LEVY, John. The Nature of man according to Vedanta. London: Routledge, 1956.
Vigília, Sonho e Sono sem Sonhos
I – CAPÍTULO INTRODUTÓRIO
1. A quem se dirige este método de investigação?
1. Como a impressão das obras vedânticas e sua tradução para línguas estrangeiras romperam a antiga garantia de que o leitor, criado na tradição viva, compreenderia os versos aforísticos, já não se pode presumir familiaridade com o tema nem mesmo entre estudantes sérios, de modo que a exposição do Advaita, a Não-Dualidade, pressupõe apenas leitores que buscam o conhecimento da verdade última, com mente aberta e capacidade de ir além da palavra escrita, e recusa as concessões nascidas do desejo pueril de converter os outros.
2. O desejo de felicidade
1. A felicidade é o único fim da vida, embora a incerteza diante da morte impeça a maioria de admiti-lo sem reservas, e como nos momentos de felicidade, ou quando se enfrenta o perigo por dever ou prazer, deixa-se de identificar-se com o corpo, é possível transcender essa falsa identificação de modo consciente e definitivo, pois o eu que observa e recorda as mudanças do corpo é por natureza distinto dele, e o retorno a esse centro imutável e consciente traria paz e felicidade permanentes, na certeza de que o que afeta o corpo não pode afetar o eu.
3. Os três estados do homem
1. Encontrar uma paz que ultrapasse toda circunstância, inclusive a morte, exige discernir o princípio imutável interior por meio do exame da experiência humana como um todo, compreendida nos três estados de vigília, sonho e sono sem sonhos, os quais devem ser considerados não apenas do ponto de vista limitado da vigília, mas do ponto de vista próprio de cada um, do ponto de vista comum à vigília e ao sonho e do ponto de vista que transcende todo estado, que é o do eu real, inalterado do nascimento à morte e para além deles.
II – VIGÍLIA E SONHO
1. O estado de vigília
1. O estado de vigília consiste, segundo a concepção comum, em pensar e sentir na presença de objetos tangíveis, percebidos pelos cinco órgãos de percepção sensorial, aqui designados coletivamente como sentidos corporais.
2. O estado de sonho
1. Embora, do ponto de vista da vigília, o sonho conste apenas de pensamento e sentimento, o sonhador ignora que sonha, pois em sua experiência também percebe objetos tangíveis, de modo que o estado de sonho se define exatamente nos mesmos termos que o estado de vigília.
3. Uma primeira comparação entre vigília e sonho
1. Considerados cada um de seu próprio ponto de vista, vigília e sonho não apresentam diferença alguma, e esta só surge quando o sonho é julgado do ponto de vista da vigília, que se arroga ser a única experiência real e reconhece, ao despertar, que o mundo onírico e o corpo onírico que o percebia eram produtos da mente, o que levanta a questão de saber se os pensamentos do homem desperto e a experiência inteira do sonhador não seriam equivalentes.
4. Uma comparação entre pensamento e sonho
1. Apesar de se saber que ambos são mentais, supõe-se que o pensamento difira do sonho em vários aspectos, e essas pretensas diferenças merecem exame.
2. A alegação de que os sonhos derivam da experiência de vigília, sem dela se distinguirem, aplica-se igualmente aos pensamentos que ocorrem no estado de vigília.
3. A alegação de que certos sonhos procedem de um depósito latente de impressões, chamado pela psicologia contemporânea de mente subconsciente, vale também, admitida a existência desse subconsciente, para certos pensamentos.
4. Do ponto de vista da consciência, o que não é agora seu objeto não existe agora, e por isso a expressão “mente subconsciente” acabará por revelar-se uma contradição em termos.
5. A alegação de que o corpo e a mente oníricos fazem ou pensam o que o corpo e a mente despertos não podem é verdadeira quanto aos corpos, mas não quanto aos pensamentos, pois tudo o que se pode sonhar também se pode imaginar, como voar, conversar com os mortos ou com desconhecidos, situar-se em outros mundos e épocas, ou ter o corpo em outra condição de saúde e idade e a mente disposta de outro modo.
