento provocado pelo calor acompanha a procura de frescor.

10. O conjunto dessas imagens permite reconhecer o temperamento bilioso por meio dos sonhos que exprimem suas características próprias.

11. O temperamento fleumático manifesta-se em sonhos de águas claras e frescas, neve, vegetação aquática, riquezas, animais e paisagens luminosas, cuja abundância corresponde a uma natureza marcada pela fome e pela sede.

12. A claridade lunar, os lótus brancos, os templos esplêndidos, os frutos, as oferendas, os produtos lácteos, as mulheres perfumadas e as plantas doces ampliam o universo onírico fleumático, dominado por frescor, brancura, fertilidade e abundância.

13. A recorrência dessas imagens caracteriza os sonhos próprios das pessoas de natureza fleumática.

14. O temperamento sanguíneo apresenta sonhos dominados pelo vento, por tempestades, astros obscurecidos, nuvens em movimento, aves errantes, animais inquietos e paisagens cujos elementos se deslocam, chocam-se ou caem.

15. A instabilidade e a mobilidade dessas imagens constituem manifestações oníricas características do temperamento sanguíneo.

16. Os sonhos conformes ao temperamento ou compensatórios de uma deficiência sensorial não constituem presságios, assim como os sonhos esquecidos não produzem efeitos; quando vários sonhos se sucedem, somente o último deve ser interpretado, considerando-se também o momento da noite em que ocorreu.

17. Os sonhos da primeira vigília realizam-se no prazo de um ano, os da segunda em oito meses, enquanto os da terceira já se encontram parcialmente realizados.

18. As correspondências entre imagens oníricas e acontecimentos futuros ocupam grande parte do tratado, formando extensas listas de sinais cuja interpretação depende de associações tradicionais.

19. A posse simbólica da terra, do oceano, dos astros e das forças naturais, o domínio de um exército ou a obtenção de leite anunciam boa fortuna.

20. A imersão num mar de sangue, a ascensão de uma montanha num carro puxado por leões e o domínio da terra ou das montanhas sobre animais claros constituem igualmente sinais favoráveis.

21. A unção real recebida em sonho de um brâmane ou de um príncipe anuncia a aquisição da soberania.

22. A decapitação e a destruição de um carro ensanguentado podem anunciar comando militar, longevidade e ganhos materiais, evidenciando que imagens aparentemente terríveis recebem interpretações auspiciosas.

23. A mutilação de diferentes partes do corpo associa-se a benefícios específicos, como glória, conhecimento, descendência, riqueza e felicidade ampliada ou suprema.

24. A visão de insígnias, espelhos, frutos, adornos brancos, alimentos e sangue integra o conjunto dos sonhos considerados favoráveis.

25. Armas, estandartes, símbolos de realeza e águas límpidas também constituem sinais auspiciosos.

26. Divindades, governantes, casas brancas, árvores frutíferas, astros, sons agradáveis e outras imagens luminosas anunciam boa fortuna quando o despertar ocorre imediatamente após sua visão.

27. O corpo coberto de sangue ou veneno anuncia alegria, enquanto o corpo consumido ou inchado pode anunciar a aquisição de terras.

28. O sofrimento experimentado em sonho pode anunciar felicidade, e a própria morte pode constituir um sinal de longevidade.

29. Ouro, aves junto a um lago de lótus, um elefante em cio e correntes de ferro correspondem a diferentes formas de obtenção de uma mulher ou de realização matrimonial.

30. A classificação dos sonhos inclui também presságios desfavoráveis, cujas previsões se repetem sob diversas formas na continuidade do tratado.

31. A queda da lua, do raio ou do sol anuncia perigo para um soberano.

32. A instabilidade do oceano ou das montanhas pressagia uma revolução.

33. A queda dos cabelos, da barba e das unhas constitui um sinal de tristeza.

34. Certos alimentos, roupas deterioradas ou desarranjadas, répteis, animais de rapina, inimigos e figuras negras, com exceção de reis e brâmanes, anunciam sofrimento e aflição.

35. O manuseio ou a colheita de lótus e de outras plantas aquáticas pressagia a amputação de um braço.

36. A experiência de ser arrastado por uma torrente anuncia a morte por afogamento.

37. A entrada de um camaleão, de um lobo ou de um homem de tez avermelhada no leito anuncia um dano à esposa do sonhador.

38. A morte de determinadas serpentes ou a decapitação de uma serpente negra anuncia a morte do filho.

39. Os efeitos de um sonho desfavorável podem ser suspensos mediante práticas religiosas destinadas a neutralizar seu poder.

40. O culto às figueiras sagradas, as doações de gergelim, o contato com uma vaca, as oferendas aos brâmanes e os ritos de expiação e prosperidade afastam os efeitos dos sonhos adversos.

41. O culto aos deuses mediante presentes de roupas e ouro, assim como a frequência a mestres e recintos de vacas, integra as práticas protetoras.

42. A visão de brâmanes, touros, cavalos e príncipes é considerada benéfica pela tradição.

43. Após um sonho matinal de mau agouro, o despertar imediato e a lavagem do rosto com água recolhida numa confluência de rios constituem medidas de proteção.

44. Para um soberano que pretende iniciar uma campanha militar, a interpretação deve ser precedida pela produção deliberada de sonhos significativos mediante condições rituais favoráveis.

45. A preparação para uma expedição exige ritos de prosperidade, vestimentas brancas, silêncio, domínio dos sentidos, consagração do solo e concentração antes de dormir, cabendo partir diante de sonhos favoráveis e buscar a paz diante de sonhos adversos.

46. A vitória sobre elefantes ou homens e a posse de oferendas ou guirlandas brancas autorizam a campanha militar, mesmo quando essas imagens são acompanhadas por lamentações.

47. Imagens de impureza, roupas vermelhas ou sujas, prazeres e comportamentos inadequados, montarias desfavoráveis, perda das insígnias, morte dos animais reais e queda do estandarte recomendam abandonar a expedição.

48. As correspondências entre imagens favoráveis ou desfavoráveis e seus efeitos mantêm-se relativamente constantes ao longo dos séculos, reaparecendo no Svapnacintamani de Jagaddeva.

O Garuda Purana

1. Os Puranas preservam a distinção entre sonhos decorrentes do temperamento ou da experiência diurna e sonhos enviados pelos deuses, mas o Garuda Purana acrescenta sonhos perturbadores atribuídos aos mortos, cujo objetivo consiste em atormentar os vivos e obter ritos em seu benefício.

2. Os mortos, atormentados pela fome e pela sede, regressam à própria residência e manifestam sua presença por formas e sonhos característicos.

3. Com corpos aéreos, os mortos penetram no espírito de familiares adormecidos e assumem diferentes figuras, incluindo as de elefantes, cavalos e touros.

4. O despertar numa cama desarrumada ou fora do leito é interpretado como indício de perseguição por fantasmas.

5. Sonhar com aprisionamento, pedidos de alimento ou ações moralmente condenáveis pode indicar a interferência dos mortos.

6. Comer e fugir em seguida ou beber água sob o efeito de intensa sede também integra o conjunto dos sonhos atribuídos aos fantasmas.

7. Aproximar-se de um carro de bois, voar em direção ao céu ou procurar um lugar sagrado por debilidade causada pela fome constitui outra manifestação dessa influência.

8. A visão da morte de familiares, mestres ou soberanos que permanecem vivos é atribuída à ação dos fantasmas.

9. Pedidos de água recebidos em sonho, acompanhados pela fome e pela sede do próprio sonhador, indicam a presença perturbadora dos mortos.

10. A realização de oferendas funerárias num lugar sagrado também pode revelar que o sonhador se encontra sob a influência dos fantasmas.

11. A saída noturna de familiares ou do gado da residência constitui outra imagem onírica atribuída à ação dos mortos.

12. A proteção exige comunicar os sinais a um adivinho, realizar abluções e sacrifícios funerários em locais apropriados e homenagear um mestre dos Vedas com oferendas de cevada negra, afastando os obstáculos e favorecendo o caminho da libertação.

O Svapnacintamani de Jagaddeva

1. O tratado de Jagaddeva reúne uma ampla classificação dos sonhos e condensa os ensinamentos dispersos da tradição bramânica, demonstrando sua vitalidade no século XII, embora apresente pouca originalidade em relação às fontes anteriores.