6. A alegação de que o pensamento de vigília pode ser deliberado, enquanto o sonho parece sempre involuntário ao homem desperto, é uma confusão, pois se ao sonho se entra involuntariamente, o mesmo ocorre com a vigília, e tanto num estado como no outro parece possível escolher os próprios pensamentos.
7. A suposição de que os acontecimentos oníricos ocupam menos tempo do que ocupariam na vigília confunde o padrão temporal da percepção de objetos tangíveis com o do pensamento sobre eles, quando são dois padrões distintos, e como pensar num acontecimento não exige mais tempo que sonhá-lo, e como o sonhador também vive sua experiência como vigília divisível em pensamento e percepção, não há variação necessária entre pensamento e sonho quanto à experiência do tempo.
5. A equivalência entre pensamento e sonho
1. Fica estabelecida a equivalência entre pensamento e sonho, ambos estados de atividade mental, e qualquer diferença de detalhe que se descubra não passa da diferença entre um modo de pensamento e outro.
6. Uma comparação adicional entre vigília e sonho
1. Sendo pensamento, sentimento e percepção de objetos tangíveis comuns à vigília e ao sonho, e revelando-se o sonho, ao despertar, um produto mental em todos os seus aspectos, embora fosse vigília para o sonhador, nada autoriza supor que a vigília presente seja outra coisa senão um produto mental, pois os objetos tangíveis não têm existência independente e existem como noções na mente de quem percebe, o que torna irreal a distinção entre mente e matéria e entre pensamento e percepção, de modo que estar desperto perde o sentido e tudo é sonho, embora “sonho”, nome dado apenas a partir de uma vigília inexistente, seja também uma designação imprópria.
7. A necessidade de definir a experiência objetiva
1. Vistos agora a partir do eu único, imutável e consciente que permeia e ilumina toda a experiência objetiva, vigília e sonho não apresentam diferença essencial, e por isso é preciso encontrar um termo que descreva igualmente todos os estados em que a mente está ativa.
8. Dualidade
1. Vigília e sonho são estados de atividade mental caracterizados pela presença de um conhecedor e de um conhecido, de um pensador e de um pensamento, um consciente do outro, e por isso a atividade mental se define como o estado de dualidade, a dualidade de sujeito e objeto.
III – SONO SEM SONHOS E O EU REAL
1. Sono sem sonhos
1. O sono sem sonhos define-se como o estado em que desapareceu a aparente dualidade de sujeito e objeto, e embora sua característica negativa seja a ausência de atividade mental, isto é, de pensamento, sentimento e percepção sensorial, de seu próprio ponto de vista ele deve ser positivo, pois a mera negação não pode ser experimentada, de modo que dizer ao despertar que se dormiu profundamente sem nada saber é julgá-lo apenas do ponto de vista da dualidade, que o vê como nesciência, e nenhum termo positivo da vigília e do sonho se lhe aplica literalmente, embora três aspectos positivos permitam reconhecer sua verdadeira natureza.
2. Assim como quem vê uma caneta na palma de uma mão responde, quando ela é retirada, que nada vê, embora veja a palma, também a ausência de objetos no sono é tomada por nada, quando algo permanece presente.
2. A experiência do sono
1. Como não se deixa de existir ao dormir, embora toda experiência objetiva e individual tenha desaparecido, o sono profundo é em si o estado de ser incondicionado, no qual permanece um princípio que transcende qualidades e acidentes, próprios da objetividade.
2. Como ao despertar se tem consciência de haver dormido profundamente, embora a ausência como tal jamais possa ser experimentada, o sono profundo é em si o estado de não-dualidade, no qual o princípio da consciência permanece sem assumir a dualidade de um sujeito consciente e seu objeto.
3. A confiança com que se antecipa o deleite do sono profundo e a sensação de privação real na insônia provam que o sono profundo, de seu próprio ponto de vista, é o estado de contentamento de si, em que, desaparecidos o desejo e seus objetos com a cessação da atividade mental, resta o significado positivo da ausência de desejo.