2. Voltar a dormir depois de um sonho impede que ele produza seus efeitos.

3. A meditação sobre Vishnu, Shiva, Brahma, o sol e os lugares sagrados dos rios antes de adormecer protege contra os sonhos desfavoráveis.

4. Depois de um sonho adverso, é necessário voltar a dormir, mesmo ao final da noite, e conservar absoluto silêncio sobre seu conteúdo, impedindo assim sua realização.

Os tratados médicos

1. A medicina indiana incorpora a correspondência entre temperamentos e sonhos, já esboçada no Atharva Veda, empregando a experiência onírica como instrumento de avaliação do estado do paciente.

2. A função médica dos sonhos consiste sobretudo em estimar as possibilidades de cura, permitindo decidir se o tratamento deve ser iniciado.

3. A Sushruta Samhita e a Caraka Samhita, compostas no início da era cristã e provavelmente baseadas em materiais anteriores, dedicam capítulos inteiros aos sonhos.

4. A avaliação onírica da morte e da recuperação considera tanto os sonhos do paciente quanto os de seus amigos.

5. O deslocamento para o sul com o corpo untado de óleo e acompanhado por determinados animais constitui um sinal desfavorável.

6. Ser conduzido para o sul, amarrado, por uma mulher negra vestida de vermelho, de aparência desordenada e comportamento inquietante, integra os sonhos associados à morte.

7. O deslocamento para o sul por influência de companheiros ou a presença de mortos ao redor do sonhador anuncia igualmente um desfecho adverso.

8. Ser agarrado por figuras deformadas, ingerir mel ou óleo e gesticular ou rir num ambiente de lama são imagens incluídas entre os sinais funestos.

9. A nudez acompanhada por uma guirlanda vermelha e o crescimento de vegetação a partir do ventre constituem manifestações oníricas desfavoráveis.

10. Ser devorado por um peixe ou penetrar no corpo da própria mãe pertence ao conjunto das imagens associadas à perda do paciente.

11. Quedas, afogamento, perda do cordão bramânico e aprisionamento por aves de mau agouro anunciam um destino fatal.

12. A queda dos astros, a extinção de uma lâmpada, a perda de um olho e o tremor da terra ou das imagens divinas constituem sinais adversos.

13. Vômitos, evacuações e queda dos dentes também integram os sonhos considerados funestos.

14. Subir em determinadas árvores floridas, formigueiros, piras funerárias ou postes sacrificiais constitui uma imagem desfavorável.

15. Receber ou ingerir algodão, ferro, sal, gergelim e certos alimentos, ou beber álcool, anuncia adoecimento para quem está saudável e morte para quem já está doente.

16. Os sonhos explicáveis pelo temperamento, pelo esquecimento, pela oposição de outros sonhos ou pela recomposição imaginária das experiências diurnas não devem receber valor prognóstico.

17. Certas associações oníricas entre doenças e animais, demônios ou fantasmas constituem sinais de agravamento fatal.

18. A representação onírica de ações e imagens diretamente relacionadas a determinadas doenças, como beber água, ingerir gordura ou sangue e apresentar árvores crescendo no corpo, é interpretada como anúncio de morte.

19. Sonhos funestos ocorridos pela manhã exigem despertar imediato, doações aos brâmanes e recitação de fórmulas auspiciosas.

20. Quando esses sonhos ocorrem na primeira vigília, convém voltar a dormir depois de meditar sobre um assunto favorável ou recitar os Vedas com concentração e castidade.

21. O silêncio sobre o sonho adverso e a permanência durante três noites num templo, com homenagens contínuas aos sacerdotes, permitem neutralizar seus efeitos.

22. A classificação médica inclui também sonhos auspiciosos, capazes de anunciar felicidade, recuperação e prolongamento da vida.

23. A visão de deuses, brâmanes, bovinos, amigos vivos, reis, fogo aceso, homens santos e águas puras anuncia felicidade para a pessoa saudável e recuperação para a doente.

24. Peixes, guirlandas brancas, flores e frutos anunciam aumento de riqueza ou cura no prazo de um mês.

25. Subir a uma terraça elevada, a uma árvore frutífera, a um elefante ou a uma montanha anuncia aquisição de bens e desaparecimento da doença.

26. A travessia de rios, lagos ou oceanos de águas agitadas anuncia acontecimentos favoráveis e recuperação da saúde.

27. Picadas de serpentes, sanguessugas ou abelhas podem constituir presságios de saúde e riqueza.

28. A presença de sonhos auspiciosos permite considerar o paciente dotado de longevidade e justifica o início dos procedimentos médicos adequados.

O sonho na literatura propriamente dita

1. Além de sua presença em obras filosóficas e mágicas, os sonhos desempenham papel decisivo nas epopeias, no teatro e nos romances indianos, servindo tanto de fundamento dramático quanto de impulso para narrativas de busca amorosa.

Os sonhos paralelos

1. No Kathasaritsagara de Somadeva, a história de Vikramaditya e Malayavati desenvolve o motivo dos sonhos paralelos, pelos quais um rei e uma princesa desconhecidos entre si experimentam reciprocamente uma união amorosa.

2. A chegada ao palácio de um manuscrito com o retrato de uma mulher extraordinária estabelece a circunstância inicial do sonho do rei.

3. Depois de contemplar o retrato, o rei sonha com uma jovem semelhante numa região distante, experimenta a felicidade da união e, interrompido pelo despertar, conclui que a coincidência entre imagem e sonho confirma a existência real da amada.

4. Enquanto o rei descreve minuciosamente seu sonho aos adivinhos, a princesa sonha com ele num reino distante, sem que nenhum dos dois coloque em dúvida a realidade da pessoa contemplada.

5. Malayavati, anteriormente avessa aos homens, apaixona-se por uma figura encontrada em sonho, imagina conduzi-la ao palácio e casar-se com ela, e, ao despertar, permanece atormentada pela separação daquele que reconhece como amado.

6. Após os obstáculos próprios da narrativa amorosa, Vikramaditya e Malayavati encontram-se e realizam na vigília a união antecipada pelos sonhos.

Os sonhos provocados

1. Outro conto do Kathasaritsagara, ambientado numa sociedade budista, apresenta um sono sutil provocado por meios mágicos para revelar fatos que escapam à percepção sensorial.

2. A busca de um rei pela grande Lei dos bodhisattvas exige verificar se subsistem imperfeições ocultas que impedem sua prática.

3. Mediante um sono sutil ensinado por um monge, o rei sonha que ingressa no outro mundo e descobre a consequência de uma crueldade anteriormente cometida, recebendo a indicação de uma reparação necessária para expiar a falta.

4. A repetição dessa experiência permite ao rei reconhecer progressivamente faltas escondidas no inconsciente, atribuindo ao sonho uma função de investigação psicológica vinculada às preocupações características do budismo.

As doutrinas do sonho na Caxemira

1. O sistema filosófico e místico Trika, próprio do shivaísmo da Caxemira, desenvolve amplamente a teoria dos quatro estados e atribui à sua própria origem um sonho no qual Shiva teria revelado a Vasugupta a existência dos Shivasutras.

2. A revelação onírica surge como manifestação da graça de Shiva destinada a preservar a tradição esotérica num mundo humano predominantemente marcado por concepções dualistas.

3. Seguindo a indicação recebida em sonho, Vasugupta encontra uma rocha que se volta ao contato de sua mão e revela os Shivasutras, confirmando a correspondência entre a experiência onírica e a realidade.

4. O Vijnanabhairava inclui, entre suas numerosas modalidades de meditação, uma prática destinada à produção e ao domínio dos sonhos.

5. A meditação sobre a energia de uma respiração lenta e sonora, associada ao recolhimento no coração no momento de adormecer, permite alcançar o domínio da experiência onírica.

6. A Spandakarika relaciona a liberdade do praticante durante o sonho à capacidade de realizar desejos mediante práticas respiratórias também empregadas na vigília.

7. O recolhimento profundo na transição entre vigília e sono permite ao praticante receber do Senhor a realização dos fins procurados durante o sonho.

8. No sono próprio do yoga, a respiração lenta e sonora e a concentração no objeto desejado permitem que o princípio supremo revele aquilo a que o praticante aspira interiormente.