3. A unicidade da experiência não mental
1. Ser incondicionado, consciência não dual e paz perfeita, as três características do sono profundo, correspondem aos três constituintes da experiência individual, vida, pensamento e sentimento, mas são apenas aspectos do eu real, que é único porque observa e por isso transcende a variedade da experiência objetiva, e imutável porque permanece inalterado pelo aparecimento ou desaparecimento dessa variedade, e como nada se poderia saber dele se o estado incondicionado fosse abandonado ao entrar-se no domínio objetivo, segue-se que a não-dualidade persiste como fundo da dualidade.
4. Uma objeção
1. Contra a descrição do sono como estado de ser incondicionado pode-se objetar que a mente, embora suspensa, não pode estar inteiramente ausente, pois de outro modo o adormecido não poderia ser despertado por sensações.
5. A objeção refutada
1. A objeção supõe que o sono sem sonhos seja a experiência de um adormecido, isto é, que o sujeito da relação sujeito-objeto persista sem objetividade, e que o corpo de vigília continue no sono porque outros o veem, mas os outros corpos, como o próprio, são noções pertencentes ao estado de atividade mental em curso, e o que outros observam no corpo ou no cérebro de quem dorme faz parte da vigília deles e é relatado como parte da vigília de quem desperta, ao passo que, sem experiência objetiva, não há corpos nem outros, de modo que o problema é mera confusão de pontos de vista, pois do ponto de vista da não-dualidade não há personalidade, nem adormecido, nem corpo adormecido.
6. Redução ao absurdo
1. Ainda que se admitisse, para argumentar, a existência latente do pensamento e a persistência do corpo de vigília no sono profundo, para ter consciência de sensações que afetam o corpo de vigília é preciso já estar desperto.
2. O sono sem sonhos dura pouco em relação ao período total de repouso, normalmente de uma a três horas, estando a objetividade presente sob alguma forma no restante do tempo, mas essa referência à duração só vale do ponto de vista empírico e carece de sentido do ponto de vista metafísico.
7. O intervalo entre dois pensamentos
1. Como a ação mental não é contínua e cada pensamento, sentimento ou percepção tem começo e fim, há entre uma mentação consciente e outra um intervalo que, do ponto de vista dualista, parece infinitesimalmente breve, mas que em si transcende a noção de tempo, pois o tempo só é experimentado quando há atividade mental, razão pela qual esse intervalo costuma escapar à atenção e, quando se tenta pensá-lo, aparece como nesciência.
2. Essa suspensão periódica da atividade mental é idêntica ao sono sem sonhos, experimentado assim a todo instante no meio da vigília e do sonho, o que confirma que a não-dualidade persiste como fundo da dualidade, comparável ao papel sobre o qual estas palavras estão impressas.
8. Outros estados idênticos ao sono
1. Desmaios, catalepsia, anestesia total, transes em que o pensamento se aquieta e a distração em que, perguntado sobre o que se pensa, só se pode responder que não se pensava em nada caracterizam-se igualmente pela ausência de dualidade e são idênticos ao sono profundo e ao intervalo entre dois pensamentos, pertencendo qualquer diferença aparente apenas ao estado mental que os precedeu ou seguiu.
2. Os transes em que a mente está ativa, com visões ou vozes de qualquer natureza, proféticas ou não, pertencem ao domínio da dualidade e devem ser classificados com os demais estados duais, salvo quando ocorre algo da natureza da expressão verbal da não-dualidade.
9. Resumo da Parte I
1. Dos três estados humanos, vigília e sonho são estados de atividade mental marcados pela dualidade de sujeito consciente e objeto, enquanto o sono sem sonhos é estado de não-dualidade marcado pela ausência de experiência objetiva e pela presença contínua do eu real, descritível como ser absoluto, princípio da consciência e paz, que permanece inalterado nos três estados mas fica encoberto, como o sol, quando surgem pensamentos, sentimentos e percepções, sendo então experimentado apenas indiretamente através do sentimento de existência pessoal, da consciência de objetos físicos ou mentais e do apetite, cujo fim último é sempre a cessação do desejo, isto é, a paz incondicionada, restando antes examinar a natureza da experiência objetiva, ou seja, da vigília e do sonho.