9. A produção deliberada de um sonho aderente ao Real exige condições que conferem domínio sobre as imagens, os seres percebidos e os estados espirituais envolvidos.

10. A consciência do praticante deve permanecer desperta para a realidade do Si mesmo durante o sono, pois o quarto estado penetra a vigília, o sonho e o sono profundo.

11. A permanência na junção dos estados exige um meio-sono que articula a consciência desperta e o adormecimento.

12. A prática respiratória anterior ao sono deve conduzir à junção entre expiração e inspiração, ponto de contato com a energia pura que determinará a visão desejada.

13. A iniciação em sonho por Shiva ou por figuras femininas sobrenaturais integra a tradição dessa escola, enquanto o Tantraloka descreve um ritual no qual mestre e discípulo, após purificações, oferendas e atos divinatórios, dormem junto ao fogo sacrificial.

14. A identidade de consciência entre mestre e discípulo permite que ambos tenham o mesmo sonho.

15. O sonho compartilhado indica a eliminação da impureza produzida pelos atos e a manifestação clara da consciência.

16. Um sonho favorável autoriza o mestre a anunciar êxito ao discípulo, enquanto um sonho desfavorável exige oblações adicionais, realizadas sem lhe comunicar o presságio.

17. O sonho comum torna-se possível porque o mestre se identifica com Shiva e identifica o discípulo consigo mesmo, sendo qualquer sonho adverso destituído de eficácia quando o discípulo possui plena consciência de sua identidade com a divindade.

O budismo

O aspecto filosófico do sonho

1. A realidade dos sonhos tornou-se objeto de controvérsia entre escolas budistas, embora o Milinda Panha já distinguisse anteriormente sonhos correspondentes a uma realidade e sonhos desprovidos dessa correspondência.

2. O caráter composto dos antigos escritos budistas dificulta sua datação precisa, mas o Milinda Panha, organizado em torno das discussões entre o rei Menandro e o religioso Nagasena, preserva uma investigação específica sobre a natureza dos sonhos.

3. No diálogo entre Milinda e Nagasena, o sonho consiste no surgimento de sinais nos caminhos do pensamento, distinguindo-se seis origens possíveis — três temperamentos, influência divina, experiências anteriores e premonição —, das quais somente a última é considerada verdadeira; seu sinal apresenta-se espontaneamente à mente, sua interpretação depende de outras pessoas e sua ocorrência exige um estado intermediário de sono leve, pois o sono profundo torna o pensamento inativo.

4. A reflexão budista antiga sobre o sonho compartilha elementos com as concepções bramânicas, mas apresenta uma elaboração própria que se distingue das manifestações predominantemente lendárias presentes em outras fontes.

O aspecto familiar

1. O Divyavadana situa os sonhos num ambiente narrativo cotidiano, no qual o rei Ashoka recebe sinais inquietantes enquanto a rainha Tishyarakshita utiliza clandestinamente seu selo para ordenar a morte do príncipe Kunala.

2. Os sonhos de Ashoka, inicialmente apresentados pela rainha como favoráveis, anunciam a mutilação e a morte do filho segundo a interpretação dos adivinhos, levando o rei a ordenar sacrifícios urgentes para afastar a ameaça.

Os sonhos na lenda do Buda

1. Os sonhos mais célebres do budismo concentram-se na pessoa do Buda, seja como presságios relativos à sua existência, como experiências interpretadas por ele ou como sonhos que ele próprio teve.

Os Jatakas

1. Os Jatakas narram as existências anteriores do Buda como bodhisattva, ao longo de um percurso de renascimentos que culmina na iluminação suprema e na saída do ciclo das existências.

2. A memória das vidas anteriores permite ao Buda narrar suas experiências e explicitar seu sentido moral, como na história dos dezesseis sonhos do rei de Kosala, cujos presságios, inicialmente apresentados pelos brâmanes como ameaças imediatas, são submetidos à interpretação esclarecedora do Mestre por conselho da rainha Mallika.

3. O sonho dos quatro touros que se aproximam para combater, mas apenas mugem e se dispersam, anuncia uma época futura de injustiça na qual nuvens e trovões prometerão chuvas que não cairão, provocando seca e fome, sem representar perigo imediato para o rei.

As lendas da vida do Buda

1. A última existência do bodhisattva é marcada por numerosos sonhos, entre os quais três episódios do Lalitavistara assinalam o percurso que vai de seu nascimento à Grande Partida.

2. O Lalitavistara reúne tradições antigas numa narrativa da vida do Buda redigida em sânscrito budista, preservando passagens arcaicas e ocupando uma posição intermediária entre tradições do Hinayana e do Mahayana.

3. O sonho de Maya, no qual o bodhisattva entra em seu ventre sob a forma de um elefante, anuncia a concepção do futuro Buda e torna-se um motivo recorrente de sua representação iconográfica.

4. A entrada do elefante branco no ventre de Maya é interpretada pelos brâmanes como anúncio do nascimento de um ser dotado de marcas extraordinárias, destinado à soberania universal ou à renúncia que o tornará Buda para o benefício dos mundos.

5. Depois do sonho materno que anuncia a chegada do Buda, um sonho de Shuddhodana antecipa o cumprimento das previsões referentes à renúncia do príncipe.

6. A visão do bodhisattva saindo de casa acompanhado por deuses e vestido como monge errante convence Shuddhodana de que a partida do filho ocorrerá, embora ele ainda permaneça no palácio.

7. À proximidade da renúncia, Gopa também recebe sonhos inquietantes, interpretados com ternura pelo próprio esposo numa passagem antiga e linguisticamente arcaica do Lalitavistara.

8. As visões de Gopa, compostas por terremotos, quedas de astros, árvores arrancadas, mutilações, adornos dispersos e destruição de símbolos reais, são reinterpretadas pelo príncipe como presságios favoráveis de libertação do sofrimento, reconhecimento espiritual, transformação de sua condição e realização da missão iluminadora do Buda.

Os sonhos de iluminação

1. O Anguttaranikaya reúne cinco grandes sonhos do Buda anteriores ao despertar perfeito, relacionando suas imagens às etapas da iluminação e à expansão posterior de seu ensinamento.

2. O primeiro sonho apresenta a terra como leito, o Himalaia como travesseiro e os mares como apoio dos membros, configurando uma imagem de alcance universal.

3. O segundo sonho mostra uma planta crescendo do umbigo e elevando-se até as nuvens.

4. O terceiro sonho apresenta vermes brancos de cabeça negra que sobem dos pés até os joelhos e os recobrem.

5. O quarto sonho mostra quatro aves de cores diferentes, vindas dos pontos cardeais, que se tornam brancas ao cair aos pés do Buda.

6. O quinto sonho apresenta o Buda caminhando sobre uma grande montanha de esterco sem ficar maculado.

7. A extensão do corpo sobre a terra e os mares anuncia a passagem do bodhisattva à condição de despertar completo.

8. A planta que alcança as nuvens anuncia a difusão de sua fama entre deuses e seres humanos.

9. Os vermes que recobrem os membros representam os numerosos chefes de família que buscarão refúgio no Buda.

10. As quatro aves representam as quatro castas que adotarão seu ensinamento e alcançarão a libertação suprema.

11. A travessia da montanha de esterco sem contaminação representa o recebimento de vestimentas, alimentos, abrigo e medicamentos sem que se estabeleça apego a esses recursos.

12. O sonho funciona nas tradições indianas como meio de comunicação entre o mundo das aparências e uma realidade que ultrapassa a experiência ordinária, enquanto sua interpretação e seus ritos de proteção organizam o medo do desconhecido e procuram submetê-lo a formas reconhecíveis.

13. As semelhanças entre as interpretações dos sonhos coexistem com diferenças de contexto religioso e literário, tornando visíveis as variações de uma mesma disposição mental e, sobretudo, a oposição entre perspectivas bramânicas e budistas.

14. As concepções bramânicas privilegiam explicações e correspondências intemporais, enquanto as narrativas budistas situam os sonhos em circunstâncias históricas determinadas, localizando-os no tempo e no espaço mesmo quando possuem caráter lendário.

15. O domínio onírico preserva, portanto, as características próprias das duas grandes correntes do pensamento indiano, apresentando nas antigas narrativas budistas uma tonalidade humana pouco encontrada nos escritos bramânicos contemporâneos ou posteriores